Comédia Divina

Hoje fui acusada de “ter posto fogo a uma casa, de ter tido sexo com um desconhecido, de ter roubado um computador e não menos importante, ter roubado as doze garrafas de vinho da adega”. Tinto. Para que fique registado. Fui ainda acusada de ser “perigosa para o ambiente”. Dei-me como culpada de todas as acusações, informei que ia cumprir a pena, agradeci, virei as costas e deixei o tribunal respondendo-lhe “i love you”. Como resposta recebi ”Eu também não! Qual foi a parte que não percebeste que me tentaste matar?” A acusação aconteceu na ala de um hospital (do Serviço Nacional de Saúde Britânico) especialmente concebida para pessoas com delírios que conduzem à doença de Alzheimer ou já com diagnóstico. A acusação partia de uma linda senhora de quase oitenta anos, totalmente dependente, a quem tentei ajeitar as almofadas da cama quando passava por ela.

A doença que rouba o bem mais precioso que a vida nos dá, para além de qualquer garrafa de vinho premiado oferecido no Natal: a memória. Neste trabalho que me coube ter junto de pacientes com este diagnóstico, na divina comédia que é a vida, vejo esta epidemia bater as esporas no flanco e galopar livre, fazendo-me ter um carinho ainda mais especial por algo que até agora descurei. Alguém com uma vida mais ou menos intensa, amores e desamores, perdas e alegrias, dores e felicidades vive em frente ao abismo do processo progressivo e abusivo que é o roubo sem clemência da sua alma: a memória. Esta é a epidemia que corre livre por aí, insidiosamente a fazer vítimas, rindo-se de todos nós. É a peste mais negra que nos oferece esta comédia pouco divina em que vivemos. Naturalmente que os estudos são parcos, sabe-se relativamente pouco, cuida-se menos ainda de quem cuida, os Serviços Nacionais de Saúde (que não sendo bancos não são salvos, nem são prioridade) não estão preparados, não há tratamentos, menos ainda dinheiro para dar (sim, dar! porque quem cuida deixa de ter vida própria) a quem cuida de pacientes com este diagnóstico. Sem a memória – biblioteca, reservatório de lembranças e de laços construídos ao longo de vivências, ou centro nervoso de tudo o que somos e de quem somos, do que guardamos dos outros bem como do que os outros de nós guardarão – somos apenas zombies, pedaços de carne a cobrir uns ossos a clamar pedaços de frases sem sentido. E garanto-vos meus amigos, não estamos preparados, para o que neste momento apenas alguns médicos, enfermeiros e cuidadores conhecem (e alguns mal). Nunca perca de vista que são as ligações neuronais que se quebram – como se de uma rocha batida violentamente pelo mar – provocando a erosão da memória. Ficamos apenas com sentimentos e emoções, não sabemos quem são os que nos rodeiam, daí muitos doentes pensarem que são o “inimigo”. Dada a queda abrupta de ligações entre neurónios, os familiares – memória fundamental – passam a desconhecidos. Desoladora é a palavra para quem fica vivo, sem referências. Para os cuidadores resta a inestimável paciência, amor e compreensão para além da desolação que é assistir ao declínio em vida de quem se ama. Aplico a frase de Cristo- não sendo religiosa – “perdoai-lhes pai porque não sabem o que fazem”. Cuidadores, não descurem o cuidado que devem ter para convosco.

Todos os dias me preparo para a morte e, hoje vejo melhor os traços do seu rosto, a sensibilidade nas linhas que deixa, quando passa devagar, nas leves carícias com que aquece o ar. Vai-me dizendo que ela não é importante. Relevante é a memória que deixamos. E aqueles que nos amam, fazem-nos viver para sempre, guardados que ficamos nas suas recordações. Se não forem apanhadas nesta epidemia sem sinal de reversibilidade. Hoje tenho consciência. A memória é o maior bem que tenho. Nela guardo quem sou e o que me vem dos outros, que comigo construíram laços. Se a perder, sou pó, cinza e nada. Nesta comédia sem traços de divina, não há nenhum outro resto que mais me interesse.

 

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