Harmonia

harmonia“A harmonia é a poesia da ordem”.
(Honoré de Balzac)

Conceito que, desde a Antiguidade até aos tempos do humanismo e da época clássica, modelou profundamente a civilização ocidental, na actualidade a harmonia passa por ser uma noção algo confusa que, esvaziada de toda a sua substância e de todo o poder que a palavra em si encerrava, aparece empregue de modo privilegiado pelas mais díspares formas da cultura humana1: da medicina à astronomia, da arquitectura à música, da moda ao teatro, da estética à política ou da teologia à filosofia, não só não há arte nem saber que não se lhe refiram, como ainda parece concernir a todas as coisas, grandes ou pequenas, admiráveis ou desprezíveis, desde a ordem do Universo ao mais insignificante objecto de decoração. O mundo profano adora este conceito que a harmonia encerra: ele é a harmonia do canto dos rouxinóis ou a de um verso alexandrino; ele é a harmonia do acorde de uma guitarra ou a dos contrastes das cores num quadro – tudo o que a Natureza ou o Homem produzem de belo, haverá por força de ser harmonioso. Inicialmente relacionada com a música e a poesia, nas quais define uma combinação de sons ou de rimas que produzem uma sensação agradável aos sentidos, a harmonia extrapolou largamente do seu mais restrito significado, para exprimir o acordo perfeito entre as várias partes de um todo, que assim formam grato conjunto e concorrem para o mesmo fim. Derivado do termo grego αρμονια, cujo significado é, literalmente, arranjo, ajuste, união de várias partes, este substantivo feminino foi introduzido na língua portuguesa escrita, cerca de 1543, por Jorge Ferreira de Vasconcelos2, na obra dramática clássica Comédia Eufrósina, e é, uma vez mais, na mitologia grega que vamos encontrar a sua génese. Quando Cadmo, o herói fundador da cidade de Tebas, em demanda pelo paradeiro de sua irmã Europa3, matou o dragão que lhe massacrara os companheiros, sofreu como pena, servir, por oito anos, o proprietário do monstro, o deus da guerra Ares. Findo o castigo4, ordenou Zeus, quiçá para recompensá-lo pelo rapto da irmã, que se casasse com a filha do bélico senhor, a bela Harmonia, fruto de um devaneio desse deus com Afrodite, a deusa do amor e da sexualidade. Harmonia, que é representada com uma lira na mão e na cabeça uma coroa com sete diamantes, para designar as sete notas musicais, e que personificava a união das famílias, a concórdia na sociedade, o acordo no casamento e o entendimento nos lares, foi a primeira deusa a consorciar-se com um mortal5. Como tal, ao seu casamento compareceram todos os deuses do Olimpo: o próprio Zeus honrou o feliz casal sentando-se à sua mesa, as três Graças abrilhantaram a boda com os seus maviosos cânticos e as prendas ofertadas pelos ilustres convivas cintilavam como raios de sol. De entre elas, destacavam-se um manto tecido pelas Cárites, deusas da dança, e o fatídico colar de ouro6 trabalhado pelo ourives celeste, Hefesto, deus do fogo, artefactos que desempenharam um papel funesto na história de Tebas. O reinado de Cadmo e Harmonia foi longo, tranquilo e próspero; consta que ele civilizou a Beócia, onde introduziu o alfabeto fenício e ensinou aos gregos a prática da escrita, ao mesmo tempo que incentivava o uso do arado, enquanto ela divulgava o gosto pela música e favorecia o bom relacionamento social. No outono das suas vidas (ao consorciar-se com um humano, Harmonia perdera a sua imortalidade), os reis de Tebas abandonaram a cidade em condições misteriosas, emigraram para a Ilíria, onde fundaram uma nova dinastia e, já bastante idosos, foram metamorfoseados pelos deuses em serpentes e conduzidos às ilhas dos Bem-Aventurados (Campos Elísios) para aí gozarem a eternidade em paz, não havendo notícia de que quaisquer demais serpentes tenham alguma vez adentrado o Paraíso.

Se, conforme afirmava o matemático e cosmólogo britânico Alfred Whitehead (1861-1947) – “A teologia do universo está orientada no sentido da produção da beleza” – e, parafraseando o filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716) – “É a harmonia que faz a beleza do mundo” – então, posto que a beleza é uma condição essencial à realização do mundo, a harmonia é o que permite ao Homem relacionar-se e interagir com o meio que o envolve, pois para o ser humano um equilíbrio harmonioso com a natureza constitui uma condição indispensável e definitiva para assegurar o seu desenvolvimento, tanto no momento presente como para o futuro.

Citações:
1. “… a porta da fortaleza, cujos gonzos perros tinham um chiar que era para Manuel Quintino…agradável ainda quando pouco harmonioso…”. Júlio Dinis in “Uma Família Inglesa”, cap. IX – No escritório, pág. 95, Livros Digitais.
2. “Ao cair da noite, um criado, para anunciar o jantar, fazia soar pelos corredores na sua tuba de prata, à moda gótica, uma harmonia solene.”Eça de Queirós in “O Mandarim”, cap. III, pág. 58, Ed. Livros do Brasil.
3. “Nunca os de Barbeita cuidaram que o seu piano pudesse dar aquele estrondo e harmonia.” Camilo Castelo Branco in “A Filha do Doutor Negro”, cap. VII, pág. 63, Poeteiro Editor Digital.
4. “ Tanto lhe descompuseram a harmonia das feições do rosto, tanto lhe quebraram os brios de todo o corpo…”. Padre António Vieira in “Sermões e Discursos Vários”, tomo 2, volume XV, cap. I, § 9, pág. 210, Editora Loyola.
5. “… penso que Deus é a harmonia, e quem diz harmonia diz proporção”. Aquilino Ribeiro in “O Servo de Deus”, pág. 106, Ed. Bertrand – Lisboa, 1967.

Notas:
1 O sentido próprio da palavra harmonia designa muito simplesmente uma junção ou união por engrenagem, sentido este que apenas é mantido na linguagem anatómica e designa um tipo de sinartrose (articulação que não permite os movimentos dos ossos que ela une).
2 Nascido por volta de 1515, de uma família originária de Montemor-O-Velho, J. F. Vasconcelos foi criado de casa dos Duques de Aveiro e frequentou o meio universitário de Coimbra cerca de 1540, onde se inscreveu no curso de Direito e foi contemporâneo de Luís de Camões. Escrivão da Fazenda Real e da Casa da Índia legou-nos outras duas comédias, a Comédia Ulyssipo e a Comédia Aulegrafia, e um romance de cavalaria, o Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda. Faleceu em 1585.
3 Europa, princesa fenícia de grande beleza, fora raptada por Zeus, que para tanto se metamorfoseara num touro branco, e a levara para a ilha de Creta. O pai da jovem, o rei Agenor de Tiro, ordenara aos seus quatro filhos (Cadmo, Cílice, Fénix e Taso) que partissem em busca da irmã e não regressassem a casa sem a missão cumprida. Missão impossível de realizar e que lançou os quatro irmãos numa peregrinação pelo antigo mundo, até compreenderem que estavam numa demanda sem fim e se fixarem, cada qual em uma região diferente litorânea do Mar Trácio, a que deram os seus nomes.
4 Mesmo após cumprir o castigo que lhe fora imposto, a ira de Ares (porque Cadmo lhe matara o dragão) e o rancor de Hefesto (que era o marido enganado de Afrodite) perseguirão por muitas gerações a descendência de Cadmo e Harmonia: todos os seus filhos, netos e demais detentores do colar de Harmonia (o presente envenenado) tiveram um destino absolutamente atroz, vítimas dos mais hediondos crimes que se possam imaginar.
5 A segunda e última vez que os deuses se dignaram deixar os seus celestes aposentos, para confraternizarem com os homens, ocorreu nas bodas de Tétis com Peleu, pois Éris, a deusa da discórdia que evidentemente não fora convidada, apareceu a meio da refeição e lançou a confusão ao atirar para cima da mesa a Maçã de Ouro ou Pomo da Discórdia, com a inscrição “Para a mais bela”. Ora, festejavam em conjunto Afrodite, Atena e Hera, levantando-se de imediato uma enorme altercação e disputa entre as três. Os deuses não se atrevendo a assumir a responsabilidade da escolha, Zeus, abruptamente, deu por finda a reunião e ordenou a Hermes que conduzisse as três imortais ao Monte Ida para que aí fossem julgadas por um mortal, Páris, o filho do rei Príamo de Troia. Pela promessa de lhe ser concedida a mais bela mulher do mundo, Páris entregou a joia a Afrodite que o recompensou com a bela Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, dando assim início à Guerra de Troia.
6 O manto e o colar de Harmonia foram a causa de uma guerra civil: transitaram pelos seus descendentes até chegarem às mãos do filho de Édipo, Polinices, que em desacordo com o irmão sobre os direitos de sucessão ao trono de Tebas, os usou para subornar Erifila a fim de que esta convencesse o marido, o poderoso adivinho Anfiarau, a juntar-se-lhe para retomar a cidade (Guerra dos Sete contra Tebas).

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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