«Estamos a colher os frutos de um investimento de décadas na ciência portuguesa»

Entrevista a Gilda Lopes, post-doc na Universidade de Bergen, Noruega, e investigadora na Universidade do Algarve.

Entrevista:

Pode descrever de forma sucinta (para nós, leigos) o que faz profissionalmente?

O meu campo de especialização leva-me à descoberta de esporos, pólenes e fitoplâncton fossilizados. Normalmente trabalho com material mais antigo do que os dinossáurios, são fósseis microscópicos com centenas de milhões de anos. Graças ao seu diminuto tamanho, estes fósseis depositam-se no solo, no fundo de um lago ou do mar, e acabam por ser incorporados em rochas sedimentares durante o processo de formação destas. Para poderem ser observados hoje em dia, passam por um processo laboratorial moroso no qual é destruída toda a componente mineral da rocha ficando apenas os resíduos orgânicos que podem conter desde esporos, pólenes, algas, ou mesmo pequenos pedaços de vegetação, os quais são identificados ao microscópio. Neste momento estou a iniciar um projeto na Universidade do Algarve (PALEOCLIMOZ), no qual vou estudar esporos e pólenes com cerca 300 a 250 milhões de anos provenientes de Moçambique. Este fascinante mundo microscópico é geralmente desconhecido do público em geral e, com esta entrevista pretendo ajudar a disseminar esta incrível área de investigação.

Agora pedimos-lhe que tente contagiar-nos: o que há de particularmente entusiasmante na sua área de trabalho?

Primeiramente, para alguém que é alérgico a esporos e pólenes, posso dizer que estes fósseis não provocam alergias! Segundo, graças a esta área de investigação já consegui viajar um pouco por todo o mundo, incluindo fazer trabalho de campo numa das ilhas mais remotas do Ártico – Bjørnøya. Por último, ao estudo deste material fossilizado dá-se o nome de paleopalinologia. Pode não parecer um nome muito fácil de decorar, no entanto, esta área de investigação criada na década de 40 do século XX continua a fornecer dados cruciais para a caracterização dos primeiros ambientes terrestres e aquáticos que existiram no nosso planeta, fornecendo dados sobre alguns dos primeiros seres vivos que existiram, ou das primeiras plantas que colonizaram a Terra. Igualmente, o seu estudo é importante para a compreensão dos eventos de extinção que se verificaram ao longo do tempo geológico, constituindo-se como uma janela para compreender melhor o passado do nosso planeta. As informações provenientes do estudo destes fósseis também são importantes para a reconstrução de paleoclimas, podendo fornecer dados importantes para a compreensão das alterações climáticas atuais. Por fim, esta área de investigação é muito útil na caracterização de bacias sedimentares, podendo auxiliar em diversos projetos como os estudos que envolvem o sequestro de carbono.

Por que motivos decidiu fazer períodos de investigação no estrangeiro e o que encontrou de inesperado nessa realidade académica?

Em 2018 terminei um pós-doutoramento na Universidade de Bergen, Noruega, onde estive por 4 anos a trabalhar com esporos e algas do Ártico com cerca de 360 a 330 milhões de anos. Resolvi candidatar-me a esta vaga logo após finalizar o meu doutoramento na Universidade do Algarve, em 2013, e posso dizer que esta escolha foi motivada por razões profissionais e pessoais. Do ponto de vista pessoal, conhecer e viver intensamente uma nova cultura era uma oportunidade que não poderia perder. Já ao nível profissional, ao aceitar este projecto sabia que ia estudar material do Ártico, algo com o qual nunca tinha sequer sonhado. Enquanto investigadores, poder trabalhar e viajar para locais tão inacessíveis é um privilégio, por isso, a escolha foi bastante simples. Além disso, conheci a fundo uma nova realidade académica, diferente da nossa. A cultura de investigação norueguesa tem particularidades diferentes, nomeadamente na forma como tratam os pós-docs e investigadores em termos de contratos e direitos laborais. Talvez seja essa a característica que mais me tenha chamado a atenção. Na Noruega não há uma margem cinzenta, como em Portugal, lá somos considerados trabalhadores com plenos direitos.

Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?

Nas últimas décadas a ciência em Portugal tem evoluído de forma exponencial. Os cientistas portugueses têm feito muita e boa ciência, sendo reconhecidos mundialmente nas mais diversas áreas. Eu acho que em parte esse esforço se deve ao incentivo que os governos têm dado à ciência em contexto escolar nas últimas décadas, apostando na formação de excelentes professores. Por outro lado, a aposta no desenvolvimento de atividades em contexto extra-escolar e respectivas infra-estruturas (por exemplo, a Universidade Júnior ou a criação dos centros de Ciência Viva) têm aproximado o povo português da Ciência. Estamos agora a colher os frutos daquilo que tem sido um investimento de décadas. No entanto, tal como referido na questão anterior, a questão da precariedade laboral ainda necessita de ser resolvida. Se não o for, acredito que este modelo não se torne sustentável a longo prazo, penalizando grande parte da massa crítica do país.

Que ferramentas do GPS lhe parecem particularmente interessantes, e porquê?

O GPS é cada vez mais uma plataforma de referência para os cientistas portugueses, nomeadamente em termos de networking e disseminação de informação. Faço parte de diversos grupos do GPS, e por diversas vezes procurei a base de dados tentando encontrar colegas de determinada área que estejam registados em determinado país para onde vá. Não encontrei muitos geólogos portugueses em Bergen, mas consegui saber que tinha diversos colegas lá a trabalhar em outras áreas científicas. Parece pouco mas, para quem não conhece ninguém quando chega a um país novo, dá uma sensação de alento que conforta o coração. Obrigada, GPS!

Fotografia tirada por Gunn Mangerud, em 2014, na ilha de Bjørnøya (Arquipélago de Spistbergen, Círculo Polar Ártico.

 

GPS é um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos com a agência Ciência Viva e a Universidade de Aveiro.

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