Dedicado ao falar monchiqueiro – «O Monchiqueiro» – GDC edita segundo volume da Coleção DiAmantes da terra

A Associação «O Monchiqueiro» – Grupo de Dinamização Cultural vai editar mais um livro integrado na coleção DiAmantes da Terra. Trata-se de uma obra da autoria de Mário Duarte, popularmente conhecido por Parente da Refóias, que conduz o leitor por uma viagem ao íntimo do falar monchiqueiro. Numa espécie de glossário/dicionário as palavras e as expressões características desta região são apresentadas, exploradas e exemplificadas no contexto onde se aplicam.

Ao longo de 300 páginas do «Glossário Monchiqueiro» que, à primeira vista, parece de consulta, mas que ao folheá-lo desperta a curiosidade sobre os saberes, os costumes e o linguajar da serra de Monchique, Mário Duarte leva o leitor por caminhos de palavras de uma realidade ainda existente e que nos parece tão remota.

Numa breve conversa com o Jornal de Monchique, o autor elucida-nos sobre o que o levou a escrever e a compilar o falar monchiqueiro num livro que é seu e de todos os que curiosamente conhecem, recordam ou querem conhecer o trato tão diferente de outras regiões do Algarve.

Jornal de Monchique – Como surgiu o livro «Glossário Monchiqueiro»?
Mário Duarte – Muito poucas pessoas tinham conhecimento desta minha recolha de termos e expressões caraterísticas da região de Monchique até há cerca de dez anos, altura em que criei a minha primeira página na internet, em forma de blogue, dedicada ao falar monchiqueiro e restantes usos e costumes da nossa região, com o título «O Parente da Refóias», que rapidamente obteve uma audiência significativa. Foi a partir daí que começaram a surgir os incentivos para a publicação dum livro.
Confesso que não me senti confortável com tal ideia e fui protelando a tomada de decisão. Por receio, insegurança e até comodismo, certamente. Mas, há uns meses atrás, acabei por me encher de coragem e, de repente, decidi avançar.

Inicialmente, a minha intenção era fazer uma edição de autor. No entanto, um grande amigo aconselhou-me e fez-me perceber que, existindo em Monchique o Grupo de Dinamização Cultural «O Monchiqueiro», que há três décadas se dedica à cultura na nossa região e muito prezo, seria de todo vantajoso propor-lhe o encargo da edição deste livro. Em boa hora o fiz, pois fui excecionalmente bem recebido e acarinhado e tal proposta foi aceite. E, com o seu excelente trabalho de edição, surgiu o livro.

JM – Porque é que começou esta pesquisa?
MD – Comecei por graça, sem qualquer expetativa de alguma vez vir a publicar um livro, apenas com o intuito de mostrar aos meus descendentes um linguajar que não iria ser seguramente o deles. Recorrendo à minha própria memória como fonte principal, fui anotando por ordem alfabética todos os termos e expressões que aprendera, em especial na minha infância e juventude, e de que me consegui recordar.

Para além disso, a pouco e pouco, fui registando os que eram utilizados por interlocutores meus, geralmente pessoas de origem rural como a minha, nos muitos convívios e conversações em que tive a sorte de participar.

Fi-lo porque me apercebi que, com o desaparecimento das pessoas da minha geração, muito provavelmente a maioria dos termos e expressões que os nossos avós nos haviam transmitido iriam desaparecer, o que me causava e ainda causa uma boa dose de angústia.

JM – Que significado tem, para si, este livro?
MD – Sobre o seu significado direi que, embora consciente das minhas limitações, pessoalmente entendo que com ele dei o meu contributo possível para a preservação daquilo que foi a minha cultura original e, de algum modo, prestei também a homenagem que devia à memória dos que me precederam na vivência dessa mesma cultura e ma transmitiram. Por outro lado, é obviamente muito gratificante o facto de com este livro concretizar o velho rifão: uma árvore, um filho/a, um livro.

JM – Porquê o título «Glossário Monchiqueiro»?
MD – Bem, por vezes, há quem chame a isto um dicionário. Mas, francamente, não tive coragem de lhe atribuir esse nome porque para mim um dicionário é uma bíblia e seria pretensiosismo a mais da minha parte chamar-lhe tal. Assim, utilizei o termo glossário que, em boa verdade, tem o mesmo significado mas, habitualmente, é usado num sentido mais restritivo.

E é monchiqueiro porque se relaciona e tenta retratar a região de Monchique dos tempos em que esse termo era utilizado com um sentido pejorativo por alguns dos nossos vizinhos de concelhos limítrofes.

JM – Como define o «falar monchiqueiro»? É muito diferente do «falar algarvio» ou até do «falar alentejano»?
MD – O falar monchiqueiro, como qualquer outra linguagem oral, é uma forma de expressão forjada numa determinada realidade e a ela adaptada. Somos algarvios vizinhos do Baixo Alentejo. Como tal, não podemos deixar de ser influenciados uns pelos outros e os nossos falares têm muito em comum. No entanto, há também muitas coisas que nos distinguem. E não é só uma questão de sotaque, é acima de tudo uma questão de postura e utilização de palavras e expressões exclusivas.

O nosso falar surgiu e desenvolveu-se na ruralidade dos seus intervenientes e autonomizou-se no isolamento duma região serrenha cuja geografia e falta de vias de comunicação o moldaram duma forma muito peculiar. Diria mesmo, exclusiva.

Por isso, entendo que não é totalmente acertado dizer-se que há um falar algarvio. Haverá, sim, vários falares algarvios correspondentes a diversas zonas do Algarve. Estou a lembrar-me, por exemplo, do falar de Alvor, aqui bem próximo de nós, que todos conhecemos.

JM – Na introdução do livro afirma que o seu trabalho «está incompleto»…
MD – A incompletude é uma condição intrínseca do ser humano. Tudo o que fazemos é apenas uma parte do todo. De facto, tenciono continuar a recolher termos que eventualmente não tenham sido referidos nesta primeira edição do Glossário Monchiqueiro e a retificar e melhorar o que porventura entenda que deva ser alterado. É só o que posso dizer.

JM – Como se escreve monchiqueiro falado?
MD – É muito simples. Pronunciam-se as palavras e atribuem-se letras aos sons. Mas há que estar preparado para enfrentar a intolerância típica de muitos puristas da língua portuguesa…

Falando mais a sério, nem sempre é assim tão linear. Por vezes, tenho dúvidas e, nesse caso, procuro associar o termo a uma palavra de português vernáculo com que se relacione e apresenta-lo graficamente em conformidade. Caso isso não seja possível, entrego-me à intuição.

JM – O que é ser monchiqueiro?
MD – Ser monchiqueiro é ser natural da região de Monchique pelo coração. É acima de tudo um estado de espírito e uma atitude de amor e respeito, ao mais ínfimo pormenor, por toda esta região, pelas suas gentes e pela sua identidade. E orgulhar-se disso, sem preconceitos ou outras limitações de qualquer natureza.

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