Eduardo Duarte, escritor monchiquense: «Se tivesse de pagar para publicar, não o faria»

Nelson InácioO monchiquense Eduardo Duarte vai lançar o seu primeiro livro «Montanário» no próximo dia 9 de dezembro, às 15h30, no snack-bar Fonte dos Chorões. A apresentação vai estar a cargo de Ana Paula Almeida «a melhor professora» que teve e a editora é a On y va. Assume-se, «no máximo» como «escrevinhador», porque desembainha «os dedos ou a caneta para garatujar qualquer coisa nos intervalos das coisas sérias», mas admite que na sua escrita «há um compromisso, um vínculo inabalável às origens, à minha serra e aos silêncios que ela possibilita».

Jornal de Monchique – Quem é o escritor Eduardo Jorge Duarte?
Eduardo Duarte – Falar de mim… O nosso Manuel do Nascimento é que tinha uma dificuldade estrondosa em falar de si próprio. No entanto, nas poucas vezes em que o fez, ou nas poucas vezes em que o fez visivelmente, como num livro muito importante chamado «Encontros», a tímida informação que revelou sobre si próprio disse tudo sobre ele. Também não tenho muito interesse nem me sinto à vontade em revelar-me. Não gosto de me colocar em bicos de pés sobre aquilo que escrevo. Nem podia, mesmo que quisesse. Convém lembrar que o «Montanário» é só o meu primeiro livro e, para mim, o autor conta sempre muito pouco na hora de avaliar a obra. Não é apropriado que me seja atribuída a designação de escritor. Acho até bastante injusto para com os escritores a quem se reconhece uma obra e um curriculum literário. Numa entrevista que deu ao Manuel do Nascimento, e que integra o livro que referi há pouco, o José Gomes Ferreira disse que era escritor nos intervalos da vida. O Jorge de Sena, por sua vez, dizia-se um escritor de domingo. Eu, no máximo, sou um «escrevinhador», porque desembainho os dedos ou a caneta para garatujar qualquer coisa nos intervalos das coisas sérias, aos domingos a meio da vida. Faço-o sempre como uma reação benigna aos livros que leio. Aliás, à exceção do local onde nasci, dos amigos que me acontecem e dos livros que leio o eu, aqui, é o que menos interessa. No «Montanário» há uma entrada com uma nota biográfica sobre mim. Lembro-me de a ter escrito, à noite, com a intenção de me resumir em coisas significativas, como se fosse uma anotação dos cadernos de apontamentos ou das sebentas relativas às grandes obras literárias a que os alunos mais baldas recorrem no dia anterior ao teste. Há tempos, escrevi um poema que começa assim: «deixem-no estar, deixem-no ser / o que é, o que não é e o seu contrário», por isso me é tão difícil responder à questão. Os leitores têm muito mais legitimidade e autoridade para o fazer do que eu.

JM – O que o leitor pode esperar de si e desta obra?
ED – Não sei se se pode falar de expetativas e de obra. Estamos na presença de um primeiro livro, e, hoje, até os livros, enquanto objeto físico, tangível, que há uns anos eram um reservatório duradouro de uma obra que resultava da construção de qualquer coisa bela, são cada vez mais efémeros. O prazo de validade está progressivamente posto em causa. Basta ver os escaparates das livrarias: mudam todas as semanas, transformam o novo em velho em questão de dias. Por outro lado, há, também, cada vez maior facilidade em publicar. Hoje em dia, o mercado oferece uma série de prestadores de serviços que garantem a publicação, desde que alguém, normalmente, o autor, lha pague. Nessa medida, no geral, a questão das expetativas deve ser gerida com um grau cada vez maior de exigência e parcimónia. Se tivesse de pagar para publicar, não o faria. No entanto, em tudo o que faço, e não me refiro apenas à escrita, há um compromisso, um vínculo inabalável às origens, à minha serra e aos silêncios que ela possibilita. Como obra-prima da Natureza que é, esta serra tem uma narrativa tão perfeita, que é fácil deixarmo-nos entregar a ela. O «Montanário» começou por ser um diário onde ia registando em notas sucessivas, em prosa e em verso, desinteressadamente, o andamento dos meus dias. Nunca o fiz com a pretensão de um dia ver publicado. À semelhança dos «Ensaios» do Montaigne, que foram escritos ao arrepio da pergunta «Que sei eu?», utilizo as minhas notas para pôr em cursivo tudo o que possa estar relacionado com questões que formulo constantemente a mim próprio: «Quem sou eu?» «O que é que ando a fazer com a minha vida?». Entretanto, o tempo vai andando e, entre 2009 e 2017, já escrevi mais de mil e tal notas, que, se tivessem sido escritas ininterruptamente, todos os dias, sem dias vazios, corresponderiam a mais de três anos de reflexões consecutivas. Curiosamente, apesar de procurar as respostas até ao limite das forças, mesmo assim, não consigo responder a essas perguntas. Sei que nunca vou conseguir respostas definitivas, mas destas questões iniciáticas talvez possam advir outras perguntas, mais acertadas, mais pertinentes: aquelas que me ajudarão a falhar melhor, como diria o Beckett. Mas para que os leitores não pensem que o «Montanário» é um livro sobre mim, devo esclarecer que se trata de um livro composto de notas de geografia afetiva sobre Monchique. Tem alguns poemas pelo meio e umas pequenas histórias que a realidade física, semântica e mundividências do lugar acabaram por inventar. Já lhe aconteceu ter gostado tanto de um livro que sentiu vontade de morar dentro dele? Comigo isso passou-se n’«As Cidades Invisíveis», do Calvino, ou nos livros em que o Faulkner centra o enredo em Yoknapatawpha. O «Montanário» é o contrário disso, é um livro que resulta de uma afeição tão grande à fantasia real de Monchique e às pessoas que lá vivem, que os fui devaneando, imaginando e recriando sem freio, ao ponto de os deixar deformar completamente pela minha devoção, desejoso que estava de transformá-los numa ficção aberta. O objetivo foi dar provimento ao que disse Tolstoi: «se quiseres ser universal, começa por pintar a tua aldeia». Porém, e já que falamos de expetativas, espero, pois, que os leitores que não são de Monchique, ou que nunca cá vieram, possam ler este livro e reconhecer-se, em terreno disponível e universal, como nos livros de aventuras ou como nos horizontes que se podem ler da Fóia e da Picota em dias de céu limpo. A ideia deste livro não é circunscrever Monchique, mas inscrever Monchique; tornar esta minha Yoknapatawpha acessível ao sonho, criando uma partilha de descobertas, de afetos, de experiências e de sensações que viajam pela geografia, pelos sentidos e pela imaginação, de modo a que os panoramas deste lugar que é o somatório de muitos lugares possam compaginar-se com quantos lugares caibam no mundo. Em todo o caso, mesmo que não seja assim, o livro seguirá o seu caminho, inevitavelmente. Agora, já não posso fazer muitas coisas por ele.

JM – A sinopse do livro refere o escritor Manuel do Nascimento. Que importância tem na sua escrita?
ED – Como disse há pouco, a escrita é sempre resultado e resposta dos livros que lemos. Naquilo que escrevemos, estão todos os livros que nos espantam para sempre. Desde os Gregos que é assim. Por isso, Manuel do Nascimento é uma figura indelével em tudo o que de terroso e sincero possa existir nos passos dos meus versos ou das minhas frases. Mas também o são António Manuel Venda ou António Silva Carriço. Eu pretendo apenas dar uma achega, uma ténue pincelada instantânea ao quadro eterno que estes três conterrâneos criaram. Felizmente, em boa hora a Junta de Freguesia de Monchique e os herdeiros do autor resgataram a obra de Manuel do Nascimento à ruína do esquecimento. Agora, o que é preciso é dar-lhe continuidade e estudá-la como tem sido feito nas escolas de Monchique e, quem sabe, alargar esse estudo a outras escolas do Algarve. O mesmo deve ser feito relativamente aos dois outros escritores de que falei. Uma terra que esquece ou hostiliza os seus artistas tem a alma baça.

JM – Tem outros escritores como referência?
ED – Todos os bons autores são uma referência, porque são eles que balizam o nosso caminho. São eles que tornam a nossa humanidade acessível aos outros seres humanos. Nenhum artista parte do zero. Hoje, em arte, tudo o que é recente amplifica o velho. Agora, os meus escritores de referência são o André Malraux e o Erling Kagge, porque são os autores dos livros que estou a ler neste momento. Daqui a umas semanas, provavelmente, serão o Steinbeck e o Sandro William Junqueira, porque são os autores dos livros que se seguem. No «Montanário» faço alusão a outros escritores importantes no meu percurso de leitor. Mas não posso deixar de referir um livro e um autor que me têm acompanhado desde sempre e que muito contribuiu para a estrutura conceptual deste livro: os «Ensaios» de Montaigne. De resto, sou sensível aos acenos de várias formas de arte como a pintura ou a música. Foi, por exemplo, a partir de um quadro do Van Gogh que eu vivi a epifania para o momento de coligir os textos que viriam a resultar neste livro. Há também uma pintura do Schiele que me lembra as casas velhas de Monchique. Faço referência a esse trabalho mais do que uma vez no Montanário.

JM – O livro chama-se «Montanário». Porquê?
ED – A resposta a essa pergunta vem no livro, logo na primeira entrada. Mas, muito simplesmente, posso dizer que resulta de um exercício com o qual me divirto muito, que é a fusão de várias palavras numa só. Abacaxi e coco, dá origem a «abacoco»; colher mais garfo dá origem a «colharfo»; diário e montanha deu origem ao «Montanário», porque «diatanha» soava mal (fazia-me lembrar «de antanho», e este não é um livro saudosista. Nas muitas histórias que o livro contém, a montanha assume o papel de protagonista principal. As paisagens de que falo devem ser entendidas como pessoas, surgindo, simultaneamente, mitificadas. Nessa medida, a escolha deste título pode também ser interpretada como um bestiário das montanhas, das pedras e das árvores. Há muitas interpretações possíveis… e ainda bem. O António Manuel Venda, que é o editor do livro, tem um entendimento completamente diferente, mas não menos divertido. Cada leitor pode interpretar o título da maneira que bem entender. É isso é ótimo.

JM- Numa frase sua, explica que «Montanário não é só um amontoado de palavras, é uma serra de vocábulos de pedra». Porquê?
ED – Foi numa conversa com o Jorge Sampaio, um grande, grande amigo que escreve extraordinariamente bem, mas não leva a escrita a sério. Lido assim, fora do contexto, parece uma coisa pedante. Numa entrevista que vi, Rui Mário Gonçalves, um importante homem das artes, referindo-se ao movimento Futurista, dizia que, mais do que viver no lugar, era intenção desse grupo de artistas viver a época e na época. No meu caso, e talvez porque sou geógrafo e o espaço ocupa uma dimensão primordial na minha rotina, quando afirmo coisas deste género é na perspetiva de que o livro caminhe no sentido de viver o lugar, de tornar o espaço sensível, sem deixar de reconhecer a importância dialética do tempo. Por exemplo: as pedras de sienito da Serra de Monchique começaram a formar-se, em profundidade, há cerca de 72 milhões de anos. Nesse Período geológico, chamado Cretácico, ainda andavam pelo planeta alguns dinossauros. Foi, depois, a erosão que exumou o sienito e revelou a forma aos penedos. É muito tempo! Retomando a afirmação de que o «Montanário» é uma serra de vocábulos de pedra, é preciso ter noção do que é o tempo à escala geológica, coisa que, decididamente, eu não tive, e da qualidade de resistência que é necessária para que a matéria não sucumba aos elementos e ao esquecimento. Quando as forças telúricas se erguem e dão lugar a um caos de conjunto em que a superfície se apresenta sob a forma de pedras encavalitadas na paisagem à mercê dos elementos, estamos na presença de uma serra. Este é um fenómeno que demora milhares e milhares de anos. Assim, e pela parte que me toca, ficaria muito feliz se alguém com poderes de adivinhação me dissesse que o amontoado de palavras que escrevi iria durar, não tanto como as pedras de 72 milhões de anos nas cristas dos cerros, mas, pelo menos, 72 anos depois de mim. Agrada-me pensar que, durante esse tempo, haveria um leitor que, a cada nova leitura, poderia exumar sempre qualquer coisa de ígneo e de humano que permitisse a empatia e a aproximação ao outro.

JM – Como define a sua escrita?
ED – Quando era criança, passeava muito pela serra com os meus pais. Era aos domingos à tarde. Chamávamos-lhe, alegremente, o “passeio dos tristes”. Nesses dias, detinha-me, muitas vezes, a encher os olhos de um deslumbramento voluptuoso provocado pelos socalcos de pedra que sobem as vertentes da serra numa escadaria interminável em direcção ao céu. Imaginava gigantes que, degrau a degrau, subiam calmamente a montanha para se alimentarem de nuvens ou para aquecerem as mãos ao Sol nos dias claros de Inverno. Gostava de ver o modo como as pedras, enraizadas na Gravidade, se equilibravam em si mesmas e umas nas outras, como peças de Lego. Um dia, o meu pai disse-me que a profissão do meu avô paterno foi a de “mestre veladeiro”, os homens que se ocupavam da construção daqueles valados (“velados”) ou cômoros (“combros”). Com a minha escrita, procuro reconstruir o exemplo deixado pelo meu avô, mesmo sem o ter conhecido, a não ser no olhar inteiriço de uma fotografia a preto e branco que me procurava por onde quer que andasse na casa da minha avó. Faço o possível para que cada palavra, grande ou pequena, tosca ou trabalhada, em prosa ou em verso, seja essencial e cumpra a função de ajudar a construir um terreno fértil onde possa segurar a vida, como as pedras dos cômoros seguram a terra que alimenta a nossa agricultura e a nossa paisagem cultural.

 

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