«Furriel Não é Nome de Pai»

Furriel Não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na guerra colonial, por Catarina Gomes, Edições tinta-da-china, 2018, é uma notável reportagem que seguramente irá incomodar muita gente, questionando todo e qualquer leitor de que há uma responsabilidade de Portugal em legitimar filhos de portugueses, um legado do colonialismo que temos de afrontar.

Problema que não é exclusivamente português, tocou a várias colónias e até aos norte-americanos que andaram em guerra no Vietname. Nunca foi assunto credor para Gomes, as crianças deixadas nas colónias pareciam ser uma vicissitude do destino, rapaziadas, ainda por cima os homens não são de ferro. E praticamente nenhum se lembrou de que esses filhos de portugueses viviam em estado de mágoa, humilhados, até discriminados entre os seus.

Esta reportagem leva-nos longe, à Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, onde há seres humanos que buscam uma identidade perdida. Tudo começa logo com Fernando Hedgar da Silva, que demorou a dar importância ao seu tom de pele. É guineense, quando o seu país assumiu os seus destinos, em 1974, ele tinha seis anos. Vivia em Teixeira Pinto e assistiu ao fuzilamento de gente acusada de ter alinhado com os “colonialistas portugueses”. E com o andar dos tempos descobriu que os “filhos de tuga” não estavam fadados a ter uma vida como os outros. A mãe de Fernando decidiu que a única forma de esconder o filho esbranquiçado era mandá-lo para fora do país, foi para o Senegal e quando à Guiné voltou quase não sabia falar português. A mãe não lhe disse quem era o pai. E assim nasceu a ideia de criar uma associação para apresentar a história dos “filhos de tuga” ao mundo. E a criação da associação abriu a porta para pungentes desabafos que Catarina Gomes passa a escrito. E sobre Fernando Hedgar, no culminar desta aventura associativa com resultados incertos, escreve a autora: “Ao escolher apresentar-se com este apelido, e ao passá-lo aos filhos mais novos, é como se estivesse a acenar com o seu nome. Como um náufrago desesperançado a lançar para o ar o último foguete de sinalização que lhe sobra. A Fernando Hedgar da Silva resta-lhe ser encontrado”.

Há duas histórias muito comoventes, dentro deste acervo de sofrimento e inquietação, nos caminhos que Catarina Gomes palmilhou. Falemos de Óscar Albuquerque e de António Bento e seu filho Jorge Paulo Bento. Impossível ninguém deixar de ficar tocado por duas histórias que são duas sagas.

Adulai Seidi nasceu filho de branco, o quartel do pai era em Ingoré, na Guiné. Através de um guineense ex-camarada de armas do pai, abriu-se uma nesga da verdade, o nome paterno era Manuel Albuquerque. Fula e de fé muçulmana, educado por irmãs religiosas, adotou a fé cristã e converteu-se em Óscar, é este o nome que consta no seu novo registo de nascimento. Contatou o Arquivo Geral do Exército, deu os dados do pai e mencionou o nome da mãe, Maimuna Djau, não obteve resposta. Não desfaleceu e tanto se mexeu que acabou por obter a morada do pai, nos Anjos, em Lisboa. Escreveu-lhe cartas umas a seguir às outras, não houve retorno. Telefonou ao pai, foi ignorado.

Filomena, irmã de Manuel Albuquerque, lê uma reportagem no Público sobre os “Filhos do Vento”, veio a descobrir a verdade, contatou o irmão, este fingiu-se desinteressado. Filomena escreve a Óscar, manda-o vir a Portugal para fazer o teste de ADN, com 44 anos Óscar vai passar a grande prova. E aqui o documento de Catarina Gomes é de uma refinada sensibilidade, esta combativa Filomena merece um lugar especial neste universo dos “filhos de tuga”, é o exemplo vivo do desvelo na estrada sinuosa do pós-colonialismo. A vida de Óscar não é fácil, o pai não o reconhece, Óscar é cidadão contingente a vários títulos, assim termina a sua história: “Cada vez que saio à rua, o estrangeiro Óscar Albuquerque traz sempre consigo, dentro da mochila preta que carrega às costas, um papel cuidadosamente protegido por uma pasta de plástico rígido. É a cópia do teste de ADN que comprovou que ele tem 99,999997% de probabilidade de ser filho do pai português por quem mudou o nome. Se for apanhado numa rusga por estar ilegal só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia”.

O leitor encontra a história inspiradora de António Bento no YouTube, mas ler Catarina Gomes traz outro conforto. António Bento chegou àquele ponto do Leste de Angola em setembro de 1973, Luvuei. Enamora-se por Esperança, vai viver para a sanzala. “Cimentou o chão de terra batida de duas divisões, mandou fazer uma porta e cortar um vidro para a janela, fez um teto falso de capim sob o telhado de folha de zinco, montou um algeroz para aproveitar a água da chuva que desaguava num jerricã. Com a bateria e uns focos velhos de um cabo fez luz. Era a única cubata iluminada à noite. Esperança engravidou, António foi deslocado para Nambuangongo. Em dezembro de 1974, quase de regresso a Portugal, decide atravessar Angola e fazer os cerca de mil quilómetros de volta a Luvuei para saber se o filho já tinha nascido, tudo isto numa atmosfera que já era de guerra civil. Ela estava de barrigão, António não teve tempo suficiente para ver o filho nascer. Veio para Portugal, o tempo passou, soube do nascimento do mulatinho filho do furriel Bento. Através de um amigo, Alberto Caçador, virá a saber onde está o seu filho, estamos em 2012.

Telefona ao filho, choraram os dois ao telefone e António parte para Angola, é quase impossível acompanhar esta narrativa sem que os nossos olhos se encham de lágrimas, Jorge Paulo Bento faz parte da Polícia de Intervenção Rápida e está destinado a ir para a Guiné Equatorial. É um encontro inusitado, Jorge disse ao pai “sou eu mesmo”.

Sabemos depois a itinerância deste filho português, Esperança morreu há muito. Pai e filho despedem-se: “A despedida foi combinada. Zito não ia lá ao aeroporto de Luanda despedir-se do pai, disse-lhe que não aguentaria a emoção, António disse-lhe que também preferia. É uma despedida combinada entre dois homens. É melhor assim”.

É um final feliz, António mantém-se muito em contacto com o filho e família angolana, aspira a visitá-lo, lembra a nora e os netos.

De leitura obrigatória, obra merecedora de um prémio de reportagem.

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