Natal económico para a bolsa, esbanjador em afetos

Eu começo o meu Natal no dia 1 de Janeiro, planeio a agenda do mês para encontros, entrega de escritos, telefonemas para quem vive longe e perto, aos 70 anos não se pode confiar só na memória. Percorro mercados à procura de pechinchas e peças que interessem às pessoas que eu amo. Tenho o ano inteiro para saber quem se vai interessar por estes livros, aguarelas, desenhos, molduras, tecidos. Tenho igualmente o ano inteiro para mandar mails e perguntar a toda a gente o que gostaria de ler, questionar sobre obras de arte, enfim desvendar o que o outro gostaria de ter. E de Janeiro passo para Fevereiro, como sou maratonista e andarilho, vou encontrando coisas, combino almoços, idas ao cinema ou ao teatro e reparto o Natal do mês. Escuso dizer que é assim em todo o ano, não me precipito a fazer as compras à pressa e a entregar bugigangas que ninguém valoriza, coisas que vão para as gavetas, livros que não serão lidos, objetos que nunca foram desejados. É uma forma de amar duas vezes, escutar o outro e surpreendê-lo.

Evito conflitos, amarguras com cláusulas contratuais, não ando a desconfiar de como os outros me interpretam, tenho tempo para fazer o Natal todos os dias. Eu sei que é um problema de convicções, tenho comigo uma certa ideia de que aquele Natal significa que nasço e renasço com todos aqueles que encontro, de quem preciso e a quem posso ser útil. Posso ouvir canções de Natal em Abril ou Junho, posso descontraidamente percorrer as avenidas com iluminações de Natal somente para me sentir em casa, ando num certo presépio em que em vez do bafo da vaca ou do boi sinto a respiração dos outros. Para que todo isto aconteça, disponho de um espaço onde vou pondo as coisas que compro a partir de Janeiro e que vão ter destino ao longo do ano. Posso ser útil a quem não tem agenda e bloco de notas no mês de Março, já comprei, dou regozijo a quem precisa. Nunca desaponto os meus amigos cinéfilos, sempre que vou à Feira da Ladra compro dvd’s com filmes históricos, humorísticos, clássicos, sou uma Cinemateca rudimentar, nunca dou Jean Renoir a quem gosta de Sam Mendes. Enfim, na chamada época natalícia ando desafogado a escrever, a telefonar, a encontrar-me sem tensões, não é possível endividar-me assim, com esta autodisciplina do amor. Há muitas e muitas décadas atrás a minha mãe dizia-me insistentemente que nunca se vai a casa de ninguém sem levar uma flor, uma planta ou um sorriso.

Tenho impressão que há pessoas que se esfalfam para reverter a culpa de pesados silêncios, de sentidas indiferenças, paga-se com prendas o que não se dá com atenções. Não moralizo, adoto o preceito de não me lançar na correria das compras, a partir do dia 1 de Janeiro já ando a festejar as alegrias do Natal, o que me permite isentar-me das pressões publicitárias, das promoções choque, das tão propagandeadas alegrias de Natal, que não passam de relações comerciais. E dou-me bem com o sistema, na bolsa e na alma. Esbanjo-me com os outros e não tenho nada contra com este modelo de desenvolvimento pessoal.

Autor: Mário Beja Santos