Vitória do riso sobre o estupidez (II)

Foi graças à Lieva que comecei a reentrar no mundo pela porta da frente. Era bom: corríamos pelos passeios, ao nascer do sol, dissolvidos no primeiro pulsar do dia. Éramos dois traços de luz a riscar a madrugada. Lentamente, as imagens do meu logro foram escorrendo para o chão do esquecimento nos fios de baba com que a Lieva colhia o meu abraço no fim de cada corrida, à hora em que as entranhas do dia cheiram a torradas. Ficávamos uns minutos sentados nos passeios, enquanto descansávamos, a ver os carros passar por entre as pernas das pessoas.

Antes mesmo de os meus vizinhos me considerarem uma peça de museu, um animal de circo ou um personagem de filme, a interação com a Lieva levou-me à fruição da companhia impessoal do outro. Como uma árvore a despontar da fundura exígua do caroço em direção ao sol, ali estava eu, pronto para encontrar o ponto onde me perdera.

Depois de alguns dias fechado no quarto, com o intelecto fechado às sensações do mundo, a caçar moscas com a Lieva, a dor não me incomodava; a luz cortada pela persiana não me doía.

Dizem que caçar moscas é um teste à paciência. Falhei repetidamente. Não desarmei. A Lieva foi testemunha do meu esforço. Pelo modo como aguardei o momento em que as moscas cruzavam o ar morno para dar cabeçadas na vidraça como granizo, pude perceber, depois de fechar o último daqueles insetos dentro da mão e de a atirar com a contundência de um relâmpago de encontro ao parquet, que tinha atingido o grau supremo da paciência. A minha vontade era maior do que eu e do que todos os determinismos que voavam à minha volta como uma música inevitável. Foi um teste à paciência e venci-o. Perseverei. A paciência que procurei naqueles dias frios de isolamento tinha-se convertido em teimosia. E isso apenas foi possível porque me entreguei à solidão. Não àquela solidão determinada pela privação do semelhante ou pelo desprezo do outro, nem à que é consequência de um erro de acompanhamento como acontece ao vinho com melancia, ao fogo e à gasolina ou ao ódio e à violência, mas a outra, aquela que se impõe como a convivência desprendida que cada um de nós mantém com o seu interior, indiferente ao que acontece à nossa volta. É uma grande contradição, a solidão. É grande, ampla e espaçosa e, no entanto, apenas cabe lá dentro um pedaço inteiro: a nossa singularidade. É uma coisa tão próxima, que nos mantém longe dos outros. Foi isto que percebi ao lembrar o meu devaneio sírio. Construí algumas recordações, que, infelizmente, não foram a tempo de reconstruir as ruínas de Palmira nem de edificar em mim um pingo de dignidade capaz de arrastar a lama dos meus erros. Lembrei-me de como não saber viver me fez desejar a destruição.

Vi-me acontecido. Como foi duro reconhecer-me no mais irreconhecível de mim.

Mas passou. Fui paciente. A paciência é tudo.

Após esta viragem para dentro, estava pronto para o que se abria nas circunstâncias gerais do quotidiano, redescobria o meu lado de fora. Os espelhos aceitavam-me. Dento de casa, no relógio de Sol que trouxe das ruínas de Palmira e que não dava horas, mas sim os cheiros da estações, privado da sua corda luminosa, batiam as badaladas de um cheiro de jasmim: primavera, embora não o fosse. Entendi que podia, novamente, olhar o sol e ser um homem.

Abri as janelas, voltei a comer um bitoque, depois de muito tempo sem mastigar carne de porco, arejei a casa e as ideias. O mundo tinha de novo substância, já não era só pele e osso, voltava a ter carne e um ovo a cavalo, a gema onde era possível molhar o meu pão de cada dia. O buraco negro pleno de energia que se insinuava repetidamente dentro de mim começava a libertar os primeiros rasgos de luz em muito tempo.

Já não me bastava a mim próprio. Tinha de encontrar-me no ponto em que me abandonara quando, convencido de que era a resposta a um aceno divino, optei por me entregar àquele delírio desértico. Precisava de encontrar um trabalho para saber viver. Era necessário fazer-me merecido ao mundo e a melhor maneira de o fazer era ser merecido a uma mulher. Passadas semanas sem fazer nada, tinha de provar que não estava morto como o tempo, morto como o mar exageradamente sem vida e sem sal em que vivia. Tornei a minha decisão inevitável, não queria continuar a sentir-me cada vez mais estúpido, cada vez mais desgraçado, superficial e cheio de misérias interiores, como se tivesse engolido as sombras de mil calhamaços de literatura má.

Durante a semana, às sete em ponto – ou seria depois disso, talvez já perto das oito? -, não me recordo, o conceito de pontualidade tem para mim a exatidão deformada dos relógios nos quadros do Dali, pela manhã, já não tão cedo como dantes, o sol a dar-me coices na cara, atrelava-me à Lieva e deixava que fosse ela a guiar-me pelas ruas da cidade. Era bom. Sabia-me bem. Caso não tivesse cortado a barba, talvez sentisse as carícias da brisa provocada pelo movimento da corrida a puxar-me um resto de pelos debaixo do queixo.

Perto dos locais onde a cadela parava para urinar, procurava uma hipótese de emprego. Os cães têm faro para o futuro, por isso é que o borrifam de urina como quem tira senha para marcar lugar na fila das finanças. Nas imediações de postes de iluminação, caixas de telecomunicações, árvores, gradeamentos de jardins assinalados pela Lieva e outros objetos de mobiliário urbano em que o jato apenas acertava de raspão, procurei uma oportunidade. Tentei restaurantes, livrarias, obras em curso e oficinas ornamentadas por calendários com mulheres voluptuosas que me faziam lembrar os tempos vazios por preencher no fim de semana. Atirei o barro à parede junto de empresas de gestão de resíduos, desparasitação, limpa-chaminés e limpa fossas. Todos eles receberam a minha candidatura voluntária a um trabalho com o mesmo entusiasmo de quem inicia a leitura de um livro novo.

Por um censurável capricho meu, evitei os trabalhos sujos. Fi-lo em memória do meu falecido pai. Lembro-me. Chegava a casa, depois do trabalho, desapertava a gravata como se fugisse à asfixia, atirava o casaco preto para cima do sofá e, depois de arregaçar a s mangas, demorava um quarto de hora com as mãos tresloucadas a dançar como peixes num aquário, uma escorregando sobre a outra debaixo da cascata fremente da torneira. O meu pai fechava a torneira e o rosto enojado ficava retido na purga dessa ação. Depois limpava muito bem as mãos, sacudia-as pelo ar num adejar de periquitos engaiolados e ficava um pouco mais aliviado. Encarava o meu olhar incrédulo de pargo morto e esclarecia-me:
— O dinheiro é a coisa mais porca que há.

(Continua)

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