Contrato

A cidade ganhava vida, as pessoas movimentavam-se apressadamente, ora à superfície, ora na penumbra dos túneis.

Por momentos o céu enegreceu e soltaram-se das alamedas tufos de árvores, um estalido de vidros rompeu tudo em redor, num raio demasiado alargado para abarcar com o olhar. Tudo se dissolvia no ar como algodão doce na boca das crianças.

A assembleia reúne os ilustres, de roupas hirtas e um traço sólido à frente, a meio do peito, dividindo esquematicamente a árvore circulatória. Se por algum motivo despem a couraça negra ou azul os homens da assembleia preparam-se para trabalhar, antes mesmo da detonação. Depois o ar para, o papel nas secretárias torna-se excessivamente liso, nenhum telefone toca. Coisa bizarra, exercida sob o domínio pleno da luz. Alguns retomam, de olhos presos a retângulos luminosos, o trabalho, parecendo querer mergulhar dentro deles momentaneamente, buscando uma espécie de salvação. Mas o retomar da rotina demora poucos segundos, logo seguido da deflagração.

Naquele dia conheci um desses homens, estando de passagem nessa rua, tinha acabado de acontecer o grande acidente, montões de ferros retorcidos, corpos queimados, roupa rasgada, um cheiro nauseabundo. No meio desse cenário, o homem, um funcionário calvo, cara empoeirada, tinha ainda fuligem nos pulsos, alguns laivos de sangue na camisa, a mala negra de fechos cromados numa das mãos, obliterada, a mala. O que mais me impressionou não foi a desoladora desconstrução do local, mas a inverosímil imagem de um homem preso a uma mala semidesfeita. Acabara de firmar um contrato. Fiquei atónito.

De seguida o homem desceu ao longo da avenida, entre paredes de chumbo, as linhas reluzentes no chão faiscavam intermitentes. Acompanhei-o durante alguns instantes do percurso até que caiu inanimado, espalhando cinzas no passeio. Sem nunca largar a mala, onde obliterado, permanecia o contrato de uma vida