Na espuma dos nossos dias

“Aquele que não cultivar o seu campo morrerá de fome”- provérbio africano

Quando nascemos, a primeira coisa que fazemos é inspirar profundamente oxigénio e gritar com o susto que nos impõe. Rapidamente perdemos a memória desse primeiro momento avassalador de uma vida fora do útero. Tiraram-nos do único lugar seguro, escuro, onde a vida é apenas paz e decorre sem sobressaltos. Queremos para esse lugar voltar de cada vez que a morte de alguém que amamos nos toca, quando a rejeição nos persegue, quando a solidão nos deixa desarmados, quando a força nos foge, quando a segurança está ameaçada. Depois…

Vou dizer um cliché das lições que tenho aprendido: o homem nasceu para viver em tribo. Em nome de segurança, força, e sobrevivência. Sozinho, atirado aos elementos da natureza e aos elementos contra- natura sobreviverá pouco, morrerá por dentro, ou tornar-se-á um louco criativo desligado do grupo e funcionará apenas para a sua própria sobrevivência numa morte lenta e dolorosa.

Observando a vida de uma cidade frenética abano a cabeça parabenizando os génios da criação da vida pós-útero.

Foi de génio a ideia de desligar as pessoas umas das outras desligando-as também dos elementos naturais, desligando-as e separando-as das famílias por razões de trabalho (em altíssima rotação). Dinheiro, dívidas, tudo isto em nome da veneração à máquina de consumo, propaganda e poder. Muitos ficam loucos, perdem a criatividade, não têm a força do outro nem encontram segurança, ambas necessárias para a sobrevivência. Perecem simplesmente.
Quando o ser humano finalmente consegue parar para descansar e aproveitar, está exausto. E morre. Enquanto tudo isto ocorre, uns poucos vão destruindo o único lugar conhecido com o oxigénio que inspiramos para existir. Tal ideia é de génio.

Foi genial impôr sistemas educativos formatados, obrigatórios, iguais para todos. Todos entramos diferentes e acabamos a pensar num modelo igual e se sairmos do esquema – a caixa – somos obliterados pela máquina montada e, completamente ostracizados.

Este modelo da solidão não é suportável para o ser humano, por isso acatamos serenamente. Sabemos intuitivamente que nascemos para viver em tribo. Tornamo-nos passivos, agressivos e apáticos. Fáceis de manobrar. Ideia genial.

Foi genial criar hierarquias e grupos de poder. Os privilegiados e os outros. As elites e os outros. Morte sem viver e viver para ver chegar a morte é o único destino no caminho dos outros, pensaram os génios.

Os génios a esta hora riem-se felizes e deixam os outros atarefados com as suas provas olímpicas de sobrevivência, entre algum entretenimento e veneração nos lugares de culto e adoração criados por outros génios. Absolutamente genial.

Como me lembrou um filósofo, cada vez tenho mais “bícepes e mais pancêpes”.Graças à lei da gravidade tudo o que posso fazer é desabafar trivialidades sobre esta experiência, para o papel. Porque tudo começa a apontar para baixo.

Lamento que não se concretize a ideia genial de Woody Allen para a vida, que não nos deixa ser felizes começando velhos, evoluindo para jovens e morrendo num orgasmo.

Admiro a vida. Essa corajosa malandra que diz que no final destes jogos de poder vou ganhar uma medalha por ter tentado viver enquanto vejo como tantos a usam mal.

Ver o caminho que faço entre nascer e morrer e nela ser.

Na hora de nos despedirmos é nisso que todos vamos pensar. Quem somos, quem fomos em relação às tribos às quais pertencemos. O que elas significam para nós e como nos conseguimos elevar por causa delas. O que significamos para elas.

E essa é a única genialidade que me ocorre para combater os tais outros génios que inventaram a separação entre os seres humanos.

Faz-me pensar – sem qualquer ligeireza – em todas as dependências de que somos vítimas como resultado deste pouco amor que dedicamos à vida, incluindo redes sociais, medicação e a solidão no meio da multidão.

Só quero sair de cá sem nunca cortar o cordão umbilical com as minhas tribos, para ser uma com elas e me elevar no momento de expirar.
Ubuntu! (“Somos um com todos” provérbio africano).

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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