Os monumentos pré-históricos da serra de Monchique

Uma das cistas da Idade do Bronze da necrópole de Alcaria
Uma das cistas da Idade do Bronze da necrópole de Alcaria

Durante a primeira metade do século XX, particularmente ao longo da década de 1940, foram realizadas investigações arqueológicas no espaço concelhio de Monchique por Abel Viana, José Formosinho e Octávio da Veiga Ferreira, que conduziram (entre outras coisas) à identificação, escavação e divulgação, de um conjunto extraordinário de necrópoles pré-históricas. Com efeito, foram registadas várias sepulturas que se enquadram entre o período Neolítico e a Idade do Bronze, grosso modo entre meados do V milénio a.C. e o II milénio a.C., que apresentam arquiteturas distintas tendo em conta as diferentes cronologias a que se reportam.

Os monumentos funerários mais antigos encontrados na serra de Monchique têm cerca de 6000 anos, enquadram-se no período Neolítico (Médio) e concentram-se na envolvência das Caldas de Monchique, designadamente na vertente voltada a sul do afloramento sienítico da Picota. Este fenómeno de arquitetura funerária (anterior à construção dos primeiros dólmenes megalíticos) denomina-se por protomegalítico. Basicamente são sepulturas do tipo cista delimitadas por pequenas lajes de pedra colocadas verticalmente, cujas alturas máximas não costumam ultrapassar um metro, estando cobertas por mamoas – montículos artificiais compostos por pedras e terra/barro – com diâmetros que rondam, em média, os dez metros. Geralmente estas cistas ostentam formatos retangulares, mas também toscamente trapezoidais ou ovais, tendem a agrupar-se em necrópoles de forma dispersa, em núcleos densos ou, mais raramente, sob a mesma mamoa – como é o caso de três túmulos da necrópole do Esgravatadouro (também conhecida por Buço Preto). Salienta-se que algumas destas sepulturas terão evoluído através de reutilizações, sobretudo ainda durante o período Neolítico mas possivelmente também durante o Calcolítico (entre finais do IV e meados do III milénio a.C.), assistindo-se nalguns casos a prováveis alterações dos sepulcros pré-existentes – como parece ser o caso do túmulo Esgravatadouro 7, o único que apresenta um corredor de entrada.

De um modo geral, as sepulturas neolíticas da serra de Monchique estão orientadas a nascente e, segundo os dados arqueológicos disponíveis, seriam destinadas a enterramentos individuais e não coletivos. Neste âmbito destacam-se cinco dos túmulos da necrópole de Palmeira (1, 2, 3, 5 e 7), pois os pontos onde foram encontradas as diversas qualidades de contas de colares/pulseiras correspondem ao pescoço, aos pulsos e aos tornozelos do indivíduo sepultado. De facto, a análise efetuada à sepultura Palmeira 7 (que tem mais de três metros de comprimento) parece demonstrar que mesmo os sepulcros maiores foram destinados a enterramentos individuais. No que respeita a espólios arqueológicos exumados nestes túmulos, realça-se que a maioria são compostos por artefactos líticos – por exemplo lâminas, pontas de seta, machados e enxós –, mas também por recipientes cerâmicos. Todavia, existe um caso em que foi recolhido um machado de cobre envolto em tecido – ambos os vestígios enquadráveis no III milénio a.C. –, curiosamente numa sepultura orientada no sentido norte-sul, o que evidencia que a área envolvente das Caldas de Monchique foi palco de rituais funerários também durante o período Calcolítico.

Devido às investigações efetuadas pelos três supramencionados exploradores foram registadas trinta e cinco sepulturas neolíticas/calcolíticas na serra de Monchique, distribuídas por oito locais distintos, não obstante o facto de estes investigadores referirem que várias já tinham sido destruídas por populares. Até ao momento foi possível relocalizar vinte e três destes monumentos funerários, sublinhando-se que a esmagadora maioria se encontra ao abandono, em mau estado de conservação e sujeito a todo o tipo de adversidades ambientais e antrópicas. Com efeito, relocalizaram-se treze das dezasseis sepulturas da necrópole da Palmeira, seis dos sete túmulos do cemitério pré-histórico do Esgravatadouro, os três sepulcros da necrópole da Eira Cavada e, ainda, uma outra sepultura isolada. Considerando o exposto, é importante preservar e valorizar estes testemunhos materiais do nosso passado comum, por exemplo mediante a limpeza e consolidação/restauro de alguns destes monumentos funerários e a criação de um percurso pedestre – a “rota da pré-história” – que, por um lado, estimule o interesse e a sensibilização patrimonial e, por outro, constitua mais um atrativo turístico do concelho de Monchique. Importa evidenciar que, ao contrário do património ambiental, o património arqueológico é um bem que não se regenera, mas que se for corretamente aproveitado (preservado, estudado e valorizado) poderá tornar-se uma mais-valia económica e social, tendo em conta a sua singularidade e a sua dimensão intemporal.

Além dos cemitérios neolíticos/calcolíticos existentes no concelho de Monchique, existe uma outra realidade funerária atribuída à Pré-história Recente que é bastante diferente em termos estruturais, dispensando a monumentalidade das anteriores – as necrópoles de cistas da Idade do Bronze, enquadráveis no II milénio a.C. Estas inserem-se numa realidade social, económica e cultural bastante diferente das sepulturas anteriores e não se restringem à envolvência das Caldas, evidenciando-se a título de exemplo a necrópole da Foz do Farelo. É interessante notar que a maioria destas sepulturas da Idade do Bronze foram implantadas na zona xistosa, ao contrário dos túmulos neolíticos/calcolíticos que se encontram exclusivamente na zona sienítica. Estas sepulturas da Idade do Bronze não contêm mamoas a cobri-las, apresentam um formato de caixa retangular ou ligeiramente trapezoidal, geralmente são compostas por quatro lajes (de xisto ou sienito) planas dispostas paralelamente duas a duas, havendo uma quinta laje que servia como tampa. Muitos dos sepulcros desta época não possuem espólios e, quando os têm, são compostos por uma pequena urna cerâmica, em alguns casos acompanhada por um punhal. Nos casos em que aparecem restos osteológicos em cistas desta época os esqueletos encontram-se fletidos, embora, noutros casos, o reduzido tamanho destas sepulturas leve a considerar a hipótese de se tratarem de ossários ou de sepulturas de incineração. Relativamente às orientações das cistas da Idade do Bronze detetadas neste território concelhio, constata-se que a predominância é no sentido norte-sul.

Graças às investigações realizadas sobretudo na década de 1940 foram registadas e estudadas trinta e nove cistas (embora existam referências a mais), distribuídas por seis sítios diferentes, salientando-se que várias destas sepulturas encontravam-se já revolvidas. Merece especial destaque a necrópole de Alcaria do Banho onde foram encontradas vinte e uma cistas, evidenciando-se que numa delas o espólio contido era claramente de uma época posterior, ou seja, esta necrópole pré-histórica foi reutilizada séculos mais tarde. Porém, até ao momento não foi possível relocalizar qualquer destas cistas atribuídas à Idade do Bronze. Por último, realça-se que está a ser desenvolvida uma investigação que visa a elaboração de um inventário e consequente mapa com a distribuição espacial do património histórico-arqueológico do concelho de Monchique.

Bibliografia:
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VIANA, A.; FORMOSINHO, J. (1942) – Arqueologia pré-histórica do concelho de Monchique. Separata de Ethnos. Vol. II, Lisboa;

 

Legenda foto de destaque: Pormenor da sepultura neolítica Palmeira 15

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