As antigas Atalaias ou Torres de Vigia e a sua importância na defesa do Reino do Algarve. O Caso de Monchique (I)

As Atalaias na História
A Atalaia (do árabe “at-talai’a”) era uma torre de observação militar ou de vigia, colocada em lugar elevado, visível ou dissimulada, de onde era possível observar o território circundante.

Por vezes as atalaias integravam o sistema defensivo de castelos ou outras fortificações, sendo colocadas em lugares estratégicos na área circundante. Em caso de ameaça, os vigias das atalaias davam avisos ou sinais aos defensores do castelo.

Em Portugal, alguns dos castelos dos fins da Idade Média começaram como meras atalaias. Os castelos de Porto de Mós e de Ourém, por exemplo, eram originalmente atalaias destinadas à protecção do Castelo de Leiria.

Nalguns dos antigos forais competia ao concelho a edificação de atalaias e ao adail pertencia designar os atalaieiros e os escutas.

Mais recentemente, construíram-se estes postos de vigia com torres ou observatórios naturais, fosse no alto das falésias ou noutros pontos mais altos, de onde facilmente se podia vigiar o desembarque de inimigos ou corsários.

Estas torres, para que melhor cumprissem a sua função, podiam ser colocadas de maneira a avistar as torres mais próximas, com as quais, em caso de desembarque de inimigos se trocavam sinais de fumo (de dia) e de fogueiras (de noite). Os sinais também podiam ser feitos com trombetas, sinos, tambores e tiros de arcabuz.

Quando da chegada dos inimigos dava-se o aviso e tocava-se a rebate e o buccinator convocava o povo às armas tocando buzina ou corno e gritando: «Mouros na terra; moradores, às armas!…». De acordo com os forais ninguém podia faltar, sob pena de sanções severas (Damião Peres).

O termo “atalaia” também designava o indivíduo encarregado de vigiar uma determinada área, havendo atalaias de cavalo, atalaias do mar e atalaias do campo.

Os atalaieiros, facheiros ou vigias que adormeciam, se distraíam ou não avisavam do perigo podiam ser considerados traidores, pois a sua irresponsabilidade podia custar a vida a muita gente.

Mais tarde o termo atalaia passou a designar um qualquer lugar mais elevado, morro ou ponto alto de uma serra, de onde se podia vigiar ou observar.

Pelo país as atalaias são hoje recordadas na toponímia e no nome de empresas e instituições: Atalaia (freguesia no concelho do Gavião), Atalaia (Lourinhã), Atalaia (Montijo), Atalaia (freguesia de Pinhel), Atalaia (Vila Nova da Barquinha) Atalaia (Santarém), Atalaia do Campo (freguesia no concelho do Fundão).

Outras designações são as várias torres do Facho existentes no país, como a de Sortelha.

Também existe o culto de Nossa Senhora da Atalaia, solenizado sobretudo em Setúbal.

As Atalaias do Reino do Algarve

É no Algarve que existem, porventura, os mais importantes vestígios de atalaias, também conhecidas por almenaras ou fachos, e que funcionaram plenamente ao longo das Idades Média, Moderna e mesmo Contemporânea.

No entanto, o termo mais frequente, pelo menos pelos séculos XVII-XIX, era o de “Torre”, havendo ainda hoje vários topónimos com este nome, nomeadamente a Quinta da Torre, Torre Alta e Torrinha, em Portimão.

No caso do Algarve, estas torres desempenharam, durante séculos, um importante papel na defesa de toda a costa.

As atalaias mais importantes terão sido edificadas, para a defesa da costa, no reinado de D. João III, sobretudo no litoral algarvio e alentejano.

No entanto, existiam outras mais antigas vindas do tempo de D. Dinis, como era o caso das torres de Marim e Quartim, no concelho de Faro.

Sabe-se que à volta de Faro existiu uma linha defensiva que incluía as torres-atalaias de Bia, Alfanxia, Quelfes, Marim, Quartim, Amoreira e Santo António do Alto, esta última edificada em 1352, no reinado de D. Afonso IV.

Ainda em Faro havia no século XVI o sítio da Atalaia, onde existia uma almargem concelhia.

Estas torres de vigia cercaram e defendiam também povoações como Loulé, Albufeira, Tavira, Lagos, Silves, Portimão e terras atlânticas ou da raia.

A atalaia quinhentista de Torre da Lapa, de que ainda restam vestígios, estava situada sobre uma falésia a Este da desembocadura do Rio Arade, com acesso a Portimão e Silves.

Sobre a Atalaia do Rossio, em Tavira, há uma notícia do século XVI.

A vila de Sagres tinha «duas torres e um sino de rebate», onde de noite se vigiava, como nos dá conta Henrique Fernandes Sarrão, na sua História do Reino do Algarve (1607).

Nesse tempo os ataques da pirataria faziam razias, pois em meados de 1552 houve um ataque de piratas africanos, que tomaram de assalto dois navios ancorados no rio Arade, estando um deles vazio e outro carregado de azeite.

No ano seguinte, numa carta de António de Campos, datada de Portimão, 16 de Março de 1553, dava parte ao rei de que tinha posto na costa do Algarve as vigias que ele ordenara e pedia-lhe que mandasse fortificar os lugares da costa. Para este serviço do rei contribuiu António de Sequeira «com gastos de sua fazenda e muita verdade».

Através do «Regimento de Capitães mores, & mais Capitães e officiais das Cõpanhias» são criadas, efectivamente, a 22 de Janeiro 1570, as Ordenanças militares, uma tropa miliciana de terceira linha que deveria haver em cada concelho e que enquadrava militarmente todos os homens válidos dos 18 aos 60 anos. A menos que houvesse um alcaide-mor residente (donatário), cada concelho elegia um capitão-mor, sob as ordens do qual se encontravam os capitães que comandavam as Companhias de Infantaria, Cavalaria e do Mar. Estes tinham que estar sempre prontos em caso de alarme, como o «rebate a mouros».

Quando D. Sebastião visitou o Algarve, em Janeiro de 1573, o cronista João Cascão faz referência aos «atalaias de cavalo», a um facheiro, e a uma torre de vigia de Faro, que o rei visitou.

Todos os anos pelo Verão, as povoações mais abastadas tinham imensos rebates aos mouros, como aponta frei João de S. José na sua Corografia do Reino do Algarve (1577).

Estes davam-se sobretudo em terras como Tavira, Cacela e Moncarapacho, onde abundavam as quintas e fazendas produtivas em azeite, vinho, figos, amêndoas, etc. Isso fazia com que os habitantes andassem de «pé no estribo e lança em punho».

Henrique Fernandes Sarrão, na “Historia do Reino do Algarve” (1607), diz (talvez erradamente), que no Algarve havia então seis fortalezas e oito torres de vigia. Refere a Quinta e Torre de Marim, em Faro; a Torre da Raposa, em Tavira; e as torre de vigia de Santo António de Arenilha, que dão sinais de fogo, quando há nova, ou rebate de Mouros, e de dia tem seus fachos, que abaixam, havendo nova de inimigos (…). E logo na costa se sabe sem outro aviso.

Estas vigias mais antigas também ajudavam a economia da região, pois participaram no avistamento das baleias que então se capturavam em águas algarvias.

É Alexandre Massaii, que na sua Descrição do Reino do Algarve (1621), nos dá as melhores notícias sobre estas «torres e postos de vigia», que no seu tempo proliferavam pela costa, mas que também existiam no interior algarvio. O termo de Silves tinha então 13 locais de vigia, dos quais a dois deles se pagava através do sargento-mor das Ordenanças e do seu escrivão, e dos outros se vigiava por giro. A capitania-mor da cidade tinha então 70 homens de cavalo e 291 de pé.

Na vila de Alvor, cuja alcaidaria-mor pertencia então ao conde de Odemira, havia 18 pessoas encarregadas das vigias (aqui provavelmente designados de vigias ou facheiros), que se repartiam por seis locais de atalaia, onde se incluíam o Fortezinho (com capitão nomeado pelo conde), a Ponte do Vau, uma torre situada na costa do lado de Vila Nova de Portimão, os Penedos, o sítio dos “Medos de D. Maria”, o sítio da Meia Praia e ainda um local sobre a responsabilidade das Ordenanças de cavalo.

Uma delas era conhecida pela Torre do Facho «edificada sobre uma grande rocha que principia a E. da barra» e que ruiu completamente pelo Terramoto de 1755, como informa João Baptista da Silva Lopes.

Na cidade de Lagos fazia-se as vigias com 12 homens pagos por avença em cinco locais: na Torre Alta Pequena, Torre Alta Grande e «em três partes ou postos que neles se pode desembarcar».

Na Aldeia do Bispo havia o Monte da Atalaia, «que é onde está a torre de vigia», mas onde mesmo assim se davam os desembarques de «mouros, turcos e outros corsários».

A vila de Albufeira, que era cercada de «bons muros antigos», mas a precisarem de reparações, tinha ainda um baluarte sobre o mar, e na parte do leste uma torre de vigia chamada de almenara.

Na defesa da costa algarvia pesava, no entanto, a falta de militares de cavalaria, sobretudo desde que Filipe II tinha extinguido as coudelarias, com o objectivo de enfraquecer o Exército. Nestas circunstâncias havia em toda a costa apenas 123 vigias de pé, 13 rondas de cavalo e 14 sobrerondas, distribuídos por 39 postos de vigia, quase todos eles em torres ou atalaias.

No entanto, nos anos subsequentes terão aparecido mais postos de vigia, construídos ou aproveitando os bastiões da natureza, talvez mais dissimulados, criados agora para vigiar os inimigos de Castela, mas também os tradicionais salteadores chegados daquém ou dalém Mediterrâneo e também do Norte.

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