A Revolta da Maria da Fonte e a Guerra Civil da Patuleia em 1846-1847 – Os seus reflexos no Concelho de Monchique (I)

A Revolução da Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, foi uma insurreição popular que se deu na Primavera de 1846 contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral.

A sublevação resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas medidas centralistas, um rigoroso controlo das eleições que não permitiam o livre exercício do direito de voto a muitos eleitores contribuintes e da carga de impostos que onerava sobretudo os pequenos proprietários rurais e o campesinato e beneficiava a nobreza e a alta burguesia da província. Outras das causas eram a especulação desenfreada das Companhias dos apoiantes do governo, as novas leis de recrutamento militar e a proibição dos enterros que tradicionalmente se faziam dentro de igrejas.

A estes factores haveria que juntar a crise económica agravada pelo mau ano agrícola provocado pela intensa seca e a praga da batata.

O movimento insurreccional iniciou-se na zona de Póvoa de Lanhoso (Minho) e foi-se progressivamente estendendo de Norte a Sul e às ilhas.

A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de “Maria da Fonte”. Como a fase inicial do movimento teve uma forte componente feminina, acabou por ser esse o nome dado à revolta.
A espontaneidade popular da revolta esmoreceria logo a seguir a favor dos aproveitamentos políticos que dela se fizeram levando-a a propagar-se ao resto do país.

O resultado foi a substituição do governo de Costa Cabral por um presidido pelo Duque de Palmela, a 20 de Maio de 1846, no meio de grande instabilidade política e social. Na composição inicial Palmela ocupava a presidência e os ministérios do Reino, da Justiça e da Fazenda, enquanto o Duque da Terceira acumulava os ministérios da Guerra, da Marinha e Colónias e dos Negócios Estrangeiros.

Até aqui tudo parecia ter entrado na fase da tranquilidade, não fosse o golpe palaciano conhecido por “Emboscada”, organizado por Costa Cabral em Madrid e posto em prática por Saldanha, com a rainha a demitir o governo de Palmela. Esta nomearia a 6 de Outubro um novo ministério presidido pelo marechal Duque de Saldanha, facto que fez reacender a insurreição ao extremo.

O resultado foi uma nova guerra civil de oito meses, A Patuleia, que só terminaria com a assinatura da Convenção de Gramido, a 30 de Junho de 1847, após a intervenção de forças militares estrangeiras ao abrigo da Quádrupla Aliança.

A Revolta da Maria da Fonte e a Guerra Civil da Patuleia
Os seus Reflexos no Concelho de Monchique
A Revolução da Maria da Fonte e a guerra civil que se seguiu não passaram de uma revolta do mundo rural contra os centros urbanos, como já tinha acontecido anos atrás. Revestiu-se de um neo-miguelismo retrógrado e fora da sua época, que mais uma vez seria vencido pelo poder financeiro liberal e burguês.
Em Monchique poderá ter-se formado uma Junta Governativa durante a Maria da Fonte, pois estas surgiram de Norte a Sul do país e ilhas, sabendo-se da sua existência em Lagos e Faro. Estas juntas eram compostas por pequenos e médios proprietários simpatizantes do miguelismo e do setembrismo, católicos tradicionalistas e indivíduos adversos ao governo cartista de Costa Cabral.

Da mesma maneira estas juntas se terão formado ou continuado durante a guerra civil da Patuleia, o que demonstra uma forte politização do movimento.

Por esta altura os indivíduos mais influentes na sociedade local eram além dos membros da família Águas/Furtado/Pacheco, que se repartiam entre o miguelismo e as fracções liberais, também os proprietários e figuras marcantes da administração pública, de que destacámos Ildefonso José Cochado, José da Fonseca Sequeira, José Tomas Carneiro, Francisco Callapez, Salvador Callapez, António Francisco Callapez, Joaquim Furtado, António Joaquim da Silva, João Duarte Rio, Francisco Guerreiro e Brito e Baltazar Rodrigues Villas-Boas Sampaio.

Foi nesse âmbito que se organizaram as forças designadas de “Batalhão Nacional de Monchique”, de “Batalhão de Caçadores de Monchique” e de “Batalhão de Voluntários de Monchique”, tendo pelo menos as duas últimas ido ao encontro das forças anti-governamentais desembarcadas em Lagos a 1 de Abril de 1847.

Fontes, Bibliografia e Notas:
ANICA, Aurízia, As Mulheres, A Violência e a Justiça no Algarve de Oitocentos, Colibri, Lisboa, 2005.
BONIFÁCIO, Maria de Fátima, História da Guerra Civil da Patuleia: 1846-1847, Estampa, Lisboa, 1993.
BORREGO, Nuno Gonçalo Pereira, As Ordenanças e as Milícias em Portugal: Subsídios para o seu estudo, vol. I, Guarda-Mor, Lisboa, 2006.
CARVALHO, Almeida, A Batalha do Viso e a Revolta da Patuleia em Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2013.
MEDINA, João (dir.), História de Portugal, vol. X, Ediclube, 2014.
SAMPAIO, José Rosa, Contributo para a História Militar em Monchique: As Ordenanças e as Milícias, 2.ª ed., 2015.
– Episódios do Tempo das Lutas Liberais no Concelho de Monchique, 2.ª ed., 2015.
– Da Afirmação do Liberalismo à Regeneração no Concelho de Monchique, Monchique, 2009.
– Da Regeneração ao Ultimato de 1890, no Concelho de Monchique, Monchique, 2009.
– A Guerrilha do Remexido no Concelho de Monchique, 3.ª edição, Monchique, 2013.
– Os Antigos Administradores do Concelho de Monchique (1832-1937), 2.ª ed., 2014.
– A Revolta da Maria da Fonte e a Guerra Civil da Patuleia em 1846-1847. Os seus Reflexos no Concelho de Monchique, 2015.
– Portimão no Liberalismo e Constitucionalismo do Século XIX (1820-1910), Portimão, 2013
SERRÃO, Joel, e A. H. de Oliveira Marques (dir.), Nova História de Portugal, IX, Presença, 2002.
Gazeta de Lisboa, n.º 106 e n.º 145, 1832.
Diario Illustrado, n.º 2769, de 28.01.1881, p.1, «Coronel Pinto Carneiro».
AHM. Da Guerra Civil à Regeneração (1844-1851), caixa 41.
ADF, Governo Civil, Correio do Governador Civil para o Ministro do Reino, Livro 465, Officio n.º 5, de 11.01.1848.

– O Senado Municipal era constituído em Maio de 1832 pelo juiz de fora Dr. Luís Freire de Liz Craveiro (presidente), Major Francisco José Guerreiro e Brito (1.º vereador), Miguel Duarte Marreiros (2.º vereador), José Joaquim Águas (3.º vereador) e Alexandre Martins Ferreira (procurador do Concelho).

– Note-se que a proibição dos enterramentos dentro das igrejas foi uma medida tomada em Setembro de 1835, sendo a regulamentação para a construção dos cemitérios de 8 de Outubro do mesmo ano, numa altura em que foi também criado o imposto do «covado». No entanto foram os ditames cabralistas que agravariam as tensões e poriam esta medida altamente higiénica e civilizacional à frente das reivindicações dos revoltosos (João Medina, História de Portugal, X, p.387).

 

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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