No interior do fruto

Ouve:

Não estás no interior dum fruto:

aqui o tempo e o sol não amadurecem

Sophia de Mello Breyner

In “Coral” (1950)

 

Pode ser assim – eu não estar dentro do fruto. Mas a verdade é que o fruto está dentro de mim. Há mais de sete décadas que os meus ventos e o sol dos outros o amadurecem. Aqui, neste meu torrão, o fruto pode ainda estar verde. Mas o verde é já uma cor. Filha da água e do sol. Deste meu barro e desta minha pulsão.

Sophia tem a profundidade do seu poço de poesia. Onde sempre habitou. Onde habita e permanece. Eu tenho apenas o orvalho do respirar do meu sentimento. Mas essa respiração envolve tudo, porque tudo é o miolo do meu fruto ainda por amadurecer. De uma forma incandescente, diz isto mesmo David Mourão Ferreira n’Os Amantes: ”Chego a pensar que fiquei soterrado sob o estranhíssimo aluvião de tantas imagens da minha vida”.

Aqui está uma forma belíssima do poeta definir o tempo, memória do que passou, gravado na película ininterrupta das imagens de uma vida. De cada vida. Imagens que, à falta de aprofundamento, ou por conceitos pessoais, muitos pretendem classificar de tempo.

 

Ora era até aqui, a essas imagens e à memória delas, que eu queria chegar.

Deixemos as minhas teorias (a que, quem quiser, poderá classificar de convicções erradas ou jactantes).

Sophia diz-me que não estou “no interior do fruto”. Mas a verdade é que, como já referi, o fruto vai amadurecendo, dia a dia, dentro de mim. Embora gravado, já riscado e desgastado na película de celuloide da bobine enlatada na minha cabeça, resta o degradé das suas cores e a nitidez do seu preto-e-branco.

Apesar do animatógrafo da minha mente ser ainda da era do cinema mudo, no sonoro já oiço o palpitar do fruto e a minha primeira saída para Lisboa por necessidade de ganhar o pão nosso, e o desejo quase bíblico, de Jacob por “Raquel, serrana bela” que se tornou a minha paixão por ingressar na Escola de Belas Artes. Mas a escola não tinha curso noturno e, de dia, já eu trabalhava como desenhador de arquitetura.

Nesse edifício, só agora entrei pela primeira vez! Sempre com o desejo a crescer. Aproveitando tudo o que tinha à mão e tentando não perder cá fora uma só exposição de arte que estivesse ao meu alcance. Engrossando a minha sensibilidade, o meu sentimento e o meu prazer. Até agora, em maio.

Nunca no meu desejo sonhei com o fruto imaturo. Nem a cor lhe conhecia. Nem o lugar. Mas uma vez que me caiu na concha das mãos no dia certo da maturação, seria imperdoável não referir a “árvore do paraíso” que o gerou. Proibido à minha cobiça durante séculos.

É preciso trazer para os nossos dias o sabor do tempo e o perfume do fruto.

Para a relação entre a Faculdade de Belas Artes e a sua raiz mais profunda, teremos que relembrar a história e o conhecimento:

 

  1. Francisco de Assis nasceu em 1182 e faleceu em 1226.Com 44 anos de idade. ”Depois de uma juventude irrequieta e mundana”, ouviu um certo dia Alguém chamar por ele, pedindo:” Francisco, reconstrói a minha Igreja”. E a obra brotou-lhe do coração e da alma. Proclamou a bondade do Criador e as maravilhas da criação. ”Amou todas as criaturas chamando-as de irmãos” e “dedicou-se aos mais pobres dos pobres” criando a Ordem Mendicante dos Frades Menores (Franciscanos).

O indiscutível homem das artes que é Luís Miguel Cintra, diz que, na Arte, “o poema mais belo e mais simples é o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis”, que termina assim: ”Louvado seja Deus na mãe querida

A natureza que fez bela e forte

Louvado seja Deus pela irmã vida

Louvado seja pela irmã morte”…….

 

……………………………….Como se fosse mais um louvor, é grato divulgar o que, para muitos, será desconhecido ­ a honra que nos dá a atual Faculdade de Belas Artes de Lisboa ter germinado com o calor do bater do coração de S. Francisco de Assis que, em 1217, providenciou a fundação do convento que foi, depois, chamado de S. Francisco da Cidade.

“A edificação foi feita em cima de uma rocha (…) no Monte Fragoso, área deserta e sem povoamento”. S. Francisco morreu nove anos depois da fundação.

Claro que o edifício não é o primitivo. Destruído por vários cataclismos e demolições, foi sendo reconstruído. Após a extinção das Ordens religiosas, em 1834, o convento e suas extensas galerias, “foi utilizado como depósito de livros (dos outros conventos extintos). Em 1836 foi lá instalada a Biblioteca Nacional e, nesse mesmo ano, pela primeira vez, a ACADEMIA DE BELAS ARTES. Anteriormente, além da função de templo e convento, foi ainda utilizado como hospital e albergue”.

Uma extraordinária história de oito séculos, que muito honra e dignifica a ilustre FACULDADE DE BELAS ARTES DA UNIVERSIDADE DE LISBOA, assim oficializada em 2012.

Às imagens da minha vida que permanecem no fruto quase maduro, junta-se, de repente, o aluvião do Mundo a meus pés ­ o convite para descobrir os tesouros da faculdade. O fruto por dentro e ao vivo. Amadurecido.

O edifício esteve aberto ao público durante dois dias para dar a conhecer a sua extraordinária beleza arquitetónica e mostrar centenas de trabalhos dos alunos de todos os anos.

Para mim, primeiro foi entrar num sonho/desejo de uma vida, que me fez fecundar o fruto que o momento amadureceu, empurrando-me para o sonho. O desejo leva-nos a tudo. Mas nunca imaginei poder ser insonhável. Foi como se tivesse entrado acordado num manicómio, concreto e real, desta experiência dos sentidos.

 

Senti-me senhor de um caleidoscópio binocular com um óculo orientado para a beleza da obra construída e o outro para as obras expostas ou espalhadas pelas paredes mesas e chão. Ao meio o fluir e refluir de muitas pessoas (a maioria jovens) que se misturavam com a luz e com as cores numa girândola de lajes de mármore pedra gesso vidro luz cor branco sombra tintas pincéis óleos acrílicos telas muitas telas madeira aço arame cordas panos. E, logo no corredor da entrada, de um lado e outro, em baixo-relevo, o ímpeto de uma fuga de cavalos nus, de crinas e caudas desgrenhadas pelo vento pela fúria pela elegância pela beleza. A fúria de uma tempestade o relinchar do cio. A sumptuosidade daquela escada de caracol que em mármore alvíssimo escorre por dois pisos ligando o inimaginável ao real, a verdade do belo à mentira imaginada da arte. O labirinto dos extensos corredores com as centenárias cantarias numeradas e identificadas das celas de meditação e flagelação dos fantasmas dos monges que as utilizaram. Com o branco a jogar às escondidas com a iluminação das abóbodas o sol estilhaçando as vidraças das esguias janelas, entrando por elas a jorros tentando esconder-se nos ângulos da sua própria sombra. Numa orgia, numa loucura. E a fauna dos loucos, talvez também com visões e desejos de sete décadas.

 

…………………………………..com estas visões estonteantes, não sei se não fiquei ainda mais louco do que sou………….

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