As questões de fundo da perda de autoestima das sociedades ocidentais

É um livro altamente polémico, recheado de fortíssimas críticas e jeremiadas, impossível deixar o leitor tranquilo, exige-lhe que tome partido. O escritor, jornalista e comentador político Alexandre Del Valle assume posições perentórias e frontais em O Complexo Ocidental, Casa das Letras, 2020, sobre o que ele considera o vírus do ódio de si coletivo. O “politicamente correto”, que vive do arrependimento, do antirracismo de sentido único, e da atribuição de poderes e direitos exorbitantes a grupos dentro das coletividades, constitui, diz ele, uma ameaça existencial à nossa sociedade, há que arrepiar caminho, e faz algumas propostas, se bem que vagas e genéricas.

Começa por passar em revista o que ele chama a depressão coletiva europeia e a sua crise de consciência, identifica pontos do terrorismo intelectual em que vivemos, pretende desmontar os mitos fundadores do politicamente correto, procede a um enquadramento do estado da desculpabilização europeia, aparece reativo a relembrar os valores da cultura euro-ocidental e anuncia que está na hora de renunciar ao espírito da Guerra Fria. Abre as hostilidades, dizendo que a pior ameaça para as sociedades ocidentais reside na síndrome da culpabilização generalizada. Não é só culpa, são os complexos. “Os países ocidentais só poderão enfrentar os desafios cruciais do novo mundo multipolar e da globalização se tratarem a sua depressão e seguirem uma terapia global de desculpabilização, chave da autoestima e do respeito pelo Outro”. A solução é uma terapia de rearmamento moral, e para que esta tenha lugar, há que nos entendermos sobre o que é o Ocidente, a sua civilização, a sua identidade. Se existe uma depressão coletiva, se estão a ascender alguns movimentos populistas, se cresce a islamofobia, se vivemos num estado geral de culpa, é porque estamos a ceder perante fanatismos e diferentes formas de totalitarismo. Confesso que acho este investigador com boa bagagem cultural, mas muito pouco sincero na sua arenga política. Lendo atentamente o seu discurso, os grandes vícios são obras praticadas com mentalidade de esquerda, cada medida tomada ele critica que tem sempre um homem de esquerda por detrás, a direita aparece sempre isenta de culpa e casos há em que pratica a desonestidade intelectual. Veja-se o que ele descreve do atentado islamita perpetrado a 11 de março de 2004, em Madrid. José María Aznar, após o atentado na estação de caminhos-de-ferro de Atocha, acusou os atentados à ETA, e Del Valle observa: “O povo espanhol, traumatizado e convencido da conformidade das reivindicações islamitas fundadas na condenação da presença militar espanhola ao lado das forças anglo-americanas do Iraque, decidiu, subitamente, não votar mais à direita, dada como vencedora com grande vantagem nas sondagens, e votou maciçamente a favor da esquerda, que se opunha à presença militar espanhola no Iraque e que deu, de facto, razão aos terroristas salafitas. Na realidade, estes últimos apresentavam este pretexto para legitimar a sua barbárie e testar a reação do povo ‘cristão cruzado’ outrora joia colonial do califado. Assim, em vez de se juntarem em bloco atrás dos seus dirigentes face ao inimigo comum, os espanhóis deram razão aos agressores da Al-Qaeda, que reivindicavam, contudo, abertamente a reconquista islâmica da Espanha”. Cita-se longamente o texto do autor para se perceber claramente o embuste. Aznar foi um oportunista, colou a ETA aos atentados de Atocha, horas depois da tragédia, pediu mesmo ao presidente George Bush que fizesse uma declaração em igual sentido, eram pressões para motivar o eleitorado espanhol a votar na direita e condenar a esquerda que propunha negociações com a ETA para alcançar a paz. As redes sociais funcionaram em pleno, a mentira eleitoral foi desmontada e Aznar perdeu as eleições por ter mentido, é demencial argumentar aqui com a questão de Al-Qaeda em primeiro plano.

Há pontos em que temos que reconhecer que Alexandre del Valle tem total razão quando aborda a questão islâmica, vai ao passado, às Cruzadas, e desmonta a chamada culpa judaico-cristã contra a civilização ocidental. Há uma postura acusatória que os cristãos praticaram a barbárie com os muçulmanos, do mesmo modo como se instrumentaliza e banaliza o genocídio nazi, o chamado Holocausto, isto sem esquecer que importantes dirigentes do mundo árabe, da Turquia à Tunísia, do Egito à Arábia Saudita, nunca negaram o seu fascínio pela doutrina de Hitler. E quanto ao relacionamento entre o Ocidente e o mundo árabe não só funciona o mito como uma acusação à culpa judaico-cristã, que é uma mentira histórica. O autor trata primorosamente, e com indesmentível rigor, um apanhado de mitos, que a Idade Média foi um período de obscurantismo total, de que o Ocidente cristão foi uma civilização esclavagista por excelência, de que houve uma idade de ouro da Espanha muçulmana no “al-Andaluz”, que há uma tremenda dívida ocidental para com a ciência árabe. Pelo caminho, também incorre em inverdades quando procura branquear o papel da Inquisição, pelo que ele escreve que só teria havido Inquisição espanhola.

Lançando o seu olhar sobre o tempo presente, deixa-nos uma observação prudente sobre os mitos da financeirização, empolga-se a falar de emigrantes e imigrantes, faz-nos uma proposta geopolítica da desculpabilização, expõe adequadamente o que é a reconciliação e arrependimento e faz bem em recordar aos mais distraídos que somos provenientes de uma herança greco-romana, tivemos berço num pensamento judaico-cristão que abriu caminho ao humanismo, ao personalismo e ao universalismo, não há que desdenhar dos valores morais do Ocidente cristão que têm vindo a ser remodelados por uma nova etapa de direitos humanos e por uma ética de responsabilidade, que deve ser reforçada por um patriotismo integrador e pela coragem em prosseguir todo o itinerário de toda essa cultura euro-ocidental. E assim chegamos ao momento em que Alexandre del Valle se pronuncia a favor de uma proposta de integrar progressivamente a Rússia e o mundo eslavo ortodoxo no seio de um grande grupo pan-ocidental. “A razão pela qual o Ocidente prefere a Turquia, antiga inimiga histórica da Europa, à Rússia, antiga grande aliada da França e também ela inimiga secular do império turco-otomano, está relacionada com o facto de a Europa, desde a sua criação em 1957, nunca ter sido verdadeiramente entendida como um projeto de potência, mas como uma simples testa de ferro do império atlântico anglo-saxão que domina o Ocidente há um século. Desde as suas origens, a União Europeia é assim um peão essencial no tabuleiro económico-estratégico atlantista, cuja vocação é a de travar o avanço russo para Oeste”.

É bem patente que estamos perante uma narrativa cheia de exigências e propiciadora de um extenso debate. E tirando algumas situações bizarras de uma absurda desonestidade, é um documento suportado por muito estudo, não se contesta que é provocador e inspirador.

 

 

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