O flagelo da raiva no Algarve nos séculos XIX e XX, com incidência no concelho de Monchique

A raiva, também conhecida como rábia ou, impropriamente, como hidrofobia, é uma doença infecciosa que afecta os mamíferos, causada por um vírus que se instala e multiplica primeiro nos nervos periféricos e depois no sistema nervoso central e dali para as glândulas salivares, de onde se multiplica e propaga.
Nas áreas urbanas tem como principal agente o cão, seguido pelo gato, e em zonas silvestres desenvolve-se principalmente nos lobos, raposas e morcegos. É uma doença fatal e até 2006 apenas se registaram 6 casos de cura entre humanos.
Desde a Antiguidade que a raiva era temida devido à sua forma de transmissão e evolução e Aulo Cornélio Celso foi o primeiro a versar sobre a doença. As mesinhas e a cauterização da ferida com um ferro em brasa subsistiram até ao século XIX, quando Louis Pasteur conseguiu isolar o vírus e produziu uma vacina, que no ano de 1885 ministrou com êxito a um garoto mordido por um cão raivoso.
Com excepção da Austrália e Antárctida, a raiva está ainda presente em todos os continentes da Terra, apesar de alguns países terem conseguido erradicá-la, como o Reino Unido, Irlanda, Japão e países nórdicos. Esta ampla distribuição deve-se à grande adaptabilidade do vírus em várias espécies de hospedeiros. Na América do Norte e Europa os casos urbanos são considerados erradicados, restando ainda as do ciclo silvestre.

Nos jornais da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX abundam as notícias algo dramáticas sobre a presença da raiva no Algarve, nomeadamente no concelho de Monchique. Além destes valemo-nos também de outros documentos que se referem à doença.
O receio de ser mordido competia com os outros medos próprios desta época, como era o caso da seca prolongada, a crise económica, a fome, a falta de trabalho, os sismos, os ladrões, as epidemias como a varíola e o tifo, os incêndios e outras desgraças como o «violento cyclone» de 21 de Abril de 1881 (Diario Illustrado, n.º 2852, de 22.04.1881, p.2). Todas estas adversidades aparecem noticiadas em jornais lisboetas e regionais, através da pena dos seus correspondentes.
Em meados de Setembro de 1876, em Algoz, um cão atacado desta moléstia tinha mordido vários outros cães e também algumas pessoas «ficando uma mulher com dois dedos fora da mão». O periódico informava ainda que os donos dos cães mordidos se recusavam a abatê-los e a Câmara Municipal não tinha providenciado nesse sentido, como lhe competia, pois «o caso é bastante sério para que não mereça essa indiferença de quem tem a seu cargo a segurança pública» (O Districto de Faro, n.º 23, de 07.09.1876, p.3).
Uma outra notícia de Março de 1879 informava que em Alvor um cão hidrófobo tinha mordido três homens e vários animais (Diario Illustrado, n.º 2056, de 02.01.1879, p.2).
Em Agosto de 1879, em Guelhim, perto de Faro, uma mulher foi mordida por um gato infectado, «que se achava em luta com um cão» (Diario Illustrado, n.º 2260, de 30.08.1879, p.2).
Em Estói, também no Algarve, «um cão danado mordeu muitos outros». O mesmo diário reportava-se também a Loulé, onde «têm aparecido muitos destes animais atacados da mesma moléstia» (Diario Illustrado, n.º 2260, de 30.08.1879, p.2).
Nesse tempo os cães vadios percorriam livremente as ruas e em grande número. Uma notícia de Junho de 1881 referia que nos concelhos de Faro e Olhão tinham aparecido alguns cães hidrófobos e em Faro um deles tinha mordido «uma criança de seis anos e muitos outros cães» tendo sido capturado e morto (Diario Illustrado, n.º 2917, de 27.06.1881, p.1).
No mês seguinte a notícia era sobre S. Brás de Alportel, onde um cão tinha mordido um cavalo, vários porcos, gado bovino e alguns cães. Ao cavalo tinha sido aplicado o reforço da sua guarda e posto em observação (Diario Illustrado, n.º 2929, de 09.07.1881, p.1).
Em Monchique, em Maio de 1882, a epidemia de hidrofobia tinha atingido o auge e a Câmara dava ordens para abater os cães vadios e particulares, enquanto os jornais informavam como lidar com as pessoas e animais mordidos por cães infectados (A Independência, Portimão, n.º 109, de 25.04.1882).
Uma notícia de Maio de 1889 informava que nas freguesias rurais de Tavira tinham aparecido muitos cães hidrófobos, «sem que houvesse fatalidade alguma a deplorar graças à prontidão e acerto das providências adaptadas pelo digno administrador daquele concelho, Sr. João Luís de Mendonça e Melo» (O Districto de Faro, n.º 694, de 30.05.1889, p.2).
Em meados de Maio de 1902 foi mordido perto de Santo António do Alto, em Faro, por um cão «presumidamente hidrófobo», o padre José Horácio de Quintanilha e Mendonça, que partiria apressadamente para Lisboa, onde se foi tratar (O Districto de Faro, n.º 1362, de 29.05.1902, p.3).
A proliferação de cães vadios na via pública, com toda a insegurança que isso causava, levava frequentemente as autoridades a tomar medidas drásticas. Nesse âmbito, durante o mês de Maio do mesmo ano de 1902 teriam sido abatidos em todo o distrito 453 cães vadios, sendo alguns deles suspeitos de hidrofobia (O Districto de Faro, n.º 1364, de 12.04.1902, p.2).
Nas Código das Posturas Municipais do Concelho de Monchique, de 1914, há dois artigos destinados a prevenir esta terrível doença. Assim, no primeiro determina-se que «quem tiver algum cão ou outro qualquer animal atacado de raiva deverá, sob pena de 5 a 10 escudos, promover a sua extinção, de modo que se faça sem escândalo e sem desumanidade». Uma vez que a fuga de um cão ou gato era reveladora de que este se encontrava hidrófobo, o artigo seguinte avisa que «se o animal tiver desaparecido será o dono, sob pena igual, obrigado a fazer urgentemente a devida participação à autoridade policial ou administrativa» (Código das Posturas Municipais do Concelho de Monchique, 1914, pp. 41-42).
Em Setembro de 1915 o semanário O Algarve apelava às «anunciadas providências policiais para a extinção dos cães», pois como dizia «pelas ruas da cidade [Faro] continuavam a vaguear cães sem açaime, especialmente de noite, subsistindo portanto o perigo em que todos andamos» (O Algarve, n.º 389, de 05.09.1915, p.1).
Anos mais tarde, em Maio de 1920, assistia-se a um novo surto de raiva no concelho de Monchique, onde alguns dos cães vadios já tinham mordido crianças, adultos e algumas vacas. Na vila, alguns dos infelizes tinham sido enviados para Lisboa, onde receberam tratamento anti-rábico. A doença também atacou no Alferce, onde se deslocou o padre Francisco Jorge Melo, que no intuito de aliviar o sofrimento se limitou «a espargir com água benta as cabeças dos pobres e pacientes cornupetos», o que foi motivo de ironia para o jornal local (A Mutualidade, n.º 16, de 23.05.1920, pp.2-3).
Recorde-se, esta freguesia tinha por padroeiro o mártir São Romão, que protegia contra os cães danados, mas não contra os lobos, como escrevia o poeta popular José da Silva Conceição:

«Quero pedir a São Romão
Que me livre do mau cão».

A frequência com que estes casos apareciam então nos jornais demonstra que a vacinação ainda era por esta altura bastante deficiente e quando se faziam sessões de vacinação estas eram realizadas por médicos.

 
Notas e Bibliografia
Código das Posturas Municipais do Concelho de Monchique, Tipografia Literária, Coimbra, 1914.
SAMPAIO, José Rosa, Pestes e Epidemias no Concelho de Monchique, 2.ª ed., 2015.
– A Medicina Popular no Concelho de Monchique: um contributo para a sua História, 2.ª ed., Monchique, 2014.
– Farmácias e Farmacêuticos em Monchique, 3.ª ed., Monchique, 2013.
– Algumas Notícias sobre a Raiva no Algarve da Segunda Metade do Século XIX e Primeiras Décadas do Século XX, 2015.
O Comércio de Portimão, n.º 90, de 15.04.1928, p.1, referia-se à vacinação obrigatória, onde participaram os médicos de Portimão, Francisco Vito de Mendonça Côrte-Real, Luís Valentim e Torcato Leiria, que já tinham realizado 3798 vacinas.

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