A ocupação romana da serra de Monchique

Os romanos chegaram à Península Ibérica em finais do século III a.C., no âmbito da Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.) que opôs as duas grandes potências que então dominavam o Mediterrâneo ocidental – Roma e Cartago. Após vencerem a batalha de Zama (202 a.C.), que motivou o fim da guerra, os romanos vão apoderar-se dos territórios que os cartagineses dominavam no norte de África e na Península Ibérica. A ambição expansionista dos romanos vai conduzi-los à conquista de toda a Península (que denominaram de Hispania), a qual durará praticamente 200 anos, sendo finalizada em 19 a.C. durante a governação do primeiro imperador de Roma – o famoso Octávio Augusto. Durante essa longa conquista depararam-se com diversos povos que habitavam regiões distintas e que, justamente, tinham tradições e vivências diferentes – por exemplo os turdetanos, os lusitanos, os vetões e os galaicos. Considerando as descrições dos autores clássicos, o sul da Hispânia foi rapidamente conquistado, não havendo grande oposição por parte dos povos nativos que aí se encontravam, visto serem povos ligados ao mundo mediterrânico (em termos de comércio e de influências). Todavia, o mesmo não aconteceu mais a norte, verificando-se uma grande resistência, por exemplo, por parte dos povos lusitanos – mais ligados ao mundo atlântico. Importa frisar que os territórios que compõem o atual sul de Portugal (Algarve e Baixo Alentejo) eram habitados pelos cónios – povo tradicionalmente associado à enigmática Escrita do Sudoeste.

No que respeita ao concelho de Monchique salienta-se que não se conhecem descrições por parte dos autores clássicos que refiram diretamente este território. Assim sendo, os escassos dados científicos disponíveis para estudar e entender a ocupação romana desta região serrana provêm de intervenções arqueológicas e de achados fortuitos. É bastante provável que essa ocupação (e grosso modo do atual Algarve) tenha ocorrido logo após o final da Segunda Guerra Púnica, designadamente durante a(s) primeira(s) década(s) do século II a.C., tendo este território sido integrado na província romana da Hispânia Ulterior e, posteriormente, na província da Lusitania. Realça-se que existem fortes probabilidades da designação romana desta serra ser Mons Săcĕr ou Montem Săcrum – que significa Montanha Sagrada ou Monte Sacro.

Relativamente aos vestígios arqueológicos atribuídos ao período romano evidencia-se que, especialmente ao longo dos dois últimos séculos, foram realizados vários achados (móveis e imóveis) um pouco por todo o território concelhio de Monchique. Infelizmente a maioria desses vestígios desapareceram ou foram destruídos, restando somente as descrições efetuadas por alguns investigadores. Com efeito, existem referências à descoberta de sepulturas (supostamente) romanas na Fóia, na Arqueta, na Alcaria do Banho, no Cerro da Vigia e no Alferce, assim como de presumíveis estruturas habitacionais romanas na zona da Nave e na encosta que se desenvolve a oeste do complexo termal das Caldas e, ainda, os achados monetários enquadráveis nos séculos III-V d.C. realizados, por exemplo, no Rincovo, no Cortez e no Cerro do Castelo de Alferce. Salienta-se que as moedas são um importante auxiliar das datações, na medida em que geralmente exibem o soberano que governava na época em que foram produzidas (terminus post quem). Também existem referências à existência de vias romanas nesta serra, contudo a intervenção arqueológica realizada em inícios de 2016 na “Estrava Velha” não confirmou essa suposição – a inexistência de vestígios nitidamente romanos sugere que essas vias lajeadas são medievais, no entanto a origem desses caminhos (antes de serem lajeados) remontará a épocas mais antigas.

No que concerne a prováveis povoações romanas na serra de Monchique, além das duas hipóteses suprarreferidas, destaca-se o Cerro/Castro do Castanho. Neste sítio insuficientemente investigado Octávio da Veiga Ferreira detetou vestígios de um caminho lajeado de acesso ao alto do cerro, bem como a existência de uma muralha e de edificações, tendo ainda escavado o que considerou ser um lagar romano. Estácio da Veiga, na sua inacabada Carta Archeologica do Algarve dedicada aos tempos históricos, relativamente a vestígios romanos no concelho de Monchique assinala em Marmelete a existência de uma “povoação extinta ou arrasada” e de uma “mina em trabalho antigo”. Ademais, indica a “descoberta de objeto isolado” em Casais, referencia uma “sepultura com inumação” entre a vila de Monchique e a Fóia, na Cruz da Picota menciona um “cemitério de inumação” e no Cerro do Castelo de Alferce refere uma “construção isolada” – a única destas ocorrências que foi posteriormente abordada pela sua bisneta. Infelizmente este ilustre arqueólogo faleceu antes de terminar as descrições que acompanhariam esta Carta Arqueológica, pelo que nada mais sabemos sobre os vestígios supostamente romanos por si assinalados no concelho de Monchique.

Nas emblemáticas Caldas de Monchique foi onde se encontraram mais evidências da ocupação romana neste território – não obstante os achados arqueológicos que demonstram que este local já era frequentado antes da chegada dos romanos. Em 1942, no âmbito das obras de remodelação do complexo termal e melhoramento das captações das águas mineromedicinais, o antigo balneário termal situado na margem direita da ribeira do Banho foi destruído e, sob essa edificação, surgiram os vestígios arqueológicos de um balneário romano. Desta forma, confirmou-se a existência de um complexo termal romano que aproveitava as nascentes termais e que se desenvolvia em ambas as margens da ribeira do Banho. Atendendo aos vestígios romanos encontrados no local exato da mais importante nascente termal (Fonte de S. João), especialmente aqueles atribuídos ao século I d.C. – a ara votiva que constitui o cumprir de um voto consagrado às “Águas Sagradas”, as lucernas e algumas das moedas –, é possível que o balneário romano que aí existiu tenha sido construído durante a soberania do imperador Augusto, portanto há cerca de 2000 anos (quando já tinha sido finalizada a conquista da Hispânia). Nesse local foram também encontrados vários materiais construtivos (por exemplo fragmentos de mosaicos policromos que formavam pavimentos), diversos vestígios cerâmicos, uma estatueta feminina e duas cornucópias em bronze – símbolo representativo de abundância e fertilidade, que pode estar associado ao culto da deusa Fortuna –, que evidenciam a importância deste sítio durante a ocupação romana.

Muito ainda há para descobrir no concelho de Monchique sobre a presença romana, não descurando os vários achados de interesse arqueológico que devem estar na posse de particulares (cuja inventariação e obtenção de informações sobre os contextos de achado seria importante). A criação de um Museu Municipal em Monchique e/ou de um núcleo museológico nas Caldas de Monchique – por exemplo aproveitando as instalações do desativado balneário termal construído na década de 1940 – deverá constituir uma mais-valia para este território concelhio e para as suas gentes, nomeadamente no que respeita ao conhecimento, salvaguarda, valorização e divulgação do seu vasto património cultural.r

Bibliografia:
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Legenda da imagem: O desativado balneário termal situado onde outrora existiam estruturas romanas

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