Quo vadis civilização?

Por entre tremores de terra e furacões que matam – incontroláveis ao ser humano – temos pela frente todo o resto que controlamos e não podemos deixar acontecer. Nada gera mais medo num indivíduo que estar na posse de desinformação, manipulação ou factos errados. Para manter um colectivo em situação precária – como nos dias de hoje – basta criar climas de tensão e as pessoas ficam aprisionadas dentro do seu medo. Razão e iluminismo, cedem lugar a tempos medievos. Damos espaço encartado a males obscurantistas. O Inferno de Dante é aqui, vive-se hoje a tragédia dos clássicos gregos, onde demónios, Cíclopes e Lestregónios se confrontam num prato gourmet e num prato vazio. Iluminismo e Neo-medievalismo. Luz e Trevas.  Confrontos entre deuses inferiores que servem corpos sem cabeças em bandejas vulgares. Este modelo de negócio que escolhemos como civilização – ao estilo cowboy a entrar no saloon disparando: “com licença que vos vou estoirar os miolos, no final talvez peça desculpa” – para parecer sério serve-nos de orientação para não deixarmos que se repita a banalização do mal em nenhum dos cinco continentes onde vivemos nós, os sub-alimentados da esperança.

É bom que estes tempos de fogo tragam a lume todos os factos escondidos. Se descemos ao fundo do poço que a verdade venha ao cimo. Para que sejamos livres do medo. Ao termos conhecimento do que acontece por baixo do pano, estamos a ajudar o nosso crescimento como pessoas. Atiramos a ignorância para as chamas. Não deixemos a raiva e a ira crescer desmesuradamente. É que para essas não há espuma que as consigam extinguir quando descontrolada. Sempre que nos demitimos das nossas responsabilidades, quaisquer que sejam, entregamos terreno ao inimigo.

Acabamos a rezar ou a dançar aos deuses para que façam chover.  O que se passa em Portugal, na Galiza e na Califórnia é criminoso. Os fogos são atentados terroristas. Somos todos terroristas quando atiramos achas para fogueiras que fazem arder o nosso planeta, a nossa casa.

A culpa vem de nos demitirmos de olhar pelas nossas vidas e pelas dos outros oferecendo terreno de cultivo ao inimigo….

O inferno encontrou morada nas mãos dadas dos diabos, nas casas da incúria, da inércia, da ignorância, por cús calejados em muitos anos de assentamento.

A minha solidariedade está com todos os anónimos que lutam, soltam a voz, ajudam, protegem e se responsabilizam pela vida de todos os outros. Conheço muitos. São os ateus que acreditam em milagres. São os que elevam os outros. São os que combatem enquanto outros tocam harpa vendo Roma arder. O meu desejo é de que todas as tragédias que acontecem sirvam para nos fazer aprender o poema de Niemoller sobre os homens que se calam até não haver mais ninguém que os defenda, quando por fim ficam sós nas trevas. Até interiorizarmos o poema. Poder e armas nas mãos erradas são tão perigosas. Matam.

Enquanto os Deuses tocam o requiem pelo homo pouco sapiens.

 

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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