«Medronho#1 – o fogo não tem quatro letras» assinala o arranque da 3.ª edição de «Lavrar o Mar»

O projeto «Lavrar o Mar» está de volta para a sua 3.ª edição e insere-se no programa 365 Algarve. O Ar é o elemento de destaque nesta temporada, mas é o Fogo que marca o arranque deste ciclo de programação.

A sala fria e iluminada pelo sol, que entra pelas portadas da janela, enche-se com a revolta de «Manuel Monteiro», homem monchiquense, com dois filhos e seis incêndios de vida, porque ali «a idade conta-se pelos incêndios e a tristeza pelos filhos», que é partilhada a sua história de luto após o incêndio de agosto que lavrou na Serra de Monchique.

Manuel Monteiro dá o rosto e voz a qualquer monchiquense que viveu o flagelo do incêndio e que é retratado em «Medronho #1 – o fogo não tem quatro letras», espetáculo que assinala o arranque de mais uma edição do «Lavrar o Mar», em Monchique.

E foi na Quinta da Lameira, na casa da família de José Paulo, que a apresentação da programação teve lugar, no dia 7 de novembro. A casa escapou às chamas, mas José Paulo viu arder as suas plantações de medronheiros, investimentos e esforços de muitos anos. No entanto, diz com ar confiante, «a quinta está viva e há de continuar».

A esperança é a de que «quando tudo ficar verde os pássaros hão de voltar», por agora «é preciso ganhar força e beber medronho», atirou  Manuel Monteiro.

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António Fonseca interpreta «Manuel Monteiro»

O mote está lançado e o «Lavrar o Mar» arranca já neste fim de semana e vai estar em Monchique nos dias 10, 11, 17 e 18 de novembro, na Quinta da Lameira, onde os troncos queimados, as árvores despidas e o verde da erva se fazem notar.

Giacomo Scalisi e Madalena Victorino, responsáveis pelo «Lavrar o Mar», explicaram que, devido ao fogo, tomaram a decisão de mudar o roteiro do programa e falar do medronho que agora não existe. Criar experiências que não se esquecem e «formar a memória cultural das pessoas», são dois dos objetivos desta programação.

A saga familiar de «Romeu e Julieta monchiquenses» continua, mas com referência ao medronho que só daqui por 4 anos voltará a surgir pelas terras agora queimadas.

Da imaginação de Sandro William Junqueira e Afonso Cruz, Giacomo Scalisi, encenador, conta que a peça vai ter «duas vozes, duas histórias, duas versões do fogo» e duas personagens desta família: Ezequiel (representado pelo ator Pedro Frias), e o pai, Manuel Monteiro (que ganha vida no corpo do ator António Fonseca). De acordo com o encenador «cada um conta a sua história do fogo, fala desse grande luto que se vive na serra, dessa raiva». O desafio fica lançado e «quem vier ver o espetáculo, vai descobrir porque é que o fogo não tem quatro letras».

Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, responsáveis pelo projeto «Lavrar o Mar»
Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, responsáveis pelo projeto «Lavrar o Mar»

O que vai haver de diferente para quem acompanha as peripécias destas famílias? «Este ano não vamos beber medronho», disse Giacomo, pois «tudo ardeu e durante uns quatro anos não haverá aqui produção de aguardente de medronho» e a ideia é transmitir o luto através deste simbolismo. O encenador recorda, ainda, que para o espetáculo «Medronho #1 – o fogo não tem quatro letras», «andámos pela serra, falámos com as pessoas, vimos o luto com tudo o que tinha acontecido e a revolta».

Nesta temporada do «Lavrar o Mar», que agora começa, o público pode esperar, além do teatro, dança, música e animação. O espetáculo «Dancing!», nos dias 29 e 30 de novembro e 1 e 2 de dezembro, em Aljezur, estará integrado no Festival da Batata-Doce, que vai ser a estrela gastronómica. A multiculturalidade vai estar presente com sons da banda caboverdiana «Fogo Fogo» e receitas de países como Moçambique, Índia e Eritreia, em que a batata-doce vai ser o ingrediente principal. Os espetadores podem contar com a estreia da Orquestra Vicentina neste festival.

Madalena Victorino apresentou uma das novidades para este ano dedicada aos «mais pequeninos». «Trazemos canto polifónico para crianças muito pequeninas, que vão sentar-se no colo dos seus pais, fazer desse colo um sofá, e vamos apresentar o KAÔ – Embalos do Mundo». As canções, de vários pontos do globo, são cantadas por três mulheres portuguesas, da companhia Monda Teatro-Música, e vão encher o Espaço+ em Aljezur, no dia 8 de dezembro, e a sala de multiusos da Junta de Freguesia de Monchique, no dia 9 de dezembro.

Este programa cultural traz a Monchique o «Saison de Cirque – As estações do circo» de 28 de dezembro a 1 de janeiro, com a companhia Cirque Aïtal, que vem de França, onde a acrobacia, malabarismo, volteio equestre e equilíbrio de mão a mão que prometem animar o final do ano.

A 3.ª edição do projeto «Lavrar o Mar» vai apresentar mais alguns espetáculos até maio do próximo ano que passam pelas vertentes de dança, música, teatro, gastronomia e artes circenses. Madalena Victorino reforça que os objetivos passam pelo «dialogar com os turistas» ao apresentar espetáculos cujo palco principal é a natureza.

O presidente da Câmara Municipal de Monchique, Rui André, afirmou estar «bastante satisfeito por este projeto ter continuado» e recorda quando Madalena e Giacomo o interpelaram respondeu com «numa atitude arrojada vamos para a frente» quando tudo «isto parecia ser um sonho».

Rui André ressaltou, ainda, que «a cultura é um vínculo importante para o desenvolvimento cultural» e que «este projeto tem sido muito mais do que simples espetáculos a que assistimos, vamos embora e não fica quase nada. Isto fica nas pessoas que assistem e fica sobretudo na comunidade, que participa».

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Ao Jornal de Monchique, o edil monchiquense reforçou que o envolvimento das pessoas locais é importante para que adiram aos espetáculos e que o facto destes «não serem para grandes massas» altera o «paradigma do consumidor cultural» quanto à decisão de consumir cultura. A expetativa é a de que «independentemente do número de pessoas que possam vir ou não, sendo que obviamente queremos alcançar sempre mais, interessa-me é que volte a ser um sucesso em termos de reafirmação destes valores culturais».

José Gonçalves, presidente da Câmara Municipal de Aljezur, que vai receber o «Dancing!» a propósito do Festival da Batata-Doce, referiu que, «se o Lavrar o Mar acabasse amanhã, já teria valido a pena». «Estes nossos territórios são privilegiados: temos problemas, mas temos coisas que não há em mais lado nenhum».

Os espetáculos que percorrem Aljezur e Monchique entre os meses de outubro e maio mostram «que as coisas boas não acontecem só em Lisboa ou em Faro, também acontecem neste território» e que «no futuro teremos muitas mais edições do «Lavrar o Mar», concluiu o edil aljezurense.

Já Fátima Catarina, vice-presidente da Região de Turismo do Algarve, revelou ter ficado «encantada com o que viu» ao referir-se à apresentação da interpretada por António Fonseca (Manuel Monteiro), tendo ressaltado que a «parceria entre a cultura e o turismo é muito importante».

Ângela Carvalho Ferreira, Secretária de Estado da Cultura, reforçou que a «conjugação entre o turismo e a cultura em territórios de baixa densidade vieram consolidar a relação da comunidade com a cultura trazendo outras pessoas de fora do Algarve». Acrescentou, ainda, que este é «um projeto muito importante para a não desertificação destes territórios, para que todos possamos criar uma ligação mais emocional, mais terra a terra com o seu saber fazer», quanto às tradições que são valorizadas nesta programação.

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Ângela Carvalho Ferreira, Secretária de Estado da Cultura, no meio dos responsáveis pelo «Lavrar o Mar»

O «Lavrar o Mar» está integrado no 365Algarve e conta com o apoio financeiro do CRESC Algarve 2020, das Câmaras Municipais de Monchique e Aljezur, Junta de Freguesia de Monchique e do Instituto Francês.

O convite que agora é lançado passa pelas destilarias, onde as vozes irão encher os espaços e as emoções irão transbordar nos espetadores através das palavras duras, revoltadas e tristes do luto que se vive por entre os caminhos da serra algarvia.

 

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