O Facebook é brutal

Já se tornou um clichê referir que as redes sociais aproximam os que estão longe e afastam os que estão perto. A ideia pode parecer radical, porque as vantagens que a utilização do Facebook e afins nos trazem são, aparentemente, muitas – podemos partilhar os nossos momentos mais felizes com aqueles de quem gostamos e de quem, normalmente, não receberíamos notícias imediatas.

Podemos utilizar os chats das redes sociais para combinar encontros ou apenas para desabafar. E quantas vezes tentamos explicar a alguém quem é a pessoa A ou B, e logo nos lembramos de mostrar o perfil facebookiano da mesma?

Há utilidades indiscutíveis e inutilidades infindáveis. Há pessoas que, no dia-a-dia “real”, na vida comum de todos os dias, são incapazes de se defender, de defender direitos, até de ir votar (!!).

Mas coloquem-nas atrás de um computador, protegidas pelo anonimato, e vão ver quantas linhas escritas repletas de emoções primárias (e de erros ortográficos) lhes saem dos dedos.

As opiniões tornaram-se gratuitas. Tornou-se obsoleto pensar antes de falar (ou escrever). E ganhou-se um vício que deixa os povos “modernizados”, de “primeiro mundo”, “sofisticados”, completamente doentes e alucinados – o vício do “gosto”. Aprovem-me, por favor. Coloquem um gosto na minha foto. Vá lá. Que eu tiro a foto mais bestial, mais insana, mais louca e bem conseguida, só para ter a vossa aprovação instantânea. Façam-me sentir que gostam de mim durante uma hora ou duas. Que eu viro-me do avesso só para vos agradar.

E por causa desta doença, surgiu a moda da selfie. Para quem desconhece, “selfie” é o termo utilizado para designar uma foto da própria pessoa, nas mais variadas situações. Ora, quem é que não gosta de ver as selfies das raparigas de 15 anos nos espelhos da casa de banho do Continente de Portimão? Só que estas selfies, ainda que completamente inúteis e ainda que mostrem sinais de fraca inteligência e suscetibilidade a modas ridículas, são inofensivas. São apenas egocêntricas. Depois há as outras.

Em Fevereiro de 2016, na Argentina, dois golfinhos bebés foram retirados do mar por banhistas, que, com fome de aprovação cibernauta, os passaram de mãos em mãos, para tirar uma selfie. Um deles morreu. Em Março, na Macedónia, uma turista puxou um cisne de um lago, para obrigá-lo a tirar uma foto consigo. Partiu-lhe a asa e o pescoço. O cisne morreu. Em Junho, no Líbano, uma tartaruga em vias de extinção foi também vítima da loucura, da procura da fama instantânea. Os (in)humanos colocaram-se em cima dela, arrastaram-na pela areia, picaram-na com paus. A tartaruga partiu a cabeça e vários ossos do corpo. Os zoos um pouco por todo o mundo estão a aceitar que se pague para tirar fotografias com leões e tigres – e todos os dias estes animais são injetados com drogas para estarem tão anestesiados que não conseguem reagir. E “click”! Uau, a espécie racional acaba de ter um momento mágico. Mas rápido, têm que correr para um local com acesso à internet, para que atualizem a foto de perfil do facebook! Porque… Se não estiver lá, é como se nunca tivesse acontecido. E depois? Quem é que vai “gostar” deste feito?

Será para quando o dia em que a humanidade acordará desta hipnose coletiva e ridícula? Transcende-me que a mesma pessoa que é tão cheia de si e de opiniões disparadas em todas as direções na internet, seja a mesma pessoa que não defende os seus pares na rua. Que aquela que faz bullying online não se saiba defender cara-a-cara. Que aquela que assina petições anti-tourada seja a mesma que tira as selfies com os golfinhos e tartarugas nas praias… Quanta incoerência, quanto narcisismo, quanta ignorância e falta de respeito. E a pergunta que não me abandona a mente: o que mais terá que acontecer para que este vício acabe?…

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