História não oficial de Portugal: aprender com um sorriso nos lábios

“Sim, o que tem nas mãos é uma História de Portugal, mas diferente de todas as outras. Ao contrário dessas, que são senhoras de saias-casaco, esta veste de maneira informal. E conta os factos de forma divertida. Não é por nada, mas, olhando para as coisas deste modo, começa-se por uma ponta e o difícil é parar antes de chegar ao fim”. Com esta explicação prévia, lê-se “História não oficial de Portugal”, de Luís Almeida Martins, A Esfera dos Livros, 2015, com o redobrado prazer de irmos caminhando da Pré-História a D. Afonso Henriques e deste para os seus sucessores da primeira dinastia numa toada pícara, contrariando tantas versões oficiais daquela História sempre coberta de vitórias, de heróis e de gente santificada. Aqui há traições do mesmo modo como há os grandes artistas de Foz Coa, ao longo dessa primeira dinastia mata-se e esfola-se, temos aqui uma sucessão de episódios de entrada e saída do poder que as histórias convencionais ocultam, pais e filhos digladiam-se, a Rainha Santa lá dirimiu a contenda entre D. Dinis e D. Afonso IV nos Campos de Alvalade, na altura um subúrbio de Lisboa, Luís Almeida Martins aproveita as circunstâncias para associar episódios portugueses a referências estrangeiras caso da morte de Inês de Castro tratada na peça teatral La Reine Morte de Henry de Montherlant.

É uma prosa bem-disposta e desopilante, falando de D. Fernando, o Formoso, tem a seguinte observação: “O desemprego não era, como hoje, uma chaga, pois a população, muito escassa e obviamente sem hábitos consumistas (gastar dinheiro só por gastar é uma invenção absoluta do século XIX, Pós-Revolução Industrial), tinha sempre com que se ocupar”. Falando de Aljubarrota, a batalha que mais peso teve na nossa História, não deixa de nos incomodar com certas verdades: “O exército invasor era integrado por uns 32 mil homens, incluindo muitos cavaleiros franceses. O que não costuma dizer-se é que também faziam parte dele muitos nobres portugueses, entre os quais o próprio irmão do condestável Nuno Álvares”. E mais adiante, observa a propósito da máquina de guerra invasora face à pequena coluna portuguesa de 6 mil homens: “Um dos segredos de Polichinelo mais bem guardados da História portuguesa é que D. João I pensava e voltava a pensar no que havia de fazer à vida, olhando alternadamente para o seu frágil e ameaçadíssimo trono português e para a relativa segurança que podia obter das bandas de castelã, se se mostrasse arrependido”. É, pois, a História mostrada ao nível dos sentimentos humanos, entre a servidão e a grandeza. Títulos e subtítulos são igualmente sugestivos, aptos para capturar a atenção do leitor. Estamos já no projeto henriquino e escreve-se “África abaixo, à caça de homens e à cata de ouro”. Um pouco ao jeito de José Hermano Saraiva, Almeida Martins também se mostra tonitruante, deixa-nos descrições medonhas, veja-se “O dia em que escorreu sangue do punhal do rei”: “Diogo, Diogo, terceiro duque de Beja e quarto de Viseu, herdara os títulos do pai, que por sua vez os recebera do Infante D. Henrique. D. Afonso V fizera-o condestável do reino e governador da Ordem de Cristo. A sua irmã, ao casar com o Infante D. João (futuro D. João II), estava destinada a tornar-se um dia rainha. Mas Diogo não contava com a fria determinação do real cunhado. Na conspiração liderada pelo duque entrava quase toda a fidalguia e ainda o poderoso bispo de Évora. Numa rápida manobra de contra-ataque, D. João II chamou o cunhado a Palmela, onde se encontrava nessa altura, e entreteve-o com palavras mansas na sala do guarda-roupa, na presença de dois fidalgos chamados para serem testemunhas da cena que ia ocorrer. E esta desenrolou-se muito rapidamente. Depois de, em poucas palavras, acusar o cunhado de perfídia e ingratidão, o rei sacou do punhal e, cravando-lhe no peito, matou-o com as suas próprias mãos. Bom, esta é a descrição tradicional, mas pode não ter sido ele a manejar o punhal assassínio, mas sim um dos dois fidalgos para lá chamados como testemunhas. E esse fidalgo seria, com toda a probabilidade, Diogo de Azambuja”.

Prepare-se o leitor para devorar sofregamente a divertida História de Portugal redigida por Luís Almeida Martins. São raras as objeções encontradas ao rigor dos factos. Falando do 25 de Abril, dirá que “Spínola era de opinião que a Gestapo portuguesa não devia ser extinta e achava que nem todos os presos políticos deviam ser libertados. Claro que perdeu no braço-de-ferro com os capitães”. Não foi exatamente assim, Costa Gomes impôs inicialmente a manutenção da PIDE em África e alegou fundados motivos, escreveu-o repetidamente. Mas enfim são minudências que não destoam este documento original bem desenhado no que cabe ao caricato e ao insólito, a aposta está ganha pois o leitor vai divertir-se e aprender a História com um sorriso nos lábios.

Autor: Beja Santos

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