Linchar

Nos meados do século XVII, no vicariato da igreja irlandesa de S. Nicolau de Galway, encontrava-se um antiquíssimo livro que continha a descrição cronológica de todos os acontecimentos históricos da cidade e dos seus habitantes. Em 1674, chegou a essa paróquia um religioso espanhol, o frade De Ayora, com a missão de investigar a genealogia de um eclesiástico de nome Lynch, a quem fora atribuído um elevado cargo universitário em Espanha. Foi-lhe, então, facultado o manuseio do alfarrábio, do qual pôde extrair informações relativas àquela família – de entre as quais uma referente à história de um Governador com aquele apelido e do seu filho. Segundo rezava a crónica, nos finais do século XV o dito Governador de Galway, James Lynch, encarregara o seu filho de viajar para Espanha a fim de ali adquirir um carregamento de vinho. O jovem foi então nomeado capitão de um dos barcos do seu pai que, para concretizar o negócio, ainda lhe confiou uma avultada soma em dinheiro. Por motivos nunca devidamente esclarecidos, uma considerável parte do pecúlio desapareceu durante o percurso. O rapaz valeu-se, então, do crédito que o seu pai tinha junto dos negociantes espanhóis, para contrair um empréstimo permitindo-lhe custear a carga e, por algum tempo, dissimular a carência. Na viagem de regresso, o credor fez embarcar um seu sobrinho a bordo, com a missão de receber o pagamento e de estabelecer novos contratos comerciais. Mas uma noite, a meio do percurso, atemorizado com a perspectiva das consequências que o seu desleixo não deixariam de ter, logo que o pai fosse posto ao corrente dos acontecimentos, Lynch, acolitado por alguns marujos seduzidos por promessas de boas recompensas, manietaram o pobre espanhol e atiraram-no borda fora. A chegada ao porto de Galway foi festejada com muitas efusões de alegria pelo pai Lynch, orgulhoso do seu rebento se bem que na ignorância da tragédia ocorrida. Porém, um dos marinheiros que fizera parte da conspiração achando-se às portas da morte, pediu para falar com o Governador e confessou toda a maldade em que participara. Furioso com tamanha desonra para a família, Lynch imediatamente condenou o filho à pena de morte e enforcou-o ele mesmo a uma das janelas do segundo andar da sua mansão, perante a população horrorizada que ainda tentara demover o Governador da sua acção vingativa. Desta arbitrariedade nasceram o verbo linchar, os substantivos linchamento e linchagem e o adjectivo linchador, significando a punição expeditiva de um criminoso sem lhe conceder a justiça dos tribunais. Um ramo desta família emigrou posteriormente para a Virgínia, nos Estados Unidos, onde por muitos anos fez aplicar a sua lei, através de sucessivos Lynch que granjearam a cruel fama de “justiceiros”, no período da colonização dos imensos territórios da América do Norte, pela imperiosa necessidade que surgiu de punir com castigos severos os prevaricadores, quase sempre por crimes graves contra a colectividade, geralmente o assassínio como forma de ajustar contas e o assalto e o roubo de bens e de gado, em regiões afastadas de todos os postos em que a justiça funcionasse normalmente, substituindo-se a população agravada àquela justiça inexistente. Assim, ficou com o nome inscrito a sangue na história da grande nação americana, Charles Lynch (1736 – 1786), agricultor no Estado de Virgínia, coronel durante a Guerra da Independência e que ascendeu ao cargo de juiz de paz, em 1774. No decurso destas últimas funções, exerceu uma repressão de tal forma violenta sobre os lealistas, defensores dos direitos da coroa britânica, multiplicando as penas de morte aplicadas iniquamente, ao sabor do seu único alvedrio, que adquiriu a terrível e odiosa reputação de bárbaro, chegando a fazer legitimar a sua conduta com a promulgação de uma lei implacável e ao arrepio de todo o direito estatuído: a Lei de Lynch, que se perpetuou como forma sumária de castigo mortal, aplicado sem qualquer intervenção do Direito, da Lei ou dos Tribunais. Depois, com o rodar dos tempos, a instituição arbitrária tomou vários aspectos, de luta de raças, de luta de classes, de acção brutal desenvolvida ao sabor dos caprichos de clãs e associações secretas, tendendo sempre a eliminar o adversário da forma mais rápida, com a única razão de força, antes de qualquer indesejada intervenção dos poderes públicos legalmente constituídos. Um dos aspectos mais singulares da aplicação da Lei de Lynch é a actuação do famigerado Ku-Klux-Klan. Os morticínios de negros sob pretexto de atentados ao pudor de mulheres brancas, quantas vezes falsos ou, se verdadeiros, por elas provocados, foram também manifestações das mais repugnantes da sobrevivência dessas práticas. Foi assim que, entre 1880 e 1951, nos Estados do Sul, cerca de 4700 homens, mulheres e crianças de raça negra foram linchados, vítimas de uma lei não escrita, que apenas foi banida com a proclamação dos direitos civis para todos os cidadãos americanos, em 1960. Antes de morrer, Charles Lynch foi eleito senador dos Estados Unidos e as suas acções e os seus erros judiciários, que tantos inocentes vitimaram, foram então literalmente branqueados pelo Supremo Tribunal de Justiça. Por entre todos aqueles cujos nomes permitiram o crescimento do nosso vocabulário, ter-se-ia preferido que esta família, grande pela sua influência, não tivesse deixado
epónimo nas línguas de numerosos países do mundo, entre as quais a portuguesa, onde entrou, em 1899, directamente para as páginas do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.

  • Citações:
    “… que é isso, senão um bruxedo de retórica, uma dança macabra de frase, uma decocção de surro, senzala e linchamento?”; Ruy Barbosa in “Discursos e Conferências”, página 95.
  • “A nação não queria, não quer esse projecto. Mas que nação? A nação dos linchadores do Rio Bonito?”; Ruy Barbosa in “Discursos e Conferências”, pág. 51
  • “Agora um item a que chamaríamos hoje de racismo, destes que a ordem do dia põe nos tribunais de Norte América e comovem os protestos pré-linchantes da Carolina do Sul…”; Vitorino Nemésio in “O Campo de São Paulo: A Companhia de Jesus e o Plano Português do Brasil”, 3ª parte, XXV, página 236.
  • “Preso em flagrante, o autor do cobarde atentado nega o crime. A população indignada tenta linchá-lo e reclama severas medidas repressivas.”; José Rodrigues Miguéis in “Idealista no Mundo Real”, cap. X, página 257; Ed. Estampa.
  • “…ouvi alguém clamar por uma corda e achei melhor bater em retirada, com receio de ser linchado pelos pacatos cidadãos enfurecidos.”; Ruy Guerra in “20 Navios/Nós os Monstros”, página 172; Ed. Caminho/Uma Terra Sem Amos.”Não se conseguia distinguir nada na amálgama de pessoas, mas deviam estar a bater-lhe até ao linchamento.” Pepetela in “A Geração da Utopia (O Templo), capítulo 3, página 299; Publicações D. Quixote.
  • “Aqui como em tudo, cada coisa no seu lugar. Pastores e são-bernardos nos livros de infância, cães-polícias num manual de linchamento.” José Cardoso Pires in “O Delfim”, VII, página 75; Publicações D. Quixote.

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)