Ajuda Monchique – «Estamos juntos e muito unidos»

Os quadros com esquemas e papéis cuidadosamente organizados compõem a sala que abre as portas às vítimas doquadro incêndio, que durante sete dias, lavrou na Serra de Monchique. É num ambiente de entreajuda, colaboração e boa disposição que ganha vida e tem corpo o movimento cívico «Ajuda Monchique», que estará sediado, a partir de amanhã, dia 21 de agosto, na  Rua Serpa Pinto, perto da GNR de Monchique.

A plataforma surgiu por iniciativa de um grupo de cidadãos, durante o incêndio, e está a ser coordenada por Joana Martins, que tem «experiência de gestão em situações de emergência e projetos de desenvolvimento em países como Moçambique (onde reside)». Monchiquense de gema, a voluntária de 32 anos, dispõe dos «conhecimentos necessários para saber como atuar e conseguir rapidamente ajudar as pessoas afetadas, com necessidades emergentes».

O Jornal de Monchique visitou o centro de apoio, à data desta entrevista sediado na Escola Básica Manuel do Nascimento, e esteve à conversa com Joana Martins para conhecer o trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos dias.

 

Jornal de Monchique – Quantas pessoas já conseguiram apoiar através da plataforma «Ajuda Monchique»?

Joana Martins – Neste momento temos mais ou menos 320 casos registados, isto é, pessoas afetadas diretamente pelos incêndios. Deste número, cerca de 160 pessoas, a quem estamos a fazer o seguimento permanente com apoiado com bens alimentares, ração para os animais ou encontrar alojamento. Apoiamos também com donativos maiores, tal como sistemas da água. Portanto, entre 160 a 200 pessoas foram apoiadas por nós. Agora o trabalho continua e é preciso coordenar com as equipas que estão no terreno para ver que tipo de ajudas são precisas.

 

JM – As equipas de terreno estão em coordenação com a autarquia?

JM – Na fase de rastreio articulamos com os escuteiros e as guias. Foi fundamental ter um transporte e motorista da Câmara Municipal de Monchique (CMM) que conhece o terreno. Nessa fase foi preciso chegar  a toda a gente. Temos algum apoio com transporte da CMM que, na medida do que pode, ajuda nesse sentido. As equipas de terreno são, neste momento, de acompanhamento e consistem em segundas e terceiras visitas nas quais fazem a monitorização do estado das pessoas. Conseguem dar resposta de bens que elas precisam ou arranjos pequenos. Temos, por exemplo, canalizadores que podem logo montar um sistema para que as pessoas possam ter água. São coisas imediatas e que não se sobrepõem nem invalidam o trabalho das autoridades que se encontram no terreno. É um trabalho de verificação, até porque eles também usam a informação de base que nós lhes passamos para que possam ver o que é será necessário acionar a nível institucional.

 

JM – Têm conseguido responder às necessidades que vos são expostas por parte da população que procura a vossa ajuda?

JM – Até ao momento temos conseguido responder a tudo o que tem chegado até nós. Claro que temos desafios e muitas preocupações. Tudo o que são alívios imediatos, ou seja, alojamento, roupa, alimentação, segurança e higiene estamos a conseguir responder. Se houve alguém que não foi apoiado é porque a pessoa teve vergonha ou se escondeu. Mas é muito raro e é muito difícil que assim seja, até porque o terreno foi todo rastreado. O que temos são casos que as equipas encontraram e agora vêm cá por segunda vez buscar mais coisas. O que levamos no primeiro encontro são coisas muito básicas. De facto, nestas situações, é preciso ter um pouco de sensibilidade, porque há pessoas que não perderam a casa, mas perderam a horta e numa população muito envelhecida, que vive da terra, esse é um meio de subsistência. Há casos em que as minas de água estão entupidas, as bombas não conseguem puxar, porque queimaram e os tubos de água são fundamentais. Daí o nosso apelo no apoio de esse material. Há pessoas podem ter a casa, mas depois não têm electricidade, não têm água, nem comida… Muitas delas também têm animais. Portanto, esse apoio tem que ser feito de forma continuada.

 

JM – Quando termina o vosso trabalho? Têm alguma previsão de quando poderá estar tudo organizado?

JM – Isso depende quase mais do outro lado (serviços de Segurança Social, Município, …) do que do nosso. Temos uma ideia, ou uma esperança, de que no máximo em dois meses este tipo de plataforma não seja necessária. O que fazemos é um apoio social com bens enquanto as autoridades mobilizam o quem tem de agilizar. É a sua responsabilidade e é para isso pagamos impostos. Portanto, nós calculamos que dois meses para verificarem caso a caso quem tem direito ao quê, quem é que já está a receber ajudas e o que precisam. Isso já não é um trabalho que nós, como sociedade civil, estejamos a fazer ou que tenhamos assumido, mas preocupa-nos quão ágeis vão ser as autoridades oficiais.

 

JM – Em relação aos concursos que vão abrir para os apoios aos produtores afetados pelo incêndio, as pessoas podem procurar a vossa ajuda para o preenchimento de documentação? Vão realizar algum trabalho nesse sentido?

JM – Não fomos informados de nada disso. Neste momento tenho um batalhão de voluntários que pode fazer imensas coisas. O que queremos é que as ajudas chegam de forma organizada e não atrapalhar o trabalho que está a ser feito pelas autoridades. Quando nos for dada a informação e se for preciso mobilizar alguma equipa, estamos aqui para trabalhar. A comunicação entre as autoridades e as plataformas de ajuda, especialmente uma potentíssima como é neste momento o «Ajuda Monchique», deve ser feita da maneira mais saudável e harmoniosa para chegar ao objetivo, que é ajudar a nossa população.

 

JM – Em relação aos alojamentos quais são os desafios que têm encontrado?

JM – Em Monchique já não havia alojamentos. No geral, não é um sitio fácil, porque é caro. Toda a gente acha que qualquer divisão vale uma «milionada». Além disso, não tivemos acesso a uma lista de alojamentos que existam disponíveis no concelho, por isso estamos a fazer um apelo à doação de caravanas para que possamos alojar as pessoas para ficarem autónomas e não sobrecarregar os familiares. É uma forma de poderem ficar no terreno que lhes pertence enquanto as reconstruções são feitas. Esse é o próximo desafio.  Há pessoas que foram alojadas no inicio, mas depois dia 25 ou 26 deste mês têm que sair. Estamos à espera, mais uma vez, para ouvir as autoridades e saber quais são os mecanismos para que as pessoas estejam salvaguardadas.

 

JM – Quantas pessoas estão na situação de alojamento temporário?

JM – As pessoas foram acolhidas de diferentes formas, seja pelas famílias, em casas ou quartos cedidos por outros ou instituições como a Santa Casa. Temos, pelo menos, 32 casos de perda total e casas que não arderam completamente, mas que não têm condições de habitabilidade, que são cerca de 50 a 60. Como é que vamos mandar uma pessoa para uma casa parcialmente queimada que não tem água, nem janelas?

 

JM – Qual é o ambiente que vivem aqui enquanto equipa?

JM – É muito bom (risos)! É muito bom… É maravilhoso. Há frustrações normais dos caminhos e não focamos nada nelas. Montou-se um movimento muito espontâneo de pessoas que arregaçaram as mangas e que disseram hoje não sou eu, mas amanhã posso ser ou já fui. De um modo geral todos vivemos o incêndio de 2003 e temos os nossos próprios traumas e formas de lidar com isso. O ambiente que se vive aqui é extremamente saudável e de colaboração. As pessoas que precisam de apoio e os voluntários estão felicíssimos, porque chegam aqui e encontram uma palavra de apoio e este não é um sistema pesado. De uma forma muito humana e muito rápida aqui estamos juntos e estamos muito unidos.

 

Para mais informações pode consultar a plataforma em www.ajudamonchique.com, utilizar o email ajudamonchique@gmail.com e também pode acompanhar as notícias através da página facebook https://www.facebook.com/ajudamonchique/ ou juntar-se ao grupo https://www.facebook.com/groups/ajudamonchique/about/.

 

Não há imagens nesta galeria.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *