Contributos da serra de Monchique para as aventuras marítimas

Desde tempos remotos que os nossos antepassados reconheceram e utilizaram os elementos da Natureza em seu benefício, tais como a madeira, a pedra e, posteriormente, os minérios/metais. Um pouco por todo o concelho de Monchique, que engloba a serra homónima, subsistem vestígios patrimoniais mais ou menos visíveis que testemunham a ocupação deste território ao longo dos séculos, por diversos povos e em distintos momentos civilizacionais. A serra de Monchique é a mais alta do Algarve e do Baixo Alentejo (e a segunda mais elevada a sul do rio Tejo), dispõe de uma localização admirável – próxima do mar e parte integrante de uma linha de fronteira natural entre as planícies alentejanas e o extravagante “paraíso” algarvio – e possui uma ampla variedade de recursos naturais. Destaca-se a sua diversidade vegetacional, que inclui algumas espécies invulgares nesta região de charneira entre o Mediterrâneo e o Atlântico, por exemplo o castanheiro, o rododendro e o (atualmente raro) carvalho-de-monchique. Esta exuberante serra – considerada o “oásis do Algarve” por Júlio Lourenço Pinto – é, sem dúvida, uma referência incontornável na paisagem do sul de Portugal continental, mas também o foi para as populações que habitaram o extremo sudoeste da Península Ibérica, assim como para aqueles que se aventuraram pelas águas que rodeiam o emblemático cabo de São Vicente. A título de exemplo evidencia-se a lenda da construção do notável monumento religioso sobranceiro à vila de Monchique – fundado em 1631 por D. Pe(d)ro da Silva e dedicado a Nossa Senhora do Desterro –, segundo a qual esse feito deveu-se ao cumprimento de uma promessa, realizada em alto-mar por dois navegantes que se encontravam em perigo, de se edificar uma igreja no primeiro local em território português que avistassem do mar. Com efeito, esta lenda realça a importância deste acidente geográfico que é a serra de Monchique, enquanto ponto de referência para os navegadores.

Durante a época medieval a região do Algarve, Lisboa e o Porto, foram os principais centros de dinamismo portuário do então reino de Portugal. No que respeita ao barlavento algarvio salienta-se que de Lagos partiram muitas naus e caravelas que contribuíram para a epopeia dos descobrimentos portugueses – o próprio Gil Eanes, responsável por transpor o cabo Bojador em 1434, era natural dessa cidade –, várias delas construídas, reparadas ou apetrechadas, com materiais provenientes da serra de Monchique. De facto, até meados do século XX o atual território concelhio de Monchique forneceu matérias-primas para muitos dos estaleiros navais outrora existentes no litoral algarvio, especialmente madeiras de carvalho e de castanheiro para a construção/reparação naval, mas também linho, ceras e resinas naturais, assim como outros produtos destinados a serem levados a bordo durante as viagens marítimas. Efetivamente, a madeira de carvalho é fundamental para o cavername das embarcações, o pinheiro manso é importante para o tabuado de construção naval (por ser resinoso) e o castanheiro para a produção dos mastros. Como exemplo salienta-se que para a construção de cada nau seriam necessários cerca de três mil a quatro mil carvalhos e, durante o período das explorações marítimas portuguesas – entre 1415 e meados do século seguinte –, construíram-se mais de mil e quinhentas naus, portanto em pouco mais de cem anos foram cortados milhões de carvalhos (e de outras árvores) em Portugal. Assim sendo, a paisagem do território nacional seria consideravelmente diferente antes da era dos descobrimentos. Provavelmente devido à excessiva exploração das florestas autóctones em prol da construção naval – e séculos depois com a construção de ferrovias assentes em travessas de madeira – é que algumas espécies exóticas (curiosamente trazidas de paragens longínquas em navios portugueses) proliferaram no nosso país e, na atualidade, são consideradas invasoras.

Séculos antes do início da expansão ultramarina portuguesa, ainda durante a ocupação islâmica da atual região do Algarve, foram construídas muitas embarcações nos estaleiros navais da então Silves muçulmana, cuja área de influência incluía a serra de Monchique, ou seja, antes da reconquista cristã este território serrano também terá fornecido matérias-primas para a construção naval. O ilustre geógrafo árabe al-Idrīsī menciona a serra de Monchique no seu livro “Geografia” (datado do século XII) e refere, entre outras coisas, a exportação da madeira de castanho para os estaleiros da indústria naval tunisina. Portanto, já em época islâmica esta deslumbrante serra – a “Montanha Sagrada” – era importante devido à abundância e à qualidade da sua madeira.

Considerando que o litoral sul do Algarve, grosso modo até Sagres, é uma continuidade do Mediterrâneo (em termos estruturais e culturais, mas também ao nível da costa e da navegabilidade), no passado muitas naves provenientes do outrora denominado Mare Nostrum tinham de atracar/fundear nos portos ou nas enseadas que antecediam o “Promontório Sagrado” – o limite ocidental do mundo para os antigos gregos e romanos, referente ao atual cabo de S. Vicente ou à ponta de Sagres, a partir do qual a navegação se tornava especialmente arriscada. Do ponto de vista náutico existem diferenças entre a prática da navegação no Mediterrâneo (mar “sem marés”) e no Atlântico – oceano aberto com marés de amplitude variável. Por esse motivo antigamente os navios paravam quase inevitavelmente nas águas que rodeiam as atuais localidades de Sagres, Lagos, Alvor e Portimão, entre outras, mas também em abrigos náuticos como a Boca do Rio, Salema, Burgau, Almádena, Carvoeiro, etc. Aí aguardavam por condições favoráveis de vento e/ou de mar para depois seguirem viagem à vela em mar aberto, o que demonstra a importância do extremo sudoeste do velho continente como ponto marítimo, não só devido aos vários portos, enseadas e estuários existentes (ao contrário da costa atlântica), mas também devido à serra, isto é, à existência de madeira de qualidade para a reparação constante das embarcações. Durante essas paragens, que às vezes podiam durar alguns meses, por exemplo procedia-se à calafetagem dos navios e ao abastecimento de víveres – o que contribuía para o incremento do comércio e consequentemente para o desenvolvimento da região. Assim sendo, embora se verifique a carência de estudos mais aprofundados sobre este tema, pode-se afirmar que a serra de Monchique forneceu a indústria náutica ibero-islâmica, exaltando-se o facto de ter também contribuído para a expansão marítima portuguesa. Porém, atentando ao velho provérbio “não há bela sem senão”, a serra de Monchique (assim como muitas outras áreas do nosso país) foi alvo de uma acentuada redução da sua floresta autóctone em prol do progresso…

 

Bibliografia:
BLOT, M. L. P. (2003) – Os portos na origem dos centros urbanos: contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal. Trabalhos de Arqueologia. 28, IPA, Lisboa;
CAPELA, F. F. G. S. (2014) – Contributos para o conhecimento da Pré-história Recente e da Proto-história da Serra de Monchique. Arandis Editora, Município de Monchique, Albufeira;
GASCON, J. A. G. (1955) – Subsídios para a monografia de Monchique. Edição da viúva do autor, Portimão;
GOMES, R. V. (2002) – Silves (Xelb), uma cidade do Gharb Al-Andalus: território e cultura. Trabalhos de Arqueologia. 23, IPA, Lisboa;
MARTÍNEZ ENAMORADO, V.; CAPELA, F. (2016) – Sobre Monchique, Monteagudo y Alferce. El poblamiento de Munt Šāqir (Serra de Monchique) en época andalusí (siglos VIII-XIII). Alhadra – Revista de la Cultura Andalusí. 2, Fundación Ibn Tufayl de Estudios Árabes, Almería, pp. 45-82;
MATOS, J. (2001) – A Serra de Monchique e o Reino de Silves. Messianismo e teocracia no Algarve islâmico. Um percurso histórico. Um património a valorizar. Actas I Jornadas de Monchique (29 e 30 de Abril de 2000). Comissão Instaladora do Museu de Monchique, Junta de Freguesia de Monchique, Monchique, pp. 69-96;
PAIVA, J. (2004) – A importância da Flora em Monchique. Com raiz no passado: construir o futuro. Actas II Jornadas de Monchique (5 e 6 de Outubro de 2001). Comissão Instaladora do Museu de Monchique, Junta de Freguesia de Monchique, Monchique, pp. 53-70;
PINTO, J. L. (1894) – O Algarve: notas impressionistas. Livraria Portuense, Porto;
TORRES, C. (2004) – O Barlavento Algarvio em Época Islâmica. Com raiz no passado: construir o futuro. Actas II Jornadas de Monchique (5 e 6 de Outubro de 2001). Comissão Instaladora do Museu de Monchique, Junta de Freguesia de Monchique, Monchique, pp. 113-126.
Suporte informático:
PAIVA, J. (2006) – Os incendios e a desertificação do Portugal florestal. In Público:
https://www.publico.pt/2006/01/23/jornal/os-incendios-e-a-desertificacao-do-portugal-florestal-59818

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *