Vitória do riso sobre a estupidez (XVI)

Antes de avançar um pouco mais na minha história, há um pormenor que não pode ser ignorado. O cheiro a trampa ouve-se. O cheiro a trampa fala alto, de boca aberta, entra pelos ouvidos como uma longa respiração dolorosa e fica entranhado na memória a dizer palavras fétidas, nauseabundas. Sim, dirão que tenho a cabeça zonza, cheia de sinestesias, que os sentidos no meu conhecimento se travestem. Sim, é possível. Admito que possa ter o juízo em água. Em água outrora límpida, cristalina — há quanto tempo? —, agora conspurcada por descargas constantes, cegas de rancor e de cólera, que fazem do mal que nos habita uma fossa, um reservatório de imundícies. É quando esse reservatório enche que tudo aquilo que dizemos deita um mau-cheiro insuportável, até para nós próprios, como se a voz que deita as palavras ao ar fosse um esgoto a céu aberto. É o hábito de conviver com o mal todos os dias que nos vai ensurdecendo cada vez mais. É ele que nos torna imunes à degradação dos nossos melhores sentimentos: o cheiro a trampa grita!

O aeroporto foi o meu quarto durante três dias. Mas quando a tempestade deu tréguas, foi hora de partir. Sabia para onde queria ir. Estava determinado. Os meus olhos e o meu pensamento tinham íman, estavam colados à imagem do desejo. Não era o que eu via à minha frente que me permitia distinguir a realidade das coisas, era aquilo que eu sonhava, aquilo que eu queria muito ver que me guiava com a destreza das obsessões. A proximidade intuída relativamente a Morrighan dava-me as forças e a confiança necessárias para me libertar das amarras em que, naquele instante, me pudesse enredar. Pelo menos, era o que sentia ao ver o meu reflexo nas janelas húmidas do aeroporto.

E, no entanto, posso dizer que o acaso persegue o destino. É ele que o mata, que o apanha à traição, que lhe dá porrada e o desfigura até ficar irreconhecível. Somos todos acasos nas vidas uns dos outros. Somos todos os outros uns dos outros. Por isso, é que pensamos que certas coisas, certos azares, só acontecem a pessoas ao nosso lado ou distantes, até ao momento em que a probabilidade desses acontecimentos se vira contra nós. A prova disso é a forma como a Morrighan entrou nos meus dias, tão depressa como desapareceu e voltou a reaparecer com a minha cadela, a minha Lieva, ao lado, num carro, para, logo depois, voltar a desaparecer e deixar-me neste estado obsessivo. Se não fosse este pormenor, ver esta bela desconhecida que me arruinou o destino, levar-me a cadela que me tinha devolvido a frescura de espírito, talvez não a tivesse procurado até aos confins de mim do mesmo modo que os mártires procuram Deus por entre os escombros do sofrimento.

A prova de que somos acasos uns dos outros e desferimos rudes golpes involuntários nos destinos do próximo, é a voz familiar que ouvi, vinda da retrete com a porta fechada, quando, na fria casa de banho, após escovar os dentes, tentava dar uma aparência de frescura ao rosto de sono seco que o espelho via. Eu não estava sozinho ali, como ninguém está sozinho no mundo. Os deuses fazem-nos companhia, até na casa de banho gelada de um aeroporto.

Reconheci imediatamente aquela voz poeirenta, asquerosa, cheia de bafos a podre, a arranhar o céu-da-boca, da mesma maneira que o medo reconhece no perigo a possibilidade de um parente próximo com quem cortou relações logo à nascença. Era capaz de a distinguir no meio de uma tempestade de areia. Falava ao telefone, em árabe. Há pouco naquela língua que me seja possível transformar em entendimento, mas a minha experiência passada no deserto sírio bastou-me para perceber que a voz familiar berrava com alguém, reprovando-o com insultos e interjeições. Alguém que, do outro lado, não estaria a fazer as coisas certas, tal como eu não fiz. E o pior é que essa voz familiar conhecia tão bem a extensão imensa das minhas falhas como eu.

Num movimento tão lento quanto tardio, fechei a torneira, para ouvir melhor. Em vão. Ao aperceber-se de que não estava só na casa de banho, a voz parou. Um tilintar de fivelas subiu pelas pernas da voz até se fechar na cintura. Abri de novo a torneira e mergulhei a cabeça no lavatório como uma avestruz na areia. Quando a levantei, a voz tinha um rosto, um rosto conhecido, com barba e cicatrizes iguais às das pedras de granito. Esse é o rosto que me acompanha agora e estará comigo hoje mesmo no paraíso e, amanhã, nas capas dos jornais:

– Deus é grande! – gritou, puxando-me para cima pelo ombro – tu, aqui?!

O espelho dizia que a lividez enjoada do meu rosto era uma página em branco onde cabiam todas as perguntas. Aquela voz podre cheirava mal e estava em cima de mim. O cheiro a trampa fala alto, de boca aberta, entra pelos ouvidos como uma longa respiração dolorosa e fica entranhado na memória a dizer palavras fétidas, nauseabundas.

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