Medronho todos os dias

Contrariamente ao que é habitual, hoje, fujo à ficção e assento o sentido deste texto na realidade. Embora seja difícil estabelecer uma realidade única, inquestionável e objetiva, na medida em que surge sempre distorcida pelas circunstâncias em que cada um de nós a apreende e a constrói, como Montaigne, autor dos “Ensaios”, obra a que presto uma veneração bíblica, este texto parte do pressuposto de que «a minha opinião, exprimo-a também para revelar a medida da minha vista, não a das coisas.”

No passado dia vinte e quatro de outubro, tive a satisfação de assistir à estreia mundial do documentário sobre a aguardente de medronho intitulado «Medronho todos os dias (Unedo Omnes Dies)», no cinema São Jorge. Integrado no festival de cinema documental Doclisboa, o filme, realizado por Sílvia Coelho e Paulo Raposo, acompanha, como se filmado de dentro para fora, a visão do mundo dos destiladores de medronho. Durante cerca de cinquenta e três minutos somos levados pela mão grossa e delicada daqueles que, herdando a sapiência empírica dos seus antepassados, têm preservado, durante anos a fio, um dos mais duradouros marcos da identidade da Serra de Monchique

Quem assistiu à projeção do documentário apercebeu-se imediatamente do magnífico trabalho dos realizadores. Santo Agostinho defendeu a inexistência de um lugar para a sabedoria onde houver falta de paciência. A paciência: essa é a grande virtude deste documentário. À semelhança da destilação do medronho, trata-se, sobretudo, de um trabalho paciente e de tal modo intimista, que as câmaras que recolhem o som e a imagem não parecem existir ali. Nem por um momento os protagonistas parecem intimidados ou dar conta de estarem a ser observados por lentes e microfones.

Para mim, a experiência foi genuinamente feliz, na medida em que a realidade de Monchique nunca se cansa nos meus sentidos. Quando penso que já conheço tudo, quando me convenço de que já tenho o perfil topográfico daquela serra descrito nos batimentos cardíacos e de que não existem mais panoramas telúricos capazes de abalar a minha topofilia inveterada, há sempre um pormenor estranho à minha presunção que se dá a conhecer de surpresa e excita com um novo alento a devoção repetida àquele berço de pedra e musgo. Um regalo de tal maneira inconfundível, que, a esta hora, ainda trago os olhos turvos pela emoção do fumo quando “ela” corre frouxa, o sabor à côdea caseira que tapa as provas continua a desaguar no palato, o gaio e a coruja que gorjeiam verdes trinos pelos cerros fizeram ninho nos ouvidos. No filme, os atores principais são patrícios meus conhecidos a representar o papel mais difícil: o de serem eles próprios, sem poses de pavão, autênticos e monolíticos como sempre foram pela vida fora, naquela dura realidade dos dias que tanto dá para destilar o labor no suor honesto dos corpos como para fazer transpirar o saber antigo no álcool frutado e límpido dos alambiques. Um desses heróis chama-se Zé Viana e é um dos homens mais generosos que já calcou o chão de xisto raivoso daquela Serra — no dia em que o conheci, presenteou-me com uma garrafa de aguardente, mal me apresentei como filho do meu pai.

Talvez por imposição do regulamento do festival Doclisboa, foi curioso notar que as falas inauditas desses homens e mulheres surgiu com legendas em inglês no rodapé, o que permite antever a possibilidade de internacionalização do documentário. Aludindo a isso, no final da projeção, alguém comentou que ao inglês deveriam ser adicionadas outras, mas em português, “para descodificar o sotaque de porta fechada”.

Não sei se a ironia do comentário foi intencional. Como se tem visto, apesar de deixar adivinhar a sua pequenez no tamanho de uma folha de papel, um certo país cosmopolita mostra ainda alguma dificuldade em compreender-se rasurado para além das margens definidas pela capital. Fora da fisionomia urbana de Lisboa, o mapa da paisagem ignorada do Portugal autêntico só pode ser entendido pelos que a inventaram com recurso ao ridículo cimentado, ao Diário da República, à gastronomia ou a legendas. Esta Lisboa dos egos de plástico, quando se refere à província, consegue ser mais provinciana que a província.

Em boa hora, as Juntas de Freguesia de Monchique e de Marmelete deliberaram apoiar o trabalho de Sílvia Coelho e Paulo Raposo. Os monchiquenses devem sentir-se orgulhosos por isso. Esperemos agora que o esforço não tenha ficado por aí, e que haja a oportunidade de fazer com que o documentário venha ser exibido em Monchique e, como a coruja que canta no filme, possa regressar às origens.

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