O Assassínio de Cinderela, por Mary Higgins Clark

O século XX viu florescer um subgénero literário que galvanizou multidões: os romances e contos de crime e mistério, popularmente conhecidos por livros policiais. Apareceram detetives e investigadores de todos os tipos: intelectuais, tipo Philo Vance ou Ellery Queen, figuras bizarras como Hercule Poirot ou Nero Wolfe, o aparentemente trivial inspetor Maigret, todos os formatos foram e continuam a ser admissíveis. Aí pela década de 1920, e na continuação de um êxito retumbante que eram as histórias de Sherlock Holmes, os escritores deram prioridade ao chamado romance-problema, um caso a deslindar com base em desaparecimento, crime, sequência de crimes, pondo-se a hipótese de vários suspeitos, com uma construção aparentemente fluída em que o intrincado das situações é revelado pelo investigador, habitualmente em reunião com todos os possíveis implicados. Uma das vertentes do romance-problema é voltar ao passado, convoca-se décadas depois de um crime ou assassínio em que não se descobriu o autor uma trama que obriga o regresso ao passado e, claro está, desta vez tudo ficará esclarecido. Atenda-se ao que se lê na contracapa do romance “O Assassínio de Cinderela”, por Mary Higgins Clark e Alafair Burke, Bertrand Editora, 2016: “Laurie Moran, produtora televisiva, está delirante com o sucesso do seu programa Sob Suspeita. Este programa, que recria casos por resolver, ajudou a solucionar um homicídio logo no primeiro episódio. Agora, Laurie tem o caso ideal para o seu próximo programa: o Assassínio de Cinderela. Quando a bonita estudante universitária Susan Dempsey foi encontrada morta, o caso levantou muitas perguntas. Porque estava o seu carro estacionado a quilómetros do seu corpo? Teria chegado a aparecer para a audição combinada em casa de um realizador? Porque quererá o namorado de Susan esquivar-se a perguntas sobre a relação deles? E porque faltava um sapato a Susan quando o seu corpo foi encontrado? Laurie sabe que este caso vai dar um excelente programa, especialmente porque os antigos suspeitos pertencem à elite de Hollywood e do mundo da tecnologia. O suspense e o drama são perfeitos para o pequeno ecrã, mas estará o assassínio de Cinderela pronto para um grande plano?”.

5_sugestão de leituraTemos pois uma história com reality show na reconstrução do crime, convidando os amigos e conhecidos de Susan para depor. Houve sempre uma forte atração na literatura mundial pelo jogo de espelhos e a confluência de artes: o teatro dentro do teatro, o baile na ópera, o cinema no cinema, o ecrã da televisão no local do crime, e agora os telemóveis a permitirem a caçado ao criminoso. Mary Higgins Clark é uma grande senhora da literatura de crime e mistério, os seus mais de 30 romances venderam impressionantes milhões de exemplares por todo o mundo. Uma das suas marcas de água é construir as tramas dos seus romances num regime de plausibilidade dentro da vida corrente. Assim ocorre o assassinato de Susan Dempsey, sem descoberta do homicida. Assim o alvoroço de Laurie Moran a dar tudo por tudo por juntar todos aqueles que tinham estado envolvidos no assassínio de Cinderela, do namorado ao entrevistador passando pelos diferentes amigos e pessoas mais chegadas. A ação do romance decorre dentro da movimentação que acompanha a preparação do programa televisivo, há telefonemas e disponibilidades para dar testemunho, sentimos a intrusão de uma seita e de um iluminado de má índole. Alguns dos protagonistas são agora gente conceituada no mundo digital, peritos informáticos. O leitor tem direito, pelas entrelinhas, a perceber como há conexões entre protagonistas, naquele tempo do crime. Aos poucos, a seita Advogados de Deus emerge como uma operação de escroqueria, o leitor já não se pode desprender do entrelaçado dos capítulos, Laurie entrevista a mãe da vítima e o leitor fica sempre desorientado, a mãe de Susan insiste que o namorado dela era uma pessoa perigosa, um mentiroso e um traidor.

A ação começa a rodopiar no jogo de espelhos que é a intensidade de preparativos da realização do programa televisivo. Há sempre pontas soltas para confundir o leitor, para o manter agarrado a todas estas pessoas. Ocorre um crime, há gente ferida e numa iluminação Laurie desvenda o nome do criminoso. O que era a espiral do mistério desemboca numa tentativa de novo crime, um criminoso conduz a produtora televisiva para o local onde fora assassinada Susan Dempsey, chegou a hora de um desfecho em que o registo de algumas imagens ajudou a capturar o criminoso. E tudo termina com um final muito feliz, Laurie encontra um novo amor.

Insista-se de que estes enredos de intriga e volta ao passado são altamente motivadores. Primeiro, é o crime impune ou a injustiça de ter condenado alguém inocente, o leitor fica solidário em todo o processo da recuperação da verdade. Segundo, e à luz dos meios tecnológicos atuais, regressar ao passado pode ter o concurso do computador, da videovigilância, da denúncia por sms ou fotografia do telemóvel. E terceiro, o ingrediente clássico do regresso ao local do crime numa arquitetura de romance em que todos os intervenientes são potenciais criminosos é arrebatador quando a história é primorosamente contada, como é o caso de O Assassínio de Cinderela.

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