“Deus não tem religião”

frei ventura
Frei Fernando Ventura

Frente ao televisor, enquanto as imagens e os comentadores se revezavam, a atenção dispersava-se para raciocínios e interrogações sobre o bárbaro ataque a uma igreja normanda, de que resultou o cruel assassinato de um velho padre em pleno exercício religioso.

Em curtos intervalos de tempo tinha um jovem assassinado outros jovens só porque não queria estrangeiros na terra, Munique, onde também ele era estrangeiro e, em Nice, um doido tinha lançado um camião sobre uma multidão que festejava o dia nacional do seu país de nascimento ou de acolhimento. Mortes indiscriminadas, de pessoas anónimas e inocentes. Barbárie pura, sem outro motivo que não seja espalhar o terror ou por doença mental. As coberturas noticiosas repetitivas com certeza que terão um efeito de mimetismo em algumas mentes.

Já o assalto à igreja tinha um fim definido, um intuito evidente de ataque religioso, com ligação clara e direta ao Daesh. Algumas outras ações, porém, não passam de crimes horripilantes sem motivações terroristas, como o assassinato em série, de deficientes, perpetrado no Japão. Umas e outras vão espalhando a insegurança e o medo. Nunca se sabe quando os neurónios do nosso vizinho do lado entram em curto-circuito.

Estava eu nestas cogitações quando, de repente, a imagem de Frei Fernando Ventura captou-me a atenção para a transmissão televisiva, na RTP3. Já tinha tido o privilégio de assistir a uma palestra por este franciscano capuchinho, teólogo, em que sugerira, nunca mais esqueci, uma aritmética “ao contrário” para se salvar o Mundo: “dividir para multiplicar e somar sem subtrair nada a ninguém”, porque se chegou ao estado em que estamos, em Portugal e no Mundo, por “muitos terem multiplicado sem dividirem e somado subtraindo aos outros”.

Agora estava ele aí e eu não podia perder palavra.

Como resposta à questão da jornalista sobre a atitude perante tão hediondo ato, Fernando Ventura afirmou que “só faz sentido falar de perdão” e ilustrou com uma frase que viu junto dos fogos crematórios num antigo campo de concentração nazi que tinha visitado: “Quando o crime é desta magnitude o único caminho é o perdão”. Considerou estarmos “diante do perigo de cairmos na armadilha dos que, por razões geopolíticas, geoestratégicas, querem transformar o terrorismo em conflito religioso.” Explicou o frade que “o terrorismo não tem cor, não tem religião” e falou de manipulação, de sonhos de poder, de sonhos de hegemonia.

A propósito do medo que se está a instalar, contou o franciscano que, numa das suas visitas de caráter solidário, concretamente à Índia, por altura da morte de bin Laden, instalou-se num bairro de lata em cujo telhado começaram a chover pedras, por serem ocidentais, ele e um colega que o acompanhava. Estiveram três dias sem sair. Ao quarto dia aventurou-se, o Ventura, pela viela onde encontrou um jovem sentado numa cama sem colchão. Saudou-o na língua local a que o outro correspondeu. Portugal, disse ele, e o indiano, respondeu Ronaldo, convidando-o a sentar-se.

Ficaram a conversar largos minutos, cada um na sua língua, não fazendo ideia do que o outro dizia. E concluiu: “perdemos o medo um do outro”.

Acha o comentador televisivo de ocasião que “é tempo de nos sentarmos na borda da cama do outro, para que as pedras deixem de voar.” E acrescentou, mais à frente, que “o que está em causa é a imposição da lei pela lei, da lei cega, da famosa Xaria, que exclui seja quem for que pensa diferente”, que “quando a visão é estreita a este ponto, os riscos são muito grandes”. No entanto, considerou o frade que não há religiões perigosas. Enquanto nós, na cultura judaico-cristã, fomos capazes de “tocar a religião com a razão”, filtrá-la através da razão, “o Islão não passou ainda por aqui”, explicou, “é pecado, é crime, fazer hermenêutica”.

A concluir, Frei Fernando Ventura afirmou que “há gente idiota, pensa que tem uma religião, pensa que em nome de Deus pode matar, mas a estupidez maior é pensar que Deus tem uma religião.

Não tem.”

Seja como for, é preciso estarmos vigilantes e sermos atuantes.