Jornadas Europeias do Património mantêm viva a memória das indústrias e artes de Monchique

As Jornadas Europeias do Património tiveram lugar nos dias 25, 26 e 27 de setembro, este ano subordinadas ao tema «Património Industrial e Técnico». O Município de Monchique associou-se à efeméride e, durante estes três dias, promoveu quatro atividades de âmbito cultural e todas de acesso gratuito, com o objetivo de transmitir à população a importância de valorizar o seu património cultural.
À semelhança do ano anterior, os núcleos museológicos de arte sacra das freguesias de Alferce e Monchique, assim como o polo museológico do Moinho do Poucochinho, no Barranco dos Pisões, estiveram abertos ao público no decorrer das jornadas. Mas para além desta iniciativa, ainda foi inaugurada uma exposição temporária e realizou-se uma conferência sobre a tecelagem, assim como três visitas guiadas a espaços com elevado interesse histórico e patrimonial para o concelho.
«A Tecelagem na Serra de Monchique: um passado com futuro» é o título da exposição temporária, que foi inaugurada no dia 25 setembro e que estará patente na Galeria Municipal de Monchique até dia 9 de outubro. A partir de uma réplica artesanal do fragmento de tecido de linho encontrado há mais de 4000 mil anos perto das Caldas de Monchique, esta mostra pretende fazer uma resenha sobre a história da tecelagem no Algarve e, particularmente, em Monchique, desde a pré-história à atualidade. Nesse sentido, é possível ver em exposição os dois tipos de teares tradicionais da região algarvia (horizontal e vertical), uma réplica de um pisão em madeira que, em outros tempos, era utilizado com grande frequência no Barranco dos Pisões para apisoar os tecidos e dar-lhes maior consistência, vários utensílios empregues no trabalho do linho, como o maço, a grama, o sedeiro, o fuso, a roca, a dubadoura e o sarilho e ainda algumas peças trabalhadas em lã e linho.
A tecelagem foi a principal convidada destas jornadas e voltou a ter destaque com a conferência «A Tecelagem Tradicional da Serra de Monchique», proferida por Sara Duarte e Selma Pereira que apresentaram as suas últimas investigações relativamente ao trabalho desenvolvido pela última tecedeira da Serra de Monchique e do Algarve, a D. Maria Nunes, cujas técnicas de trabalho parecem não diferir muito das que se realizavam há vários anos atrás, tendo em conta que a forma do fuso que utiliza é muito semelhante àqueles que já eram usados pelos romanos e visigodos. Mas o principal destaque desta palestra vai para a proposta de uma das conferencistas em criar em Monchique um curso profissional de tecelagem, com forma de valorizar esta arte, assim como as técnicas a ela associada e aproximar as novas gerações ao património imaterial do concelho.
O último dia de atividades ficou marcado com a realização das visitas guiadas ao Parque da Mina, ao antigo lagar de azeite de Inácio Veríssimo Cabrita, em Marmelete e ao lagar de azeite dos Pardieiros, no Alferce.
O Parque da Mina engloba uma antiga quinta da qual faz parte uma casa do início do século XVIII totalmente mobiliada, que pertenceu a uma das famílias mais abastadas da serra de Monchique. A habitação é constituída por várias salas, com destaque para a arrecadação, situada no rés-do-chão, que alberga uma recriação de uma destilaria de medronho e de uma antiga mercearia, bem como um vasto espólio associado às artes e ofícios do concelho, de forma a manter viva a memória de certas profissões que fizeram parte da realidade monchiquense. A visita guiada ao Parque da Mina foi coordenada por uma das funcionárias, Sandra Baiona, que também conduziu o grupo ao local onde funcionou, durante cerca de dez anos, uma importante mina de extração de minério, como bário, cobre e ferro e à zona onde está recriada uma pequena indústria de carvoaria.
Os lagares de azeite são das indústrias mais antigas Monchique, pois em tempos mais recuados chegaram a funcionar no concelho mais de dez estruturas do género. As azeitonas chegavam um pouco de todo o Algarve e o azeite de Monchique era exportado em grande quantidade e muito procurado pelas indústrias conserveiras da região. O lagar de azeite de Inácio Veríssimo Cabrita funcionou em Marmelete até há bem pouco tempo, mas agora encontra-se desativado, apesar de no seu interior, ainda serem visíveis as antigas mós de pedra que moíam as azeitonas, as prensas que faziam a separação entre o azeite e o bagaço, o velho motor a diesel movido a água e alguns recibos de encomendas de azeite, datados de 1976. Para salvaguardar o testemunho de uma atividade que foi passando gerações, este lagar de azeite aguarda um projeto de recuperação que também prevê a construção de um restaurante no primeiro piso e de um centro interpretativo à volta de todo o edifício.
As visitas guiadas terminaram ao sabor do azeite e pão, com uma degustação da «tiborna de Monchique», nos Pardieiros, naquele que é o único lagar a laborar no concelho de Monchique.
As Jornadas Europeias do Património terão continuidade em Monchique, nos dias 10 e 11 de outubro, com a realização da iniciativa «Tradição e Festa na Serra – UNED OMNES DIES (Medronho Todos os Dias)», numa organização da AHPEM – Património e Memória, marca das Aldeias Históricas de Portugal (AHP).
Esta atividade será constituída por várias conferências e workshops, exibição de um documentário, apanha de medronho e de uma visita à destila.
No dia 10 de outubro, a partir das 15h00, terá lugar, no edifício da Caixa Agrícola, a palestra «Património e Memória – Como Musealizar a Tradição», acompanhada pela exposição «Novas Tecnologias na Musealização – vivenciar o passado», coordenada pela SPIC Creative Solutions. Segue-se o primeiro Workshop que contará com a presença de Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique (CMM), do Prof. Doutor Carlos Alho, da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, de Miguel Fernandes, membro da Amazing Factory Productions, INC, de Paulo Bica, em representação da SPIC Creative Solutions e de um elemento da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH).
O segundo Workshop, sob o lema «Património e Memória – a Festa do Medronho», terá início com a exibição do documentário «UNED OMNES DIES (Medronho Todos os Dias)», da autoria de Sílvia Coelho e Paulo Raposo. Haverá ainda espaço para uma atuação da Confraria do Medronho «Os Monchiqueiros» e de uma resenha histórica sobre o Jornal de Monchique, que este ano comemora 30 anos, proferida pelo seu diretor, José Gonçalo Duarte.
No dia 11 de outubro, realiza-se uma apanha de medronho, seguido de um piquenique e confraternização com música e cantares tradicionais, terminando a atividade com uma visita à destila.
A AHP é uma associação de defesa, salvaguarda e revivificação do património cultural, constituída a 8 de novembro de 2010, com o objetivo de contribuir para a preservação do património rico que cada aldeia encerra e criar, apoiar e promover ações de formação vocacionadas para a preservação, restauro, reabilitação e gestão do património cultural tangível e intangível e património natural de cada uma delas.
Relembre-se que as Jornadas Europeias do Património são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia que envolve cerca de 40 países, em prol da valorização do património cultural, através da realização de diversas iniciativas. Em Portugal, a entidade responsável pela coordenação de todas as ações a nível nacional é a Direção Geral do Património Cultural (DGPC) que considera o tema deste ano uma forma de «nos envolver a todos naquilo que está presente no nosso quotidiano e que nos foi deixado num legado que é testemunho do engenho e criatividade de gerações passadas», como fábricas, moinhos, pontes, minas, linhas de caminho de ferro, pequenas indústrias artesanais, arquivos públicos e empresariais, vilas operárias, entre outros.

Réplica de um pisão, presente na exposição que está patente na Galeria de Santo António até dia 9 de outubro
Réplica de um pisão, presente na exposição que está patente na Galeria de Santo António até dia 9 de outubro

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