Incêndio, o gigante que devorou pedaços de vida

A Serra de Monchique, à semelhança do que aconteceu a nível nacional, também foi palco de um cenário de catástrofe com um «incêndio muito atípico», como classifica Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique que deflagrou entre os dias 3 e 9 de setembro nos concelhos de Monchique e Portimão.
No combate às chamas, que consumiram cerca de 1818 hectares no concelho de Monchique, estiveram envolvidos, ao longo dos vários dias, mais de 700 meios humanos, 8 meios aéreos e várias máquinas de rasto. Os bombeiros, que ajudaram a combater as chamas, vieram de todas as corporações do Algarve e foram apoiados por bombeiros de outras regiões do país.

O aparecimento dos vários focos de incêndio
Por volta das 17h00 foi dado o alerta de que estava a deflagrar um incêndio na zona do Porto de Lagos – entre Portimão e Monchique. Pouco depois, um outro fogo inicia-se na zona das Caldas de Monchique e passado pouco mais de 30 minutos um outro começa na zona da Foia. Entre os populares recorda-se, quase de imediato, os incêndios de 2003 que consumiram mais de 80% da superfície do concelho de Monchique.

Luísa Alves, habitante dos Casais, explica que no sábado, dia 3 de setembro, após ter tido conhecimento dos diversos focos de incêndio começou a ficar «assustada, mas nem sabia que o pior estava para vir». Entre os populares ouvia-se repetidamente «setembro novamente» já que também os grandes incêndios deflagraram no mesmo mês.
Para Rui André a «única comparação, com os incêndios de há 13 anos foi a sua origem, ou seja, fogo posto».
No primeiro dia de incêndio um homem foi detido em flagrante na zona da Foia por dois militares da Guarda Nacional Republicana que estavam de folga, incêndiário esse que aguarda julgamento em prisão preventiva.

Às 21h00, as chamas já eram visíveis nos concelhos vizinhos e no domingo,segundo os populares, acalmaram durante o dia, mas temia-se que atingissem a zona dos Casais. À noite, testemunhado no terreno, as suspeitas confirmaram-se e com a aproximação das chamas a aldeia ficou rodeada de fogo. Muitos dos habitantes dos Casais, aflitos, mostravam-se preocupados, assustados e hostis para com pessoas que não eram habituais naquela zona.

Na segunda-feira, dia 5 de setembro, a situação foi resolvida, mantendo-se 298 operacionais no terreno, auxiliados por 99 veículos e 3 meios aéreos que eram acionados para descargas pontuais em locais onde se verificavam reacendimentos. Neste incêndio arderam 381 hectares.

Quarta-feira, a desmobilização de meios e o reacendimento
No dia 7, por volta das 19h57 e cerca de meia hora depois da desmobilização de meios, um incêndio de grandes proporções volta atingir o concelho de Monchique. Ainda hoje se investiga o que o terá originado, se fogo posto ou reacendimento. Para o edil monchiquense «tudo leva a crer que foi um reacendimento porque as cepas das árvores, mesmo depois de aparentemente apagadas, ao fim de dois ou três dias continuam a arder debaixo da terra».

«Na verdade, ainda não tinha havido vento desde o momento em que o fogo foi dado como extinto até àquela fatídica hora no local onde reacendeu, denominado precisamente Cerro do Vento», explica Rui André.

Nenhuma casa ardeu, nenhum animal morreu. Foram evacuadas 16 pessoas, todas por precaução. Uma moradora revelou à nossa reportagem que «foi uma noite terrível» e que esteve «sem dormir várias horas». Já Diogo Alves, um jovem monchiquense que assistiu ao incêndio pela televisão admitiu que «tiraram um pouco da minha vida», justificando que a serra «é a minha vida».

Nesta noite, com condições atmosféricas adversas, nomeadamente o vento forte, o incêndio desceu a serra e chegou ao concelho de Portimão. As zonas dos Montes de Cima e da Senhora do Verde tiveram de ser evacuadas, tal como uma unidade hoteleira perto do Autódromo Internacional do Algarve mas tudo, segundo as autoridades, por precaução.

O incêndio continuou a deflagrar na quinta e sexta-feira, dia 8 e 9 de setembro. O ar era irrespirável em Portimão onde chegou a cair cinza na praia e, segundo relatos, o fumo chegou a alguns concelhos do sotavento algarvio. Nesta ignição arderam 1437 hectares.

O pós-incêndio, a insustentável vontade de superação e o objeto suspeito
Durante o fim de semana de 10 e 11 de setembro existiram alguns pequenos reacendimentos, que foram resolvidos rapidamente.

Depois do fogo estar extinto nota-se na população o agradecimento a todos os intervenientes. Luísa Alves assegura que «agora é levar a vida para a frente» e Diogo Alves assume que «quer ser bombeiro!».

Para Rui André, «a mensagem é de satisfação, porque este incêndio veio pôr à prova uma série de respostas que fomos capazes de dar», admitindo que «o trabalho não fica por aqui, pois ainda há muito para fazer» e faz o apelo «às pessoas para que tenham atenção e que limpem sempre que possível em redor das suas habitações».

Apesar de tudo, a dúvida permanece entre o reacendimento ou a mão criminosa. Segundo adiantou o presidente da câmara municipal ao Jornal de Monchique «foi encontrado um objeto suspeito no limite com o concelho de Odemira. Basicamente, trata-se de um paraquedas, com uma bomba que terá sido lançado de um meio aéreo com intenção de provocar uma ignição» e que foi entregue às autoridades competentes para análise»

 

Foto: Nelson Inácio

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