Narciso

O senhor Narciso está sentado num banco do jardim, refletido pelo lago de água verde, suja de patos. Está rodeado de frio, rodeado de silêncio, rodeado do excesso de vazio de si mesmo que o transforma em ninguém. Vejo-o assim, de braço dado a um enfermeiro que não o deixa derramar-se no banco. Tem o olhar branco e congelado, como neve, embora seja Verão. As gargalhadas das crianças a brincar nos baloiços do parque e os barulhos dos aviões que partem o céu como se fosse uma pedra movimentam a tarde. Dizem não à imagem do senhor Narciso, que repele todo o tipo de animação e vida à sua volta.

Penso:
“O velho é o inverso do que foi. Vive no lado contrário de um Homem, o esquecimento, esse Inverno de ventos ciclónicos e enxurradas ininterruptas que mais não faz do que empurrar violentamente a memória em direção a um mar desconhecido. O que aconteceu ao senhor Narciso?!”

Tem a pele muito amarela e mirrada, como um ananás desidratado. Um suspiro de brisa deixa antever um aceiro aberto no cocuruto da cabeça. Quase dá para perceber e acompanhar o fraco voo de cada fio de cabelo em queda desde o momento em que a doença o arranca da cabeça e o faz aterrar lentamente no chão, junto às beatas e aos papéis à solta na calçada.

O senhor Narciso é uma árvore de folha caduca igual às que ainda se mantêm verdes e frondosas nas margens do jardim. O Outono atacaou-o primeiro. A pequena barbicha pendurada no queixo branqueou de vez, apesar de manter aquela forma de pincel de barbear. Só o lenço de um verde que parece arrancado à cabeça dos patos na água suja e refletida do lago parece reverberar um pouco de vida.

Olho-o com atenção. Vejo-o. Penso o que nunca pensei pensar. Sinto o que jamais futurei sentir: pena do senhor Narciso. Este sentimento pesado agravou-se, não tem parado de crescer, como uma gravidez infinita, até aos dias de hoje, pelas razões que explico de seguida.

Reencontrei o senhor Narciso numa altura particularmente sensível da minha vida. Esse acaso veio a revelar-se no melhor momento da pior fase da minha existência.

Tinha sido a primeira vítima de um plano sanguinário de reestruturação económica do jornal, falhava, pela segunda vez consecutiva, o pagamento da prestação da casa ao banco, a Rebeca, que se apresentava aos meus amigos como minha namorada, saíra de casa, picada por uma ridícula crise de ciúmes em relação a uma concorrente de um programa de entretenimento culinário transmitido em Portugal. Apesar de gravado nos antípodas, num país que jamais os sonhos me dariam autorização de visitar, a Rebeca insinuava, fazia birras e comentários grosseiros. Por vezes, chegou mesmo a insultar-me. Dizia que aquela concorrente que eu nunca tinha visto, nem mais gorda, nem mais caramelizada, nem mais bem ou malpassada, se assemelhava a uma ex-namorada minha. Como é que ela tinha tido conhecimento da aparência dessa mulher, não sei, mas é conhecida propensão que a televisão tem para exagerar a mentira. Pela minha parte, não encontrava a mais remota semelhança entre essa ex-namorada e a concorrente. No início, sorria, tentava pôr alguma água na fervura, chamando-a com frases açucaradas à razão. Sem êxito. A Rebeca dizia que eu estava a defender a cozinheira do programa de culinária.

– Já não a posso ver, nem de molho de tomate! – gritou, por fim, um dia, enquanto, do lado de lá da televisão, a concorrente tentava explicar o processo de confeção de macarrão. – Acabou a humilhação. Vou-me embora! – E saiu, lívida e exaltada, como leite a ferver.

Para agravar esta crise de dinheiro, solidão e autoestima, o grande desafio a que me propusera uns seis meses antes continuava enterrado na estaca zero. O livro não saía, por falta de material, por falta de tema, por falta de talento e por uma procrastinação igual à do instinto que evita o confronto com a água fria quando a bilha do gás se esgota a meio do banho.

Deambulava sem sentido pela cidade à procura de um motivo, de um acontecimento vibrante que se apresentasse com uma personalidade específica, iminente, envolvido por um ambiente concreto. Ansiava pela ocasião em que uma centelha inusitada alastraria a combustão ininterrupta de uma narrativa.

O dia em que reencontrei o senhor Narciso, era mais um em que seguia sem rumo, movido por essa busca incessante. Digeria ainda um almoço enfadonho em casa dos meus pais em que, declarei, já sem munições nos argumentos, a minha capitulação. Tinha acabado de aceitar, cabisbaixo, a proposta condescendente de regressar a casa deles, ao quarto onde as estações que passavam não me traziam nem o sol da infância, nem as tempestades da adolescência. Olhava o espelho e não encontrava o meu olhar.

Aceitar a ajuda dos meus pais obrigou-me, ao mesmo tempo, a colocar a minha casa à venda. Por isso, quando saí à rua para chorar um cigarro, alienado e sem saber a quantas andava o meu coração mole, o reencontro fortuito com o senhor Narciso, acabou por aliviar a amargura que carregava dentro de mim como um rebuçado de mel ludibria a bronquite. Apesar do transtorno sísmico provocado por aquela ruína humana que me abalou indelevelmente até ao fundo de mim, pude entender o insólito daquele dia: havia alguém pior do que eu, alguém que me dizia muito.

Foi nesse instante que comecei a tentar escrever de novo o meu livro.

(Continua)

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