Concretizar ideias

A constatação da necessidade da preservação dos saberfazer tradicionais faz já parte, felizmente, dos conceitos de desenvolvimento mais atualizados e intervenientes nas sociedades contemporâneas. Um povo sem raízes, sem referências ao percurso histórico que o suporta, não tem capacidade de definir o seu rumo futuro e se renegar o que tornou importante enquanto pessoa coletiva, torna-se pobre e mesquinho, necessariamente.

Cabe nesta reflexão a formação de opinião sobre a iniciativa agora em fase de divulgação e apelo à participação para formar algumas pessoas que possam dar continuidade à sapataria tradicional de Monchique e consequentemente à sua evolução.

O que se pretende é que se preservem os conhecimentos mas que eles não fiquem capsulados num hermetismo anticultural. É preciso tornar esse mister autossustentável, dinamizador, capaz de garantir uma identidade proativa e enriquecedora, quer de bens materiais quer de património imaterial.

Nada é perfeito e talvez que os nossos conceitos de empreendedorismo não se afinem completamente pelas bitolas de outras culturas. No entanto, as oportunidades só o são quando se materializam ou ficaremos eternamente a carpir as mágoas com pena de nós mesmos agarrados à ideia que ninguém faz nada e que o sucesso cai do céu aos trambolhões.

O desafio para a exploração desta via de aprendizagem e futura aplicação dos conhecimentos, apoiada num esclarecimento bem fundamentado, é muito interessante.

É muito natural que se defenda uma política muito mais caseira de apoios mas a realidade também nos dá conta de muitos insucessos. Talvez seja o tempo certo para percebermos que há outros conceitos ou então que essa constatação nos dê a coragem para de uma vez por todas ultrapassarmos a nossa incapacidade coletiva de desenvolver as boas ideias que também somos capazes de ter e concretizá-las.
Somos tão bons como o resto da humanidade.