A toponímia monchiquense (II)

A toponímia é a ciência que estuda o nome das ruas e lugares. A expressão deriva da palavra grega topos, que nos remete para lugar, e da palavra ónoma, que significa nome. Quando visitamos uma vila ou cidade são os nomes das ruas ou lugares que nos permitem identificar o local onde estamos e nos auxiliam a encontrar o caminho ou edifício que procuramos.

Na vila de Monchique, as placas toponímicas apresentam nomes de personalidades relevantes ou acontecimentos marcantes e outras devem a sua toponímia ao facto de ali existir ou ter existido uma construção mais significativa com o mesmo nome.

O Largo dos Chorões foi inaugurado a 1 de janeiro de 1892 com o nome de Praça Augusto Pires, mas esta designação não durou muito tempo, conforme se pode ler na descrição de José Gascon acerca dessa fundação: «quando a Câmara ali compareceu para proceder ao descerramento das placas, que eram duas, só ali estava uma porque a outra tinha sido arrancada na noite precedente, sucedendo outro tanto à que ficou, algum tempo depois, e a mais uma ou duas que em sua substituição, ali foram postas. Essa denominação teve, pois, duração efémera. Embora hoje seja a «Praça 5 de Outubro», na memória de muitos monchiquenses permanece a designação de «Largo D. Afonso Henriques».

Regra geral, a denominação Rua Direita constitui «um dos eixos ordenadores do tecido urbano», quer a partir da igreja ou do castelo, quer ao longo de um rio de determinada povoação. Esta situação aplica-se a Monchique, uma vez que a sua Rua Direita constitui «uma saída direta a partir do centro da vila, a chamada Praça, a poucos metros da Igreja Matriz». Esta denominação ainda prevalece, embora atualmente na placa toponímica apareça Rua Dr. Samora Gil, em homenagem ao médico que exerceu essas funções no concelho até 1948. Esta via terá sido alargada na altura das obras de reconstrução após o terramoto de 1755, tornando-se desde então numa das ruas mais importantes da vila, não só pelo tipo de habitações que aí foram construídas como também pelo facto de nela se concentrarem as principais lojas, estabelecimentos comerciais e oficinas de artesões, nomeadamente sapateiros. A Rua Dr. Samora Gil desemboca no Largo Comendador José Joaquim Ágoas, em homenagem a esse ilustre monchiquense, mas continua a ser vulgarmente chamado por Largo da Portela, ou simplesmente, Portela. Próximo deste largo existiu um edifício que o referido médico doou em testamento à Câmara Municipal e que viria a dar origem aos atuais Paços do Concelho, inaugurados a 8 de dezembro de 1959.

O Largo da Portela pode ser considerado uma espécie de “porta da povoação”, uma vez que confina com cinco ruas, entre as quais a Prior Francisco Jorge de Melo e a do Viador. José Gonçalo explica que a Ermida de Nosso Senhor dos Passos no Largo da Portela «poderia ter uma função protetora dirigida especialmente a quem saía ou entrava na localidade por este acesso».

Em 1848, a Câmara Municipal passou a ter uma sede própria destinada a essa função. A 2 de abril desse ano, a Misericórdia de Monchique concedeu à edilidade a propriedade de um edifício situado na Rua da Boa Vista, que também viria a albergar o Tribunal. Quando o Convento de N. S. do Desterro e respetivos anexos foram vendidos em hasta pública, em 1842, os sinos e o relógio da sua torre foram levados para o novo edifício da Câmara. Segundo António da Silva Carriço, «o relógio tem “corda” para 24 horas que lhe é dada por uma manivela que faz subir uns pesos de ferro pendentes de um cabo de aço, e marcou (com acerto) as horas da população até ser montado um outro relógio na torre da Igreja Matriz». Este facto deu origem ao nome da rua por detrás dos antigos Paços do Concelho, que assim substituiu o topónimo de então, Rua do Forno, por Rua do Relógio.

A Rua da Boa Vista, que também conheceu outros topónimos como Rua Cândido dos Reis ou Rua do Colégio é hoje a Rua Prior Francisco Jorge de Melo, embora popularmente ainda seja considerada a Rua da Cadeia, pelo simples facto de a mesma aí ter estado instalada após a demolição da “cadeia velha”, que se situava na Praça. Para além da Câmara Municipal, funcionaram em simultâneo no mesmo edifício da Rua da Boavista, a Repartição de Finanças e, no primeiro piso, a Cadeia e a Tesouraria da Fazenda Pública. Quando a edilidade desocupou aquele prédio, foram para lá transferidos os serviços do Cartório Notarial, que «veio duma casa da Rua João de Deus, pertencente a Joaquim André Duarte», da Conservatória e do Registo Civil, que deixou uma casa da propriedade da Paróquia, na Rua da Igreja e do Registo Predial, que «funcionava numa casinha precisamente na confluência da Rua da Boa Vista com a Rua João de Deus». Durante algum tempo, «tanto o Tribunal como a Repartição de Finanças ainda estiveram, provisória e alternadamente, instalados no Castelo, no rés-do-chão da residência de D. Ana Figueiredo (e que passou a ser da família Mascarenhas)».

Quanto à Rua do Viador, José Gascon defende que este topónimo poderá estar na origem do facto de, durante algum tempo, ter ficado instalado, «numa casa daquela rua, o Vedor da Fazenda João Fogaça para preparar a vinda do rei D. João II às termas das Caldas de Monchique, em 1495». Aquele que desempenhava um cargo administrativo do reino era denominado “vedor”, embora esta palavra também possa assumir a forma de “veador”. Na Rua do Viador ainda funcionou o Posto da Guarda Nacional Republicana.

Importa referir que as placas toponímicas de Monchique são encimadas pelo brasão de armas municipais, constituído por um fundo verde, sobre o qual estão sobrepostas as cabeças de dois reis, mouro e cristão, as quais ladeiam aquele que é considerado «o maior valor monumental de Monchique», uma fonte de água termal. A única exceção acontece na placa toponímica da Rua do Porto Fundo, na qual surge a imagem do brasão de Pedro da Silva, fundador do Convento de Nossa Senhora do Desterro, em 1631.r

Referências Bibliográficas:
CARNEIRO, Isabel, CAMPOS, Nuno, “O Concelho de Monchique e as Suas Armas Municipais – Da Perspectiva Histórico-Sociológica à Perspectiva Heráldica”, Comissão Instaladora do Museu de Monchique/Junta de Freguesia de Monchique, Monchique, 2003;
GASCON, José António Guerreiro, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, 2ª edição, Algarve em Foco Editora, Faro, 1993;
SILVA, José Gonçalo Nobre Duarte, “A Igreja Matriz de Monchique”, Dissertação de Mestrado em História da Arte, Universidade do Algarve, Faro, 2012;
“A sede política municipal” – www.cm-monchique.pt
Jornal de Monchique, n.º 2 (Janeiro de 1986),n.º 15 (Fevereiro de 1987), n.º 18 (Maio de 1987), n.º 20 (Julho de 1987) e n.º 77 (Setembro de 1994).

 

* Técnica Superior de Património