Com que letras o Sr. Pessoa urdiu um colossal desassossego poético

Chama-se “ABC de Fernando Pessoa, Citações em verso e prosa”, Livros d’Hoje/Publicações Dom Quixote, 2015, e o seu miolo reside num tratamento de citações retiradas das obras de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos. Temos aqui uma ocasião propícia para vaguear por citações em verso e prosa desse senhor que usava chapéu mole em feltro, usava óculos redondos que pareciam encobrir um perscrutante olhar, ataviava-se por um sobretudo e tinha passo ligeiro; ganhava a vida como correspondente estrangeiro em casas comerciais, não obstante vivia permanentemente encalacrado. Quando fechou os olhos num hospital no cimo do Bairro Alto, deixava obra dispersa em revista e publicações ocasionais, mas ganhara uma relativa notoriedade pelos seus poemas em Inglês e o livro “Mensagem”. Como em muitas outras coisas, a sua ideologia política não era muito clara, mas assumiu que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial. Era um polemista corajoso, veio à estacada defender poetas que eram achincalhados pelos ultranacionalistas em emergência, pôs-se ao lado de Sidónio Pais, não escondeu as suas desconfianças sobre a Ditadura Nacional. Foi também brumoso na sua posição religiosa: cristão gnóstico, não escondia as suas simpatias pelo ocultismo de vários matizes. E há que se ter em conta a sua posição patriótica: nacionalista mítico, crente num sebastianismo novo, e daí o seu lema: “Tudo pela humanidade; nada contra a Nação”.

E agora entremos no caldeiro das letras. Amar é cansar-se de estar só: é uma cobardia, portanto, e uma traição a nós próprios. Amar é entregar-se. O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. O amor é o misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada, tudo sintetizado neta cabalística quadra:

Amo como o amor ama.

Não sei a razão pra amar-te mais que amar-te.

Que queres que te diga mais que te amo,

Se o que eu quero dizer-te é que te amo?

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Nesta viagem galáctica ao planeta pessoano, na letra B o fascínio vai todo para buscar: Busco – não encontro. Quero, e não posso. Tudo quanto buscamos, buscamo-lo por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobre, ou julgamos que a atingimos, e somos loucos ricos. É letra a letra que vemos a tessitura da criação onde tudo é possível explorar por antónimos, aparentes contradições e discordâncias, tudo em sínteses lapidares, por vezes há algo de máxima religiosa, de frase em que o sopro poético é posto ao serviço da advertência ética ou axiológica, caso de continuar: continuar é mais propriamente difícil do que iniciar.

O poeta não esconde o que há de aprazível em dar pontapés e sair pepita, muitas vezes de ouro, é o caso de decifrar: Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas. Paro, decifro e passo adiante, o mesmo ele dirá dos estados de dúvida, qual Descartes: duvido, portanto penso. O Pessoa enigma não se desnuda mas identifica-se: sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. O seu tom confessional é indesmentível: O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir – não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas do Sul. Quero sentir o sono chegar como vida e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade não me pode dar. O que foi saindo do baú ao longo destas décadas, continua a manter a sua carga misteriosa, como magneto vamos sendo atraídos pela coerência dos heterónimos e como é perfeitamente impossível juntar as partes para encontrar um todo, como pessoa escreveu: as coisas não valem se não na interpretação delas. Interpretar é não saber explicar. Explicar é não ter compreendido.

É melhor ficar na letra L, talvez assim se ganhe entusiasmo para devorar este ABC de Fernando Pessoa, a propósito de ler: Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apresentações quem, com a facilidade da vida, entra em conversa com eles. Ler é sonhar pela mão de outrem.

É bem possível que um abecedário como este testemunhe o génio e permita visualizar melhor o homem que houve por trás do mito. Diga-se o que se disser, uma abordagem do seu abecedário pode ser uma estimulante aventura para um dos mais colossais desassossegos poéticos que nos reservou o século XX, com dimensão universal.

Autor: Beja Santos

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