Lisboa VIII

As palavras são estados de espírito envidraçados em redomas baças, ideias encaixotadas, emoções metidas em gaiolas. Por isso é que quem lê uma obra-prima da literatura o faz com o espanto confinado de quem vai a um jardim zoológico ver os gnus, os aligatores ou a girafa.

Imagino o outro, o que escreve, o que não sou completamente eu naquilo que diz de mim. E, logo a seguir, o meu pensamento inventa um leitor, que é já um outro outro, alguém proprietário da atitude complacente de ler-me assim, exposto às parcelas por um outro que me vê de muito perto, mas não por dentro. Somos todos os outros uns dos outros sem nunca nos chegarmos a conhecer. Nisto de ser qualquer coisa aberta a mil possibilidades acontecidas entre o céu e a terra, entre um chapéu e um par de sapatos, quanto de nós se extirpa em reflexões e meditações sem que cheguemos a ver nos juízos alheios uma imagem verdadeira da representação que temos de nós próprios?

Penso nisto, agora que entreguei à curiosidade alheia as minhas memórias. Vejo o outro que escreve a transformá-las num universo de pistas suficientes para que um possível leitor tente ver-me no mundo de acordo com o aquilo que sou e não da maneira que o mundo me vê. Ponham-se na minha posição (não é difícil, na verdade, ler é estar já a mudar de pele):

Depois de meia dúzia de anos, voltei a casa. Tinha de regressar, da mesma maneira que vi os meus companheiros de armas regressarem às mães no leito da morte.

– Mãe! Mãe! Mãe! – todos eles choraram como recém-nascidos, num pranto igual ao de quem nasce, como se a morte fosse um reencontro com o ventre, um ajuste de contas com o tempo. A morte e o nascimento são exatamente a mesma coisa. Quando se nasce, matamos a morte, quando se morre, damos à luz o nosso fim. O medo é o cordão umbilical que liga um ao outro.

Ao ver os camaradas que partiam com as mães agarradas à boca, como um osso preso atracado pelas mandíbulas de um cão, percebi que há muitas coisas que se perdem à hora da morte. Para perder o medo, apenas existem as mães. São uma espécie de cura para o pavor supremo. Deus queria aliviar-nos do susto de morte quando nos ensinou a rezar a Avé-Maria. Ora, eu, depois de ter atirado o D. Quixote ao focinho do Rau-Rau, não podia estar mais assustado e cheio de orações no pensamento. E, apesar de ter partido despeitado com a minha mãe e a minha irmã, sabia que entre o medo e a coragem havia uma mãe de distância. Era imperioso sentir o colo dela. Abraçá-la. Perdoá-la e ser perdoado.

Quando parti para Lisboa, levei na bagagem da memória uma ideia que faziam de mim: moreno como uma porção de terra, não pequeno, não alto, ombros largos, de cantaria de portas, um magrizela solitário com jeito para ofícios duros e tarefas pesadas – como a vida de rico é bem mais leve e almofadada na hora de a descrever, meu deus!

E agora, de novo ali. Continuava um pouco magro, claro, o meu nariz a chegar a qualquer lugar um nada de nada antes da minha barriga. Olharam-me várias vezes, de cima a baixo, de baixo a cima, como se eu fosse um edifício novo, de muitos andares, acabado de construir no meio do Largo principal da vila.

Só mais tarde vim a saber que o faziam. Era uma trágica pena perante o intratável avançar da realidade e não por desconfiança, conforme, na altura pensei. Afinal de contas, eu carregava na consciência, como um sonho angustiante, o facto grave e permanente de ter matado o único homem que durante muito tempo havia conquistado a minha amizade mais funda, a mais respeitável admiração que podia ter nutrido por alguém. Como poderia eu imaginar que a notícia hedionda sobre a morte de um homem não se espalhara rapidamente? Era uma má notícia e, como é do conhecimento geral, as mais graves novidades, aquelas que levam o ser humano ao tapete perante a sua frágil condição, correm depressa —deve ser a este género de desenganos que chamam a lei da gravidade, com licença.

Desçamos mais um pouco. Tanto me obcecava este tormento, ao ponto de viver confinado à alienação de mim mesmo que, mal apareci à porta da casa onde pensei que a minha mãe e a minha irmã ainda me esperavam com a ansiedade que separa um rio da sua foz, soprei umas primeiras palavras com hálito de fogo e fiapos de fome entre os dentes. Fiquei surpreso ao ver que nenhuma delas me abriu a porta, mas sim outra pessoa. Ajustei a cor dos meus olhos à cor do céu, o peso do minha alma ao chumbo que parecia prestes a desabar de lá de cima.

– A minha mãe? – perguntei à velha desdentada que segurava o maxilar inferior num lenço preto atado à cabeça.

– Quem és tu? Que queres daqui? Não tenho pão para mendigos!

– A minha irmã? – insisti, mal saciado com a pergunta que se deitava debaixo da minha interrogação.
Virei costas àquele silêncio. Ajoelhei-me. Tinha perdido para sempre a minha realidade e a das arestas que definiam o meu volume, as linhas do meu horizonte e a consciência das coisas mais íntimas. Pela primeira vez, estava realmente sozinho, e não era o resultado de uma escolha que só a mim dizia respeito. Era a lei da gravidade a funcionar.

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