Kalashnikov (AK-47)

“Para que um soldado ame a sua arma, ele deve compreendê-la e saber que ela não o trairá.”
Mikhail Kalashnikov

Mikhail Timofeievich Kalashnikov
Mikhail Timofeievich Kalashnikov

Nos finais de 1945, no rescaldo da 2.ª Grande Guerra Mundial, José Estaline, o todo-poderoso ditador da União Soviética, para reforçar o seu poder e garantir o domínio que passava a exercer sobre os imensos territórios que, como resultado da vitória sobre a Alemanha nazi e os seus aliados, lhe fora afiançado pela Conferência de Ialta, decide modernizar as suas Forças Armadas. Entre muitas outras melhorias, pretende equipá-las com um novo tipo de arma ligeira, que superasse as metralhadoras até então existentes e, para tanto, encarregou as chefias militares de promover um concurso para seleccionar o melhor modelo. Após aturados testes, a escolha recaiu num fuzil de assalto de calibre 7,62 x 39 mm de tipo selectivo, automático e semiautomático, inventado1 por um jovem sargento de uma divisão de blindados do Exército Vermelho, Mikhail Timofeievich Kalashnikov. Desde logo baptizada com o nome do seu inventor, a kalashnikov, pelo seu baixo custo, robustez, precisão de tiro, adaptabilidade a qualquer tipo de cenário de combate e pouca manutenção, estava destinada a conhecer, daí por diante, um enorme e duradouro sucesso em todos os teatros de guerra, consagrando-se também nos dicionários de todos os idiomas nos quatro cantos do mundo2.

Nascido em 10 de Novembro de 1919, no seio de uma numerosa família de proprietários rurais em Kúria, na região russa de Atlai, Mikhail viu, com apenas 11 anos de idade, o estado soviético expropriar-lhes as terras, a casa, o gado e as alfaias agrícolas e transferi-los para um gulag na Sibéria, por serem considerados kulaks, termo depreciativo que designava os camponeses que se opunham aos valores dos bolcheviques, nomeadamente à colectivização forçada. Autorizado a regressar à sua terra natal em 1936, para terminar os estudos secundários (parece que sem sucesso!), teve como primeira ocupação trabalhar numa estação ferroviária até que, dois anos mais tarde, foi incorporado no exército soviético, condição que aproveitou para tirar os cursos de engenheiro mecânico e de condutor de tanques. Datam dessa época os seus primeiros inventos, todos relacionados com melhorias técnicas nos carros blindados: um contador de disparos; um dispositivo para controlar o funcionamento dos motores e um tapa-chamas para a pistola TT, quando disparada do interior da torre. Em Outubro de 1941, com o posto de sargento, foi gravemente ferido na batalha de Bryansk e evacuado para um hospital de retaguarda a norte de Moscovo. Aí, ao ouvir os relatos de outros feridos sobre a má qualidade das armas ligeiras com que a infantaria estava equipada, resolveu dedicar o seu tempo de convalescença a desenhar um novo modelo de carabina semi-automática. Fascinado por armas desde a juventude, Kalashnikov teve a oportunidade de inspeccionar uma pistola-metralhadora capturada aos alemães, a Sturmgewher 44, em cujo modelo se inspirou para projectar a sua AK-47. Retirado do Exército com o posto de tenente-coronel e uma reforma que, à época da sua morte, em 23 de Dezembro de 2013, era de cerca de 150 euros mensais (!!!), Mickail Kalashnikov nunca recebeu um único copeque3 pelo seu invento, apesar de se estimar que foram produzidos mais de 100 milhões de exemplares patenteados. Detentor de mais de dois quilos de medalhas conferidas pela União Soviética e pela Confederação Russa, que ostentava orgulhoso no seu uniforme de Tenente-General (patente que lhe foi atribuída honorificamente pelo presidente Putin, em 2008), o génio das máquinas de matar só não morreu na total indigência graças aos direitos comerciais que recebia pela produção de uma excelente qualidade de vodka rotulada com o seu nome.

Depois de quase sete decénios de existência, catapultada para a ribalta do mui restrito e obscuro mundo do negócio de armas por se ter tornado na espingarda automática preferida por ditadores, mafiosos, guerrilheiros, rebeldes e terroristas, de todos os quadrantes e ideologias, mas também como símbolo da luta armada pela independência4, a queda do império soviético aliada à crise económica global dos anos 90 acabaram por determinar a ruína da mais conhecida e mortífera arma de guerra de todos os tempos. Falsificações mais baratas, porém de boa qualidade (segundo algumas estimativas, vendiam-se no início deste século dez imitações por cada kalashnikov autêntica em países como a China, o Afeganistão ou a Colômbia) e dívidas de milhões de dólares a fornecedores, levaram a que, em 2009, um tribunal russo obrigasse a fabricante da temida AK-475 a declarar falência. Cumpria-se, assim, a profecia do Tenente-General Kalashnikov, que dizia, em 1993, em entrevista concedida ao jornal Expresso6: “… a Kalash continuará a ser a melhor arma do mundo até ao ano de 2010.” Aparentemente indiferente à glória, esquecendo os regimes e os tiranos que ajudou a derrubar ou a implantar, no Vietname, Camboja, Angola, Nicarágua ou Congo, Mikhail Kalashnikov viveu os seus últimos dias fingindo ignorar que, nas areias escaldantes do Kuwait, “bulldozers” recolheram dezenas de milhares das suas “kalashes”, abandonadas pelo exército iraquiano em debandada, e que o seu invento continuava a matar neste século, em nome das mais variadas causas, do Sudão à Síria, da Chechénia à Turquia, da Líbia à Crimeia, mais civis inocentes do que a totalidade dos invasores nazis abatidos nas batalhas pela libertação dos territórios sagrados da sua amada Mãe Rússia. r

Citações:
“Todos os Portugueses conhecem o Terceiro Mundo…: troncos nus, pessoas a comer com os dedos… e “observadores” estrangeiros a denunciar as habituais situações incomportáveis… acompanhados longinquamente à kalashnikov.”; Miguel Esteves Cardoso, in “A Causa das Coisas/Irmãos”, página 161; Assírio & Alvim/Círculo de Leitores, 1987.
“O noivo sabia que o seu capitão havia sido ferido ao som duma kalashnikov quando atravessava o charco duma bolanha. Entre a entrada e a saída da bala da kalashnikov, se tinha jogado… a vida do capitão.”; Lídia Jorge, in “ A Costa dos Murmúrios”, II, página 65; Publicações D. Quixote.
“Era espectador quando o filme passava na tela; nunca quando ele estava a ser filmado diante dos olhos, mesmo quando o filme se arrisca a dar para o torto, com um puto de dez anos, uma kalashnikov maior do que ele nos braços, apontando-lhe o canhangulo à barriga.”; Horácio Tavares de Carvalho, in “485224/ 21 de Dezembro”, página 112; Círculo de Leitores, 1984.
“Qualquer um quanzista, camarada saudoso de seu rio, agarrado no frio de sua AK-47, nas noites planaltenhas plenas de pirilampos que o sono faz no negrume da noite alta?”; José Luandino Vieira, in “O Livro dos Guerrilheiros – De Rios Velhos e Guerrilheiros II”, página 15; Editorial Caminho, 2009.

Notas:
1 Os primeiros desenhos da kalachnikov foram efectuados em 1942, mas só em 1947 o projecto se encontrava apto para ser fabricado. A primeira série foi entregue ao exército apenas em 1949.
2 Na década de 1990, em 46 dos 49 conflitos recenseados pelas Nações Unidas, as forças em confronto de ambos os lados das barricadas estavam equipadas com AK-47.
3 Centavo do rublo, moeda russa.
4 A kalashnikov figura nas bandeiras nacionais de Moçambique, de Timor-Leste e do Zimbabué e nos escudos da Costa do Marfim e do Movimento fundamentalista xiita Hezbollah.
5 A outrora todo-poderosa indústria metalúrgica soviética OAO, situada em Izhmash.
6 Expresso, 20 de Março de 1993.

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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