O Evangelho social de Francisco: Um apelo a uma alternativa humana à globalização exclusiva

“Terra, Casa, Trabalho”, com coordenação de Alessandro Santagata, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2018, reúne discursos do Papa Francisco que exprimem o que lhe vai na alma sobre a evangelização social. São discursos onde se fala aos excluídos da Terra do novo milénio, foram proferidos diante de uma plateia de representantes de movimentos sociais de todo o mundo. O nosso tempo não se compadece com as boas intenções da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, sobre a condição operária. Tudo mudou: a dimensão e a natureza do operariado, vivemos numa era de globalização e na sociedade digital, pontifica no mercado o frenesim neoliberal.

Os adversários do Papa Francisco carregam-no de epítetos: “Bolchevique de batina branca”, inimigo do capitalismo e do mercado, Papa dos verdes. O pensamento do Papa orbita em torno dos conceitos de terra, casa e trabalho, acrescente-se-lhe as preocupações com a democracia, a proteção ambiental, a condição dos emigrantes e dos refugiados. Francisco não tem uma receita para se sair desta crise, aposta incondicionalmente num projeto de grande aceitação à escala mundial com fraternidade e justiça, e propõe um método que é o diálogo incessante, ele é favorável à cultura do encontro e na aceitação da diversidade como riqueza, ele recorre à imagem do poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade. O seu pensamento quanto a um desenvolvimento integral assenta na ideia que “a liberdade caminha de mãos dadas com a responsabilidade de salvaguardar o bem comum e de promover a dignidade, a liberdade e o bem-estar do próximo, abarcando pobres, excluídos e as gerações vindouras”. Enfim, um novo humanismo, sob o primado da terra, do teto e do trabalho. E o pontífice adianta: “Este apego ao bairro, à terra, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias, porque elas existem, e com os seus heroísmos quotidianos é isto que permite realizar o mandamento do amor. Precisamos de instaurar a cultura do encontro, porque não se ama os conceitos nem as ideias; ninguém ama um conceito, ninguém ama uma ideia: amam-se as pessoas”.

Amiudadas vezes, Francisco verbera a globalização que exclui, diz não a uma economia de exclusão e de desigualdade, em que o dinheiro reina em vez de servir. “Esta economia mata”. Terra, casa, trabalho envolve educação, saúde, inovação, as manifestações artísticas e culturais, a comunicação, o desporto e a recreação. “Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar de uma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com direitos plenos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice”.

Verbera igualmente o colonialismo nos meios de comunicação social: “A concentração monopolista dos meios de comunicação social, que pretende impor padrões alienantes de consumo e uma certa uniformidade cultural, é outra das formas que adota o novo colonialismo”.

Alessandro Santagata procura explanar no seu posfácio a matéria destes encontros mundiais dos movimentos populares, que o pontífice estimulou. Para vários exegetas, Francisco é pós-ideológico, porque foi além da formulação tradicional da doutrina social, do interclassismo e do paternalismo da formulação tradicional da doutrina social. Agora, a instituição eclesiástica propõe-se como espaço de encontro. As raízes deste pensamento assentam no seu devotado trabalho como Arcebispo de Buenos Aires, uma teologia do povo sem afinidade com a teologia da libertação. Sem menorizar o papel da religiosidade e da piedade, ergue a sua voz dizendo não à precariedade laboral, não à ditadura da dívida, não à economia da exclusão, à desigualdade que gere a violência e à globalização que gere a indiferença. “No pensamento político do Papa Francisco, o povo é identificado como o único sujeito coletivo, uma pluralidade unificada, infalível na crença e autónoma da política dos que pretendem defini-la e orientá-la”.

Trata-se de um evangelho social onde se interligam a solidariedade, a reforma agrária, a justiça no mundo laboral, a dignidade humana no centro de tudo, uma evangelização com soluções, uma economia ao serviço dos povos, repudiando todos os disfarces das manobras colonialistas, um profundo respeito pela nossa casa comum que está a ser saqueada e impunemente vexada. Toda esta evangelização pressupõe o derrubo de muros, o saber dizer não à ditadura global da economia, a dádiva da vida, sempre com a esperança no desenvolvimento humana integral.

Uma evangelização que aponta o caminho para a simplicidade e a autenticidade de vida, como Francisco apela: “Diante da tentação da corrupção, não há remédio melhor do que a austeridade, a austeridade moral, pessoal: e praticar a austeridade é, ainda mais, pregar com o exemplo. Peço-vos que não subestimeis o valor do exemplo, porque este tem mais força do que mil palavras, mil panfletos, mil vídeos no YouTube. O exemplo de uma vida austera no serviço do próximo é o melhor modo para promover o bem comum. Peço-vos a vós que não vos canseis de praticar esta atividade moral, pessoal, e peço a todos que exijam dos dirigentes esta austeridade que, de resto, os fará sentirem-se muito felizes”.

Como se escrevia na revista Il Manifesto, “A grande inovação de que o Papa Bergoglio é paladino consiste em dizer que é preciso amar e ajudar os pobres para conseguir o Céu, mas também que devemos levantar a cabeça e lutar aqui e agora, nesta terra e neste tempo”.

Textos elucidativos do novo pensamento social da Igreja de Roma.

Joseph Jefferson Farjeon (1883-1955), foi um escritor britânico muito aclamado, autor de mais de 60 histórias de crime e suspense, Alfred Hitchcock adaptou-o ao cinema. “Mistério em Branco, um crime no Natal”, Livros do Brasil, 2018, foi publicado originalmente em 1937 e reeditado em 2014, revelou-se um best-seller internacional. Estar retido por um nevão é um aliciante que grandes escritores de crime e mistério não descuraram, recorde-se a celebérrima peça de teatro “A Ratoeira”, de Agatha Christie, que nos deu o não menos famoso “Um Crime no Expresso do Oriente”.

Numa atmosfera em que ainda não se suspeita que está para breve a II Guerra Mundial, em vésperas de Natal, um intenso nevão obriga um comboio a interromper viagem junto à pacata aldeia britânica de Hemmersby, aldeia fictícia. Desesperados pela espera, um grupo de passageiros decide sair para procurar refúgio, após uma caminhada depara-se com uma casa escondida entre a folhagem. A porta está aberta e lá dentro a lareira brilha e o chá está posto na mesa, mas não há ninguém. Os membros do grupo exploram a estranha casa, a aventura, os crimes e a trama misteriosa vão desenredar-se.

É uma escrita elegante, com diálogos bem cuidados, as personagens apresentam-se, logo se realça o senhor Edward Maltby, da Real Sociedade Espírita. Após insuportável espera, metem-se ao caminho, sentem-se perdidos, surge um portão ao dobrar de uma curva, não hesitam, quase cegos pelos flocos de neve, tocam à porta, ninguém atende, gira-se a maçaneta, entram numa casa habitada, uma pintura a óleo impressiona-os. Procuram os donos da casa, há um silêncio intrigante, na cozinha uma não menos intrigante faca caída no chão. Os caracteres esboçam-se, há mesmo quem fale em calão. Alguém tenta sair à procura da povoação, o tempo é inclemente, é obrigado a regressar. O Sr. Maltby é um bom questionador. Alguém vai referir que havia um morto no comboio, interrogam-se sobre o crime e quem o praticou.

Vasculha-se a casa, descobre-se que há uma divisão fechada à chave. Um tal Sr. Smith, que fala em calão e que também pretendia ir à sua vida, regressa em muito mau estado. Há muita desconfiança no grupo, como é natural. O autor introduz um elemento contributivo para eliminar diálogos e manter o leitor capturado pelo que se vai seguir, uma passageira que se magoara vai escrever no seu diário e contando a evolução dos acontecimentos, reinterpreta do leito as impressões que lhe chegam. Esfomeados, avizinhando-se a noite de Natal, atacam a despensa e fazem uma refeição. Vão aparecendo indícios, uma carta rasgada, uma carteira abandonada, o Sr. Maltby vai procurando descodificar, gosta muito da dedução, acumula provas, todas elas díspares.

E assim, como novelo, vamos descobrindo a história de família, quem é o guardião da casa, um velho crime, vão aparecendo mais pessoas, as peças do puzzle juntam-se, os novos membros do grupo também têm histórias para contar e o leitor inteirar-se-á de que aquela casa, Valley House, está na origem de ódios velhos e de uma vingança preparada com alguma imaginação. Tudo se vai esclarecendo sobre os proprietários de outrora e os atuais e os planos do criminoso. Elaboram-se planos para encurralar o assassino, surge o guardião da casa e conta uma história que tem mais de vinte anos, mete testamento secreto e dinheiro escondido, aos poucos tudo fica bem claro. Há momentos em que estamos a escutar o Sr. Maltby e sentimos as correntes filosóficas do tempo, o que se pensava do progresso, até da evolução (darwinismo), parece pairar no ar a dedução de Sherlock Holmes e os métodos de trabalho que vamos encontrar nos grandes mestres da literatura de crime e mistério das décadas de 1930 e 1940, um exemplo dado pelo próprio Sr. Maltby:

“Tudo aquilo divertia o meu sentido analítico, sobretudo a cena final da noite passada. Como posso explicar o que quero dizer num sentido mais lato, de modo a que fique a compreender? Alguma vez perguntou a si próprio como é possível que duas borboletas que estão separadas por uma grande distância sejam capazes de se encontrar? Como é que milhares de abelhas, que carecem da nossa pretensa inteligência, regressam, no fim do dia, à mesma colmeia sem um mapa ou um relógio que as guie? Como crescem as árvores adotando formas diferentes, mas com equilíbrio? Como é que gotas de água separadas se juntam, num ato de obediência coletiva, a uma massa de matéria morta chamada Lua e, durante seis horas, vão numa direção e nas 6 horas seguintes, noutra? Alguma vez perguntou a si próprio como o seu Ser Inevitável surgiu?… Não é possível explicar essas coisas. O que podemos é ter consciência, em certos momentos raros, da ação de um vasto Desígnio e essa consciência pode dever-se à nossa própria visão intensiva ou à simplicidade da paisagem pela qual viaja. A paisagem pela qual nós temos viajado foi tão simples e ordenada que quase achámos que o vasto Desígnio estava cansado ou de férias e quis uma pequena distração”.

Obra muito bem estruturada, que inclui até um romance amoroso, bons ingredientes para crimes que se arrastam por mais de vinte anos e culminam em pleno dia de Natal. Joseph Jefferson Farjeon merece ser conhecido pela qualidade do seu entretenimento.

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