O Gerente da Noite por John le Carré

É o mais industrioso livro de um dos maiores romancistas do nosso tempo. Notabilizado durante o período da Guerra Fria por livros memoráveis como “O espião que saiu do frio”, “A toupeira”, “A gente de Smiley”, quando se desmoronou o Muro de Berlim, John le Carré mudou de agulha e mantendo a magistralidade da escrita passou a versar os dramas do nosso tempo: a desregulação financeira e os seus aproveitadores; a manipulação dos conflitos étnicos como forma suave de agressão entre potências; a interação entre o tráfico da droga e das armas; a criação artificial de tensões devido ao uso de informações não validadas ou a manigância de levar antigos espiões a encontrarem-se para serem alvo de uma operação orquestrada de falsas ondas terroristas, etc, etc.

“O Gerente da Noite”, surge em 1993 e Publicações Dom Quixote acaba de reeditar atendendo a que o romance é a fonte inspiradora de uma popular série televisiva que corre mundo.

Tudo se passa quando a Guerra do Golfo acabara de rebentar, estamos em Janeiro de 1991. Jonathan Pine é o britânico gerente do turno da noite do luxuoso Hotel Meister Palace, em Zurique. Vai chegar um importantíssimo hóspede, o Sr. Dicky Onslow Roper, que viremos a saber é uma das figuras mais sinistras que transaciona armas poderosas. Aqui vai aparecer uma beldade morena, Madame Sophie, por conta de Freddie Hamid, um dos três irmãos Hamid, donos de uma boa parte do Cairo. Pois é esta Madame Sophie pede discretamente ao gerente da noite que copie um conjunto de documentos secretos, que se vão revelar explosivos, trata-se de um contrato entre a Ironbrand, de Nassau, para a empresa Interárabe Hamid. Pine, discretamente tira uma cópia para si e fica a saber que estão a negociar em mísseis e em produtos químicos como o Sarin. Madame Sophie pagará com a vida a cópia daqueles documentos que o gerente da noite entregará a um representante da inteligência britânica. São factos que compreenderemos adiante, Jonathan Pine é recrutado pelos Serviços Secretos que o vão envolver numa sofisticada operação que conduzirá o gerente da noite à confiança quase absoluta do grande traficante de Nassau. No fundo, a operação que se monta é de criar a imagem de que Pine é um perigoso delinquente e assassino a contas com várias justiças. Para além da trama se transformar numa espiral de ansiedade para o leitor, o malabarismo e o altíssimo recorte literário de John le Carré manifesta-se em todas as situações ao longo de 600 páginas. Alguns exemplos: “Jonathan Pine, filho único, feito órfão de uma beldade alemã sucumbida ao cancro e de um sargento de infantaria britânico morto numa das guerras pós-coloniais do seu país”. Mais adiante, alguém faz o panegír10_livroico do traficante Roper: “Passar o nosso tempo com o Sr. Onslow Roper é um privilégio, um Carnaval. Há muitos que, quando abordam os meus clientes, os desprezam. Bajulam, trazem presentes, lisonjeiam, mas não são sinceros. O Sr. Roper tratava os meus clientes como seus iguais. É um cavalheiro, não um snobe. O Sr. Roper felicitava-os pela sua riqueza. Por porem a render o dom que a natureza lhes proporcionara. O mundo é uma selva, dizia ele. É correto que os fracos fiquem pelo caminho. A única questão que se põe é a seguinte: quem são os fortes. Depois obsequiava-os com uma sessão de cinema”. A descrição das festas que Roper oferece aos seus convidados é alucinante e quase explosiva, são manejadores, negociantes de terras, gente que proporciona a Roper uma carapaça de respeitabilidade, vêm políticos, triunfadores em offshores, árabes sorridentes, magnatas malaios, judeus iraquianos com palácios na Grécia e empresas em Taiwan, advogados parolos do Wyoming, financeiros da banca comercial londrina, capatazes sabidos e sabidos encobridores das leis.

Mas “O Gerente da Noite” é também uma história de amor, Jeds, a companheira de Roper e Pine, acabarão apaixonados, tudo numa atmosfera de tensão quase irrespirável. E Pine vai assistindo às reuniões em que se recebe droga e entregam armas. A descrição que o romancista faz de um encontro num ponto ermo do Panamá é uma preciosa peça literária: “O acampamento era dominado por uma tribuna, atrás da qual havia um muro triangular branco, com slogans pintados. Mais abaixo um círculo de casas feitas com tijolos de cinzas e cimentos, cada uma delas com a respetiva utilização pintada na porta em figuras obscenas: a cozinha com uma cozinheira nua da cintura para cima, a casa de banho com as suas figuras nuas no banho, a clínica com os seus corpos ensanguentados; a escola de instrução técnica e esclarecimento político, a casa dos tigres, a casa das serpentes, a casa dos macacos, o aviário e, num pequeno outeiro, a capela, de paredes decoradas com uma Virgem e o Menino bem roliços guardados por guerrilheiros armados de Kalashnikovs”.

Jonathan Pine será desmascarado e é nesse preciso instante que os seus instrutores montarão um plano para o libertar, a troco da impunidade do canalha Roper. Têm então lugar reuniões tanto crípticas como surrealistas entre britânicos e norte-americanos, outro espanto de descrição. Aceita-se como inquestionável o que se escreve na contracapa deste magnífico romance: “Numa história arrepiante sobre agências de inteligência corruptas, etiquetas de preço de milhões de dólares e a brutal verdade do comércio de armas, John le Carré cria um mundo claustrofóbico onde não se pode confiar em ninguém”. É o mais industrioso e o mais revelador romance dos venenos da globalização inigualitária.

 

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