Geração Futura – «Houve tempo para o silêncio, para falar, para nos abraçarmos»

A Galeria de Santo António, em Monchique, recebeu, durante esta semana, de 27 a 31 de agosto, 19 crianças dos 4 aos 10 anos e 23 adolescentes dos 10 aos 16 anos. Foi um espaço de convívio e partilha que o projeto «Geração Futura» permitiu a estes participantes, que encheram as paredes da galeria com mensagens. Joana Cordeiro, de 31 anos, foi a coordenadora deste projeto.

A «monchiquense de coração» é licenciada em dança e tem um mestrado na área de artes cénicas. A sua experiência profissional passa pela produção, direção de cena e educação, que são diretórios para os projetos que tem desenvolvido.

O Jornal de Monchique esteve à conversa com Joana Cordeiro para conhecer mais sobre este projeto e que marca deixou na «geração futura».

 

Jornal de Monchique – O que é o projeto «Geração Futura» e que tipo de trabalho foi desenvolvido com as crianças e jovens?

Joana Cordeiro – Quando houve esta situação de calamidade por causa dos incêndios, senti que tinha que vir para cá ajudar e fazer, dentro da minha área, o melhor que eu podia. Achei que montar um projeto em que as crianças e jovens pudessem pensar sobre o futuro, sobre a ideia de que juntos vamos conseguir reerguer-nos, falar de temas como a sustentabilidade, a comunidade, a cidadania participava, a regeneração e a ideia do movimento de transição. Tivemos uma biblioteca viajante que chegou até nós com vários suportes, desde livros e DVD’s, a material de expressão plástica. Lemos histórias incríveis de regeneração e transição de outros países afetados por catástrofes

 

JM – Qual foi a linha orientadora para o surgimento deste projeto?

JC – Este projeto tem uma continuidade. O ponto de partida foi o «Galeria em Festa», um outro campo de férias artístico, que coordenei em 2015 e 2016, através do «Monchiqueiro», em parceria com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Monchique, a fundação Oriente e com o apoio da Direção Regional de Cultura do Algarve.
Quando fiz esse projeto estava muito centrada nas artes plásticas e performativas. Falamos também sobre a importância de um espaço cultural para a região, tivemos performances em que os familiares e a comunidade assistiram.
Este é um projeto totalmente constituído por monitores,voluntários e pessoas a quem chamei os «convidados», que são de diferentes áreas do conhecimento vieram contribuir com o seu saber para que estes jovens e crianças pudessem, mais do que aprender, partilhar experiências e falar sobre o que sentem e o que querem para si, como veem a vila daqui a uns anos e o que se podem fazer nesse sentido.

 

 

JM – Como é que foram organizadas as atividades sendo que existiram dois grupos de trabalho diferentes?

JC – O grupo da manhã era grande e fiquei muito contente, porque os que já me conheciam tornaram a vir e trouxeram amigos. Era um grupo muito heterogéneo com jovens de idades entre os 11 e os 16 anos e que tinham sensibilidade e conhecimento. Falamos muito e eu aprendi imenso com eles. Os mais novos, constituíram um grupo também muito diferente uns dos outros. Tinha meninos desde os 4 aos 10 anos e relacionaram-se muito bem. Hoje, último dia, juntei os dois grupos e também foi um momento muito interessante de vivência e partilha comunitária.

 

JM – Que foram as atividades desenvolvidas em cada um dos grupos?

JC – Posso dizer que a galeria é um espaço que eles não frequentam muito. Estarem num espaço que só por si já respira um pouco de arte, este ano decidi não o iria decorar para que pudéssemos construir o que quiséssemos. Eles aderiram muito bem e estavam muito disponíveis. Alguns precisavam muito só de estar e não de fazer muitos coisas, Aliás, não era meu objetivo ocupar todo o tempo e tínhamos uma coisa a que chamei de «janelas abertas», em que eles podiam contribuir para a programação do próprio campo artístico. O campo em si não foi artístico puro, no sentido em que as artes foram apenas uma ferramenta. Foi mais importantes o facto de em conjunto debaterem temas e conhecerem os convidados, do que fazer dança, teatro, musica ou expressão plástica. Eles aderiram muito bem e o sentido de grupo, apesar de ter sido só uma semana, esteve muito presente. Penso que o campo de férias foi muito importante e espero que haja possibilidade de haver continuidade.

 

 

JM – Como é que os encarregados de educação se envolveram nestas atividades?

JC – Os mais velhos são mais autónomos, mas tive feedback de alguns pais disseram que é muito importante eles continuarem a ter este tipo de desafios. Quanto aos mais novos, tivemos várias atividades que eles puderam levar para casa o resultado final. Quando os pais vinham buscá-los, tinham sempre vontade mostrar esses trabalhos. Para hoje, que é o último dia do campo de férias, convidei os encarregados de educação para que se juntassem ao nosso lanche e viverem um pouco deste ambiente de grupo. Além disso, os pais puderam ver o que foi construído ao longo desta semana, como as formas em barro, os vasos em que plantamos flores e a exposição dos nossos temas. Também preparei uma pequena surpresa para os participantes, que foi escrever uma mensagem para cada um deles guardar e espero que daqui a uns anos eles ainda tenham essa mensagem e a guardem bem no coração.

 

JM – Que atividades destaca como tendo sido as mais marcantes?

JC – Fomos num dos dias para a zona do convento com os mais velhos, porque me interessava esta ideia do património estar, nalgumas partes, em ruínas. Estivemos na zona das cinzas, com as sacas do Sr. Virgílio, e ficámos sentados. Foi o momento mais marcante para os mais velhos e alguns ficaram emocionados por aquela imagem de estarmos todos juntos. Estivemos num espaço onde houve tempo para o silêncio,  para falar, para nos abraçarmos. Não quisemos sublinhar o dramático, mas ele está lá. Esse é o momento que acho que foi mais alto. Para os mais novos, a atividade mais linda, para além de um dia em que fizemos uma meditação, em que eles estavam muito calmos e conectados com a terra, não só de Monchique, mas cada um de nós como natureza e interligados Tínhamos uma música de fundo que apelou a essa ligação. Destaco, ainda, a atividade do coração verde feito com Clara Vicente, artística plástica de Monchique. Foram feitos uns corações verdes que penduramos nas árvores e escrevemos mensagens com alguns desenhos. No fundo, representa a ideia de dar esperança às árvores, à nossa terra, ao nosso futuro.

 

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JM – O que é que leva desta semana carregada de experiências e atividades?

JC – Muito amor, muita retribuição e vontade de continuar a reciclar-me enquanto educadora. Levo a capacidade de repensar quais são as minhas prioridades e a certeza que o futuro e a ideia de sustentabilidade passam muito pela educação e que as artes são uma ótima ferramenta para comunicar e para estarmos uns com os outros.
O desejo de continuidade foi salientado, tendo a coordenadora deixado, ainda, um apelo «ao sentido de responsabilidade das entidades que possam, connosco, garantir formas de futuro sustentável neste tipo de projetos em que precisamos de ser apoiados economicamente».

Joana Cordeiro fechou as portas da Galeria de Santo António, onde decorreu este campo de férias orientado para o futuro e deixou uma mensagem de agradecimento ao ao movimento cívico «Ajuda Monchique», à Câmara Municipal e Junta de Freguesia de Monchique, voluntários, monitores e à comunidade envolvida para que este projeto fosse realizado.

 

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@Foto de destaque – Joana Cordeiro, coordenadora do campo de férias «Geração Futura».

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