Antigas Ermidas de Monchique

Uma das primeiras referências às Ermidas de Monchique aparece, de acordo com José Gascon, na visita pastoral que o Arcebispo do Algarve, D. Lourenço de Santa Maria e Melo realizara ao concelho a 7 de junho de 1754. Todavia, de entre os vários templos que visitou, hoje apenas subsistem três, uma vez que os restantes estão «completamente em ruínas, ou transformados para usos profanos». Este prelado ocupou o cargo entre 1752 e 1783, ano em que faleceu, e dedicou grande parte do seu trabalho aos problemas causados pelo Terramoto de 1755, que destruiu várias casas e igrejas no sul do país.

É através da viagem de D. André Teixeira Palha no dia 23 de março de 1784, que temos uma informação mais completa em relação aos templos que outrora existiram em Monchique. Sabemos, também por indicação de José Gason, que o Bispo, além de visitar a Igreja da Misericórdia, também esteve nas Ermidas de São Pedro, São José, São João, São Sebastião, Santo António, Santo André, Santa Brígida e Senhora do Pé da Cruz. Estes templos voltam a aparecer referenciados nos relatos das três passagens que D. Francisco Gomes do Avelar viria a realizar ao concelho, alguns anos mais tarde. O Bispo esteve em Monchique entre 31 de agosto de 1791 e 11 de julho de 1803 e, para além daquelas ermidas, ainda visitara, por duas vezes, «o oratório do alferes Inácio Duarte nos subúrbios da vila».

Ermida de Nossa  Senhora do Pé da Cruz
Situada a um quilómetro ao sul da vila, a igreja foi mandada construir em 1680 por Afonso Anes, tal como ostenta a lápide rectangular existente sobre a porta de entrada. Esta ermida aparecia, segundo José Rosa Sampaio, referenciada nas Memórias Paroquiais de 1758 como propriedade de Francisco José Testa e jurisdição do doutor Ouvidor de Faro, «o que queria dizer que era senhorio da rainha». Pela descrição de José Gascon na Monografia de Monchique, percebemos ainda que esta construção tinha, em 1955, «um amplo pátio ou adro e que, parecendo como que uma ampliação da ermida, deve ter sido construído muito depois desta». Alberga, no interior, além da imagem correspondente ao seu orago, Nossa Senhora do Pé da Cruz, também as imagens de São José e São João Evangelista, provenientes de ermidas já extintas.

A Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz e suas imediações foram em outros tempos palco de «uma importante romaria com feira, aqui se armando uma enorme tenda», realizada a 3 de maio, altura em que se celebra o Dia da Vera Cruz. Atualmente, a igreja continua a receber uma missa anual que assinala esta efeméride.

Ermida do Senhor dos Passos
ermidas dos passosSituada no Largo da Portela e dedicada a São João Batista até meados de 1800, a igreja passou, desde então, a designar-se por Senhor Jesus dos Passos, tanto que no relato da terceira viagem do Bispo D. Francisco Gomes do Avelar a Monchique, em 1803, já aparecia com esta nova designação. É formada por uma fachada simples e composta por um único altar que, atualmente, apenas guarda a imagem do santo, «mandada fazer num santeiro de Lisboa, por volta do fim do século XVIII».

Foi uma das ermidas que sofreu danos no Terramoto de 1755 e na Memória Paroquial de 1758 aparece como propriedade do capitão José Duarte Silva. É das imagens mais veneradas em Monchique, devendo ter sido exposta ao culto, segundo José Gascon, entre os anos de 1795 e 1803. Durante a Semana Santa, é costume a imagem do Senhor dos Passos sair em procissão pelas ruas da vila.

 

Ermida de São Sebastião
Foi construída no local onde vila terá tido início, por ordem da carta do Rei D. Sebastião, onde se decretava que à entada de cada povoação fosse construída uma igreja em honra desse monarca, pelo que a data de edificação da ermida poderá remontar a cerca de 1573, ano em que o “Desejado” estivera em Monchique.

Na Monografia de Monchique, José Gascon apresenta uma descrição do padre David Netto sobre o templo onde se pode ler que «a ermida de São Sebastião tem ante si um adro em semi-circulo e compõe-se de corpo de igreja de cerca de 10 metros de comprimento por 5 de largo, e capela bastante esbelta, quadrada, em cúpula, tendo aos lados duas amplas janelas que a inundam de luz». No interior é possível encontrar a imagem de São Sebastião, a qual segundo Francisco Lameira, é do século XVI e a de Nossa Senhora do Desterro, orago da igreja do Convento com o mesmo nome, cujo retábulo remonta ao século XVIII.
Esta ermida também foi atingida pelo grande Terramoto de 1755, todavia sabemos que em 1784 já estaria restaurada, uma vez que nos relatos da viagem de D. André Teixeira Palha à vila nesse ano, a igreja aparece referenciada e descrita como «bem asseada em que muito louva ao meritíssimo Senado desta vila».

No ano de 1900, parte da parede norte da igreja foi reforçada graças «à generosidade do Sr. Figueiredo Mascarenhas» e dois anos depois realizaram-se obras na sacristia, «que de novo foi forrada». A Ermida de São Sebastião foi ainda alvo de obras de conservação no ano de 1909, por intermédio da Junta de Freguesia que «mandou restaurar todo o telhado e forrar e pintar de novo os tectos e portas». Durante a epidemia da Pneumónica que atingiu o concelho entre 1918 e 1919, a imagem foi levada em procissão para a igreja matriz e aí permaneceu durante todo o flagelo.

 

Ermida de Santo André
Na descrição de José Gascon percebemos que esta antiga ermida «formava como o ápice das casarias da vila, indolentemente recostada em divã sobre o luxuriante flanco da Foia, cuja entrada, por este lado, vistosamente guardava». A igreja terá desaparecido no primeiro quartel do século XX, não existindo quaisquer vestígios de ruínas, a não ser o topónimo presente na rua onde a mesma existiu. A imagem do santo está, actualmente, na Igreja Matriz e é, segundo Francisco Lameira, do século XVII.

 

Ermida de São José
Situada na rua e travessa com o mesmo nome, a Ermida de São José foi das únicas igrejas que não foi afetada pelo Terramoto de 1755 e aparecia, pela Memória Paroquial de 1758, na posse do capitão José Duarte Silva. José Gascon considerava o edifício, no século XX, como «um baluarte defensivo», e após ter sido desativado, por volta de 1834, foi usado como quartel da Guarda Nacional de Monchique e mais tarde como teatro.

Ermida de São Pedro
De acordo com José Gascon, a Ermida de São Pedro «era situada junto à colina, quinta e bairro do seu nome e oferecia graciosamente a sua fachada à rua que defronta da Portela e a antiga entrada nascente da vila». Foi atingida pelo Terramoto de 1755, mas em 1758 a Memória Paroquial dava conta de que a igreja já estava a ser restaurada. A imagem do padroeiro, assim como «o seu paramento de valioso tecido de seda, em verde, existe na igreja matriz».

No espaço da antiga igreja funciona hoje uma oficina de automóveis.

 

Ermida de Santa Brígida
José Gascon situa-a «a uns dois quilómetros da vila, numa colina que ainda conserva este seu nome e fica muito próxima da Quinta Grande». Seria dos templos mais antigos do concelho, uma vez que já aparecia mencionada nas descrições históricas do Algarve do século XVII, voltando a ser citada na Memória Paroquial de 1758 como uma das cinco ermidas atingidas pelo terramoto, assim como nos relatos das visitas que os bispos realizaram à vila nos séculos XVIII e XIX.
A imagem de Santa Brígida, constituída por «um vaso do seu sangue numa das mãos e a palma do martírio na outra», é datada do século XVII e esteve em tempos no altar da igreja do Senhor dos Passos, mas atualmente encontra-se em exposição no núcleo museológico de arte sacra, anexo à igreja matriz.

 

Ermida de Santo António

«Fica ao fundo da rua que ainda hoje tem o seu nome» e é a atual Galeria Municipal de Monchique, palco para várias exposições temporárias. Depois de ter sido vendida «em praça como as anteriores», funcionou ainda como casa de habitação e vacaria, tendo como proprietários, por volta de 1955, os herdeiros de José Manuel Freire Cochado.

Por se tratar, actualmente, de um espaço cultural importante do concelho e ter sido, há pouco tempo, alvo de trabalhos arqueológicos e obras de restauro, vamos dedicar-lhe especial atenção no próximo número do Jornal de Monchique.

 

Referências Bibliográficas:
GASCON, José António Guerreiro, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, 2.ª edição (facsimilada), Algarve em Foco Editora, Vila Real de Santo António, 1993;
LAMEIRA, Francisco, “Inventário Artístico do Algarve: a talha e a imaginária. Concelho de Monchique”, Faro, 1997;
SAMPAIO, José Rosa, “Antigas Igrejas e Conventos do Concelho de Monchique”, Monchique, 2008;
“Património Religioso do Concelho de Monchique”, Monchique, 2008.

 

Autor: Ana Mateus

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