Narciso IV

Não obstante os barulhos habituais lançados pela rua, à porta de casa do senhor Narciso reinava uma paz natural, rotineira, à prova de imprevistos ou movimentos de última hora. Gostava de lá ir. Depois de uns primeiros dias em que o fiz com alguma apreensão, mal terminavam as aulas, apanhava o autocarro e dirigia-me ansiosamente para o lugar do meu desterro literário. Nunca deixei, contudo, de tocar à campainha levemente, com um certo pudor, como se pressionasse a tecla com a primeira letra da palavra vergonha no computador.

Nos dias de semana, era o senhor Narciso quem vinha abrir a porta. Após uma espera que, por vezes, durava mais de um par de minutos – um fedelho não era digno de cortar a palavra a um sábio no meio de um capítulo de um poema, dizia-me, a justificar a demora – o senhor Narciso surgia, meio escondido entre a porta e a penumbra do corredor que levava ao nosso local de trabalho. O senhor Narciso, ainda muito ereto, muito digno, cheio da verticalidade da cultura universal que faz com que um homem não tenha razões para curvar a espinha diante de ninguém e que, mesmo no auge da doença, nunca perdeu, convidava-me a entrar com um gesto subtil agarrado à mão.
Por vezes, aos fins de semana ou em vésperas de feriados, era a Luísa, com o seu rosto iluminado por uns olhos radiosos de céu limpo quem me abria a porta. Esses eram momentos especiais, por mim aguardados com exacerbada expetativa, palpitações calorosas e problemas ridículos de respiração.

Ao contrário do pai, a Luísa recebia-me com um desdém opressivo que me reprimia a uma espécie de sujeição fatal. Na cara dela podiam ver-se as feições amarrotadas de quem tem à frente um calhamaço inacessível de filosofia da linguagem. Parecia estar sempre à espera de que fosse outra pessoa e não eu a tocar à campainha, pelo que, quando me abria a porta de madeira terrosa ostentava nos lábios ainda um pouco do êxtase que a visão da minha silhueta rapidamente transformava em desespero. Séria e sem nunca sorrir, como se não tivesse uma visão do futuro ou como as crónicas dos políticos nos jornais diários, balbuciava-me, num tom fortalecido por um desprezo afiado que me ia diretamente ao coração:
– Ah… és tu… outra vez. Entra. O meu pai está na biblioteca.

E eu entrava. Tinha os nervos tensos e esgotados, prestes a romper-se. Punha a cabeça em baixo – a paixão desiludida é um trabalho duro, demasiado duro para costas sonhadoras – e penetrava pelo corredor adentro como um caminhante sem mapa numa ilha misteriosa. Ia a direito, desalentado, seguindo as indicações que a Luísa me dava para cada vez mais longe dela, para cada vez mais longe de nós, pese embora, hoje, saiba bem que, durante este tempo todo, a Luísa esteve sempre em todas as mulheres que conheci.

O senhor Narciso recebia-me munido de uma lista de tarefas preparada para mim. Se tivesse trabalhos de casa, começávamos por aí. O senhor Narciso dava-me explicações gratuitas de química, física e matemática. Foi incrível, pois trouxeram resultados imediatos. As minhas notas subiram como acordes decisivos numa partitura e a vida da rua, a minha conduta de jovem marginal, rapidamente se transformou numa ideia vadia, num pretérito morto como os verbos em latim.

Depois de cumprir os meus deveres escolares, o senhor Narciso confiava-me tarefas de menor importância, como organizar cronologicamente revistas, jornais e documentos dispersos, para as quais demonstrei uma competência e um rigor desconhecidos até por mim próprio. A estas, cuja frequência veio a tornar-se cada vez mais insignificante ao longo do tempo, sucediam-se leituras de pequenos excertos, contos ou poemas criteriosamente selecionados pelo senhor Narciso, tendo em conta, não só, o meu perfil de alfabetizado sem hábitos de leitura, mas também o meu passado delinquente ainda bem fresco nalguns comentários menos próprios que fazia diante de um mundo completamente novo.

Mas cedo comecei a demonstrar tenacidade e entusiasmo nas leituras que me eram pedidas. Mergulhava em cada livro com uma vontade férrea. Virada a última página, elaborava, cuidadosamente, fichas de leitura atentas aos pormenores dos enredos dos quais era refém, como se fizesse parte dos livros e, emaranhado nas narrativas, tivesse naqueles pequenos documentos as palavras secretas para entrar e sair das narrativas sempre que me apetecesse. Quanto mais leituras o senhor Narciso me dava, quanto mais me enovelava naqueles mundos diversos de fantasia, mais a minha ambição de descobrir outras paisagens de ficção crescia.

Em muito pouco tempo, passei de livros de banda desenhada e de aventuras, para os grandes clássicos da literatura. Esse empenhado deslumbramento serviu para conquistar a confiança do senhor Narciso em doses cada vez maiores, ao ponto de, a dada altura, começar a dirigir-se-me por «meu jovem delfim» no início de cada interpelação. Rapidamente se estabeleceu entre nós a empatia firmada entre os leitores e os personagens dos livros. Sabia que podia confiar tudo o que se passava na minha cabeça adolescente ao senhor Narciso do mesmo modo que o Holden Caulfield, do «À espera no centeio», me confiava a mim. O senhor Narciso olhava-me como se tivesse finalmente encontrado o assistente com a envergadura intelectual em potência capaz de lhe dar a possibilidade de levar a cabo aquela que, para ele, era a mais arrojada e secreta experiência da literatura universal jamais desenvolvida no laboratório de sonhos a que vulgarmente chamamos biblioteca.

Embora as coisas não tenham corrido exatamente de acordo com a estratégia definida pelo senhor Narciso, o dia de hoje veio dar-lhe o mérito que a sua inabalável prosápia antecipava.

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