Madalena Victorino: «temos o desejo de nos entrelaçar no tecido cultural, social e natural dos sítios onde estamos a trabalhar»

O Lavrar o Mar já iniciou mais uma temporada. Esta edição, dedicada ao elemento Terra, pretende trazer até Monchique e Aljezur os contos de fadas, o medronho, a pesca do bacalhau e um fim de ano em grande. Prometem-se estruturas inovadoras de público, dança, música, novo circo, mais espaços de espetáculo e muitas surpresas e desconstruções de ideias que nos levam ao imaginário onde coelhos, maçãs, princesas, se viram ao contrário,  guitarras que são chão, performances que são comida e caminhadas que são teatro. Tudo para ver e participar até ao início de 2020. O Jornal de Monchique foi falar com Madalena Victorino, uma das diretoras artísticas e responsável pela programação, para tentar perceber o que podemos esperar desta 4.ª edição.

 

Jornal de Monchique – Como começa a 4.ª edição do Lavrar o Mar?
Madalena Victorino – Esta quarta edição vai estar virada para o assunto da Terra. Em cada ciclo que temos vindo a desenvolver escolhemos um elemento da natureza para, à volta dele, construir espetáculos que possam, de alguma forma, celebrar esse aspeto. Já passámos pelo Fogo, pela Água e pelo Ar e agora chegamos à Terra. E é por isso que começamos com um espetáculo de novo circo que fala dos contos de fadas, que podem ter uma ressonância na vida dos adultos e não somente e exclusivamente no mundo das crianças.

Intitulado de «Les Princesses [As Princesas]» já estreou em Aljezur no passado dia 17 e vai estar em Monchique de 24 a 27 de outubro no espaço do ginásio da Escola Básica Manuel do Nascimento. Às vezes, começamos de mansinho de uma forma mais subtil, mas desta vez quisemos iniciar com o impacto de uma belíssima companhia francesa, Cheptel Aleïkoum, que já nos visitou no primeiro ano e que é constituída por um grande coletivo de artistas, que se subdivide em grupos e cada um deles vai construindo projetos próprios. É um espetáculo aéreo da disciplina do trapézio, com uma proximidade muito grande com o espetador. A estrutura onde o público se senta, à qual chamaram medusa, tem a particularidade dos artistas, mesmo no ar, ficarem muito perto. Todo o espetáculo é cantado, tem música ao vivo e imensa dança, onde existem coelhos, maçãs, princesas, lobo mau, mas tudo se vira ao contrário.

«Les Princesses [As Princesas]» vão proporcionar ainda um encontro muito próximo com os alunos da escola. Como a companhia utiliza o ginásio da escola para fazer o espetáculo, em contrapartida fazem-se encontros entre os alunos e os artistas para que eles aprendam o que é novo circo, contactem com o trabalho dos artistas no aquecimento e nos seus vários números e possam levar daqui também uma experiência artística interessante.

 

Les princesses

JM – Qual o espetáculo que se segue?
MV – Depois seguimos para o «Medronho: a apanha – A sangrada família» que é já uma espécie de ex-libris da nossa programação. Tal como queremos trazer companhias que estão a circular pela Europa, com grande sucesso, também queremos fazer criações locais, que partam da cultura local e a produção do medronho é-nos muito querida, porque é forte e misteriosa, e tem uma relação com a natureza muito grande e aqui surge então a apanha. Este ano, o público vai apanhar o medronho nas zonas da serra que o fogo não atingiu. O espetáculo passa-se num entrelaçar entre apanhar o fruto e encontrar as quatro personagens desta saga que foi escrita pelo algarvio Sandro William Junqueira, que já conhecemos das outras edições, e que faz um ponto de encontro desta grande história de duas famílias que se odeiam pelo medronho. Então teremos o pai, os dois irmãos e Filomena que é a rapariga que da outra família se apaixona por um deles.
Continua a haver a odisseia do Romeu e Julieta e não vai acabar tão cedo, parece-me.

O «Medronho: a apanha – A sangrada família» é ao ar livre, em plena serra e desenrola-se num terreno muito íngreme. As pessoas têm de ir preparadas para a chuva e para o terreno. O espetáculo desenvolve-se num sítio lindíssimo, onde os percursos de dividem em quatro e confluem no fim.

Há um almoço de couve à Monchique e claro que se bebe medronho pelo caminho.

O ponto de encontro é no heliporto municipal nos dias 1, 2 e 3 de novembro e as pessoas são levadas de autocarro para o ponto onde a caminhada começa.
A natureza, a paisagem e o campo são o lugar do espetáculo, os artista misturam-se entre os medronheiros e o público. Depois, o público para para descansar e para ver mais um momento do espetáculo. É uma trança entre a atividade de apanhar e a história que se vai desenrolando pelo percurso.
JM – O que é «O Presente de César»?
MV – «O Presente de César» que vai acontecer na Casa do Povo do Alferce, de 5 a 8 de dezembro e na sede do Rancho Folclórico do Rogil, de 28 a 30 de novembro e 1 de dezembro, trata a questão da pesca do bacalhau. No tempo do Estado Novo, entre os anos 50 e 60, os homens iam para África, para a guerra colonial ou para a outra guerra que era a apanha do bacalhau, onde tinham de estar durante 4 anos. Era uma faina e um trabalho duríssimo. Os homens eram poupados à questão da guerra colonial, mas tinham pela frente a dificuldade de enfrentar o Mar do Norte e o Mar da Terra Nova.

Este espetáculo foi criado no Teatro Viriato e com o círculo intermunicipal de Dão-Lafões, onde houve uma concentração enorme de homens que foram para a pesca do bacalhau, mas descobrimos que Monchique e Aljezur também tiveram muitos homens que foram e temos as suas fotografias, que vão também marcar presença no espetáculo.

«O Presente de César» é teatro culinário para falarmos de um momento da história do nosso país e ao mesmo tempo comermos bacalhau, neste caso, com batata doce e medronho, porque este espetáculo vai acontecer por altura do Festival da Batata Doce de Aljezur e depois sobe à serra para estar, pela primeira vez, numa programação no Alferce.

Vamos ter também um filme documental que mostra a pesca como ela acontecia no mar que é bastante impressionante e que está na entrada quando as pessoas chegam.

 

JM – O Lavrar o Mar já nos habitou a passagens de ano diferentes. O que nos trazem este ano?
MV – Temos já dois espetáculos confirmados e esperamos ter um terceiro para criar uma verdadeira festa de novo circo em Monchique. São oito dias, de 27 de dezembro até 5 de de janeiro, com «Les Dodos», a começar às 18h00, e «Forever, Happily…» às 21h30, para dar oportunidade das pessoas trazerem os seus filhos, puderem jantar e assistirem ao espetáculo seguinte, tendo ainda a possibilidade de um terceiro espetáculo que está por confirmar.

O que temos para oferecer são outra vez os contos de fadas, que aparecem de uma nova forma, com a questão do ar e da suspensão, que é uma das características do novo circo, com a relação com o chão e com a terra. Por exemplo, o chão destes acrobatas é uma guitarra, que utilizam para fazer música, mas também para fazer circo e para criar uma espécie de arquitetura através da forma muito interessante das guitarras.

Para a realização destes espetáculos vamos descer à zona do mercado, onde vamos pôr duas tendas aí e uma outra no heliporto municipal, como habitual, ficando uma pequenina aldeia circense.

Na passagem de ano vamos ter ainda a Orquestra Vicentina que é recém-nascida pela mão do músico André Duarte que esteve aqui no VilaPalco a trabalhar com jovens. É um músico muito criativo que está trabalhar com algarvios para criar um som do mundo. É uma música intercultural muito interessante e que vai fazer com que a festa de passagem de ano tenha este melhoramento em relação aos anos passados. Vamos também continuar a ter muitas delícias da serra, tais como as farturas, o café, o porco no espeto, a sopa, o vinho quente, que vem da França e da Bélgica, e vai ser uma grande festa que decorre no dia 31 de dezembro.

 

Les Dodos

 

JM – Pretendem desta maneira também promover o comércio local?
MV – Os comes e bebes são uma colaboração com pessoas locais que produzem estes produtos e que vão vende-los diretamente. Nós, Lavrar o Mar, não entramos nesse negócio. Assim, com os oito dias de espetáculo os restaurantes vão ser, com certeza, visitados. Também vamos fazer colaborações com os hotéis e alojamentos locais de Monchique para criar pacotes ou oportunidades para as pessoas virem passar a passagem de ano e dormirem cá.
JM – São mais dias de espetáculo do que nos anos anteriores…
MV – No ano passado eram cinco e agora são oito. Começaremos um pouco mais cedo e vamos até um pouco mais tarde para desenvolver, abrir e criar uma dinâmica muito festiva. No fundo fazer confluir para aqui pessoas que vêm do Algarve, de todo o país e também todas as pessoas de Monchique que queremos que venham ver o nosso circo.

Os frentes-de-sala são membros da Academia Sénior de Monchique, que já são uns profissionais da receção de público do nosso circo. Agora vão ter mais trabalho porque vão ter mais tendas.

 

JM – Toda a dinâmica do Lavrar o Mar acabou por mudar a vida cultural de Monchique. Sente isso?
MV – Ainda não tinha pensado nisso, mas ao ver o VilaPalco este ano, no verão, apercebi-me de que há um legado sobre a importância que as artes podem ter na vida de uma vila como Monchique e que já começa a dar frutos e a reverberar no entusiasmo. Sinto, cada vez mais, que as pessoas daqui já se sentem mais próximas da nossa programação. O nosso objetivo é fazer esta programação para todas as pessoas de Monchique e incentivar a produção de produtos locais. Nós estamos como parceiros e cúmplices, mas o projeto não se veio impor, ao contrário, veio colaborar e ajudar. Talvez até pela experiência e pela nossa idade, pela grande vontade de fazer e de realizar.

 

JM – De que forma esta 4.ª edição foi pensada para Aljezur e Monchique? As características das pessoas, do espaço, interferiu na escolha dos espetáculos?
MV – Sim. Nós temos o desejo de nos entrelaçar no tecido cultural, social e natural dos sítios onde estamos a trabalhar, por isso, damos atenção aos temas que trabalhamos. Queremos partir de algo que é familiar e que faz as pessoas se sentirem confortáveis em querer visitar e participar nesse encontro, mas ao mesmo tempo descobrirem algo de novo e desconhecido. Existem dois momentos. O momento do convite a algo que as pessoas sentem e conhecem e o momento em que quando chegam são surpreendidas por algo de novo e que pode acrescentar-se ao seu conhecimento pela arte e ao seu gosto pela cultura. É uma estratégia e um método que fomos criando, polindo e trabalhando para podermos chegar perto das pessoas, pois o grande objetivo é trocar, partilhar e estarmos juntos.

 

JM – Quando idealizou o Lavrar o Mar pela primeira vez achava que iria enveredar por este caminho, já estando na sua 4.ª edição?
MV – Nós, os artistas das artes do espetáculo, no início não temos nada. E, depois, começamos a misturar elementos como na cozinha e começamos a construir um trabalho e como ele se vai desenvolver nós não sabemos, é uma incógnita, mas acreditamos que essa coisa que estamos a construir, de alguma forma, nos vai ser ensinado pela realidade e pelo contexto local. Portanto, é esse encontro com aquilo que também nós não conhecemos e que não sabemos, que é a criação. Não temos ideias pré-concebidas.

O que queremos é que as artes tenham um papel na vida das pessoas e sabemos que pela história de Portugal estas têm sido afastadas da vida das pessoas. Não falo da cultura das pessoas com privilégios, falo de todas as pessoas e o nosso trabalho tem a ver com isso. Queremos quebrar definitivamente com essa barreira. É esse exercício que nos estimula muito e que nos faz inventar a cada vez uma nova solução.

 

JM – O Lavrar o Mar vai existir por muitos anos?
MV – Nós gostaríamos de continuar, não sei se é por anos porque, como pessoas do espetáculo, vivemos o momento presente e sentimos que o que é importante é fazer muito bem, trabalhar muito e os resultados desse trabalho vão-nos dar dividendos, também aprendemos isso. Se nos esforçamos, concentrarmos e trabalharmos muito bem há uma resposta àquilo que nós fazemos.

Claro que queremos continuar. Queremos avançar para um trabalho mais laboratorial ainda de maior participação na criação de coisas. Apesar de sentirmos que podemos trazer espetáculos muito bons que estão a circular pela Europa, queremos alargar o campo de exploração de um trabalho artístico e cultural. Aqui existe uma cultura local e que nós queremos cada vez mais entrelaçar para questionar, para falar do mundo em que vivemos e que está em transformação, em enormes dificuldades e para o qual nós queremos contribuir mesmo com um pensamento pequeno para essa mudança que tem que ser boa.

 

 

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