Heinrich Himmler, um genocida na vida privada

Na cúspide dirigente do nacional-socialismo deve-se a Himmler o mais significativo acervo de correspondência pessoal. Hitler nunca fez diário e mandou destruir o que havia de notas e agendas; Goebbels, o ministro da Propaganda, escreveu um diário onde se cruzam o delírio e o fanatismo, etc. Himmler deixou um legado único “É não só um dos grandes genocidas da história como também o criminoso nazi de quem temos mais documentos de natureza privada”. “Heinrich Himmler, Correspondência”, por Michael Wildt e Katrin Himmler, Bertrand Editora, 2016, reúne a correspondência organizada pela sobrinha-neta de Heinrich e Marga Himmler, de colaboração com um dos mais conceituados estudiosos do regime nazi do nosso tempo. Uma correspondência que esclarece como Himmler foi o arquiteto do Holocausto.

Trata-se de uma correspondência que permite tomar o pulso à ascensão de um modesto funcionário bávaro no chefe de uma das máquinas de repressão mais brutais de todos os tempos. Como anota o historiador, antes da guerra Himmler impõe-se como doutrinador racial, chefe das SS, tropa de elite, da Gestapo, o corpo policial, e vai sendo encarregado de pôr em execução a Solução Final para o povo judaico. Durante a guerra. Himmler viveu sobretudo em “comboios especiais” que circulavam perto do teatro de operações e que lhe serviam de quartel-general. As suas cartas para a mulher, Marga, são extremamente lacónicas quanto à guerra, muito ternas com a filha Gudrun e há largas referências a um filho adotivo. É uma correspondência que ilude completamente o caso amoroso do dirigente nazi com a sua secretária, de quem teve filhos. É extremamente discreto sobre o quotidiano assassino das tropas que comanda: “Os combates são muito duros, incluindo e sobretudo para as SS”. Lembra à mulher que vive atolado em trabalho, que recebe as tarefas mais espinhosas com entusiasmo. O tempo passa e Himmler é cada vez mais importante, responde pelos campos de extermínio, ministro do Interior, comandante do Exército de Reserva.

22_sugestão de leituraE falamos de uma correspondência em que o genocida nunca disfarça as suas convicções. “Ele não tinha necessidade de cindir nem de desdobrar a sua personalidade. Não fazia nenhuma distinção entre a sua atividade como chefe das SS e executor da política de extermínio, por um lado, e a sua vida privada por outro”. O casal compartilhava o antissemitismo e o racismo, o ódio ao judeu e a todos os que estivessem fora da “comunidade étnica” nacional-socialista. As notas de Michael Wildt estimulam a vivacidade da leitura destas cartas, Temos primeiro um funcionário partidário, começa depois a correspondência amorosa entremeada de dados sobre a vida burocrática, Himmler conta a mulher a que horas se levanta, toma duche frio, barbeia-se e vai para o escritório onde já o aguarda uma agenda intensa. Quando Hitler ascende ao poder em 1933, e depois da liquidação da direção de uma tropa de choque do partido nazi, as SA, em 1934, Himmler é o dirigente nazi cujos poderes mais aumentaram. A partir de Junho de 1936 vê as suas funções de Reichsführer-SS e dos campos de concentração, dirige a segurança do Reich através da Gestapo e da Kripo. Aquando da invasão da URSS, ondas de exterminadores às ordens de Himmler vão executando comunistas como em 1939 foi sendo liquidada a classe intelectual polaca. Esta ascensão irá refletir na vida do casal e o católico severo e frugal foi dando lugar a um dirigente nazi que não tem rebuço em enviar encomendas de valor excecional em tempo de guerra à família. É às ordens de Himmler que ocorrerá a mais tenebrosa repressão nos territórios ocupados.

Chegados à guerra, o “passador racial” torna-se ainda mais afinado, o projeto genocida vai-se desenvolvendo dentro da preocupação de extinguir totalmente a noção de judeu, ao princípio, ainda nos anos 1930, pensara-se na sua deportação para África, mas o teatro da II Guerra Mundial mudou os planos, a evacuação brutal para Leste passou a ser a consigna e depois o extermínio de massa em campos de concentração teve o seu expoente máximo em Auschwitz. O fluxo de correspondência mantém-se constante, com alguma regularidade Himmler informa a família dos locais onde se encontra. E quando a guerra, a partir de 1943, dá sinais inequívocos da derrota alemã, quando a Itália capitula e os comandos SS perpetram massacres entre a população civil italiana, em 4 de Outubro Himmler pronuncia em Poznan o mais triste célebre dos seus discursos, diz expressamente: “Saber como vão os russos, como vão os checos, é-me totalmente indiferente. O que de há de bom sangue da nossa espécie no seio desses povos iremos procura-lo, se necessário roubando-lhes os filhos e educando-os entre nós. Saber se os outros povos vivem com conforto ou morrem de fome, isso só me interessa na medida em que temos necessidade deles como escravos para a nossa cultura, o resto não me interessa. Que 10 mil mulheres russas caiam esgotadas abrindo uma fossa para carros de combate, ou não, isso só me interessa na medida em que a fossa para carros de combate seja construída para benefício da Alemanha. Não seremos nunca brutais e sem coração onde não for absolutamente necessário; isso subentende-se. Nós, alemães que somos os únicos no mundo a ter uma atitude honesta com os animais, teremos também uma atitude decente com esses animais humanos”.

A partir de Janeiro de 1945, aperta-se o cerco à Alemanha. E a 17 de Abril o genocida escreve à mulher e filha: “Fiquem de boa saúde, minhas queridas. O antigo proteger-nos-á, a nós e em particular ao generoso povo alemão, ele não nos deixará desaparecer”. É a carta do adeus. A 22 de Maio, quando tentava escapar ao cerco inglês, foi capturado e identificou-se, trincou uma cápsula de veneno, era impensável que este meticuloso genocida tivesse que prestar contas sobre a limpeza racial que conduziu tão metódica e implacavelmente.

Autor: Beja Santos

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