As pré-históricas placas de xisto gravadas

Centenas de pequenas placas de pedra com gravações geométricas foram encontradas em contextos arqueológicos desde, pelo menos, o século XIX. De xisto ou ardósia, com formatos retangulares ou trapezoidais, estas misteriosas peças arqueológicas são atribuídas às primeiras sociedades complexas, isto é, enquadram-se no Neolítico Final e no Calcolítico (cerca de 3000-2500 a.C.).

Tratando-se de uma das manifestações artísticas mais intrigantes da Europa pré-histórica, estas placas são encontradas principalmente em sepulturas coletivas (dólmenes) na área sudoeste da Península Ibérica – grosso modo no sul de Portugal e no centro-oeste de Espanha –, mas também surgem em contextos de povoado. Geralmente estas placas gravadas não excedem os 15cm de altura e apresentam uma estrutura bipartida, realçando-se que a parte inferior apresenta gravações geométricas – com um número variável de registos horizontais repetidos, designadamente padrões com triângulos, ziguezagues, xadrez, “chevrons”, etc. – e a parte superior (cabeça) pode conter uma ou duas perfurações, ou seja, é provável que fossem penduradas ao pescoço.

O aparecimento ocasional de características antropomórficas nestas placas levou a que a maioria dos primeiros pré-historiadores as associassem à “Deusa Mãe”. Porém, nas últimas décadas foram realizadas novas investigações e, atualmente, estas placas são interpretadas não como meras manifestações artísticas, mas como meios de transmissão de mensagens ordenadas e com significado. Nos diversos casos em que surgem nitidamente associadas aos indivíduos sepultados, encontram-se colocadas sobre o peito ou ao lado dos inumados. A antropóloga Katina Lillios analisou centenas destas placas gravadas e concluiu que, há cerca de 5000 anos, os habitantes pré-históricos da Península Ibérica conheciam e elaboravam registos de memória coletiva. Deste modo, inferiu que estes artefactos teriam uma função heráldica/genealógica e identificavam o clã/família a que pertenciam os defuntos, registando as suas linhagens e a distância geracional entre o falecido e um ancestral importante – através da gravação de vários padrões gráficos. De facto, nenhuma placa é exatamente idêntica a outra, isto é, a decoração e o número de faixas sobre as placas foram sempre consciente e deliberadamente variados.

Este presumível sistema de comunicação social com suporte em registos gráficos foi, também, identificado na serra de Monchique. Com efeito, no Museu Municipal Dr. José Formosinho (Lagos) estão depositados três exemplares provenientes do concelho de Monchique. As três placas gravadas estão fragmentadas e foram encontradas no interior de monumentos funerários, salientando-se que uma foi recolhida no âmbito de uma escavação arqueológica realizada em 1948 na sepultura número sete da necrópole do Esgravatadouro, ao passo que as outras duas foram identificadas em 1937 na sequência da destruição (pelo proprietário do terreno) de um túmulo outrora existente no Rincovo. A placa de xisto gravada encontrada em 1948 possui 6,7cm de altura, 5,9cm de largura, 0,5cm de espessura e apresenta ambos os lados gravados – na parte da frente verificam-se essencialmente faixas horizontais com triângulos e, na parte de trás, possui triângulos e linhas ziguezagueantes. Por sua vez, as duas placas gravadas encontradas no Rincovo apresentam respetivamente 10,2cm e 7cm de altura, ambas contêm faixas horizontais com triângulos, realçando-se que uma delas também possui os dois lados decorados e ostenta padrões com “chevrons”. Em conclusão, é possível que as placas de xisto gravadas encontradas no Sudoeste peninsular tivessem a função de “bilhetes de identidade” (em termos genealógicos) da pré-história recente.r

Bibliografia:
ANDRADE, M. A.; COSTEIRA, C.; MATALOTO, R. (2016) – Placas de Xisto Gravadas em Contexto de Povoado: o caso do Castelo de Pavia (Mora). Al-Madan Online, II série, 20, Tomo 2, Centro de Arqueologia de Almada, Almada, pp. 43-53;
CAPELA, F. F. G. S. (2014) – Contributos para o conhecimento da Pré-história Recente e da Proto-história da Serra de Monchique. Arandis Editora, Município de Monchique, Albufeira;
FORMOSINHO, J.; FERREIRA, O. da V.; VIANA, A. (1953) – Estudos Arqueológicos nas Caldas de Monchique. Separata de Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Vol. XIV, 1-2, Imprensa Portuguesa, Porto;
GONÇALVES, V. S. (2005) – As placas de xisto gravadas dos sepulcros colectivos de Aljezur (3.º milénio a.n.e.). Município de Aljezur, Aljezur;
VIANA, A.; FERREIRA, O. da V.; FORMOSINHO, J. (1954) – Estudos arqueológicos nas Caldas de Monchique: relance das explorações nas necrópoles da Idade do Bronze, do ano de 1937 ao de 1949. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Vol. XV, Porto, pp. 17-54.

Suporte informático:
ESPRIT – Engraved Stone Plaque Registry and Inquiry Tool: http://research2.its.uiowa.edu/iberian/

 

Legenda da imagem de destaque: Pormenor da placa de xisto Buço Preto

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