A Porta da Misericórdia

“Ouve o vento a soprar lá fora.
Ele transporta mensagens de ontem
e sonhos para amanhã”
Linus Mundy, in Saborear a Vida”

É isto o tempo – o vento que corre lá fora e se ouve trazendo na voz a memória das coisas e os desejos sonhados para amanhã. O mais curioso é que mensagens e sonhos seguem-se, sem conseguirem tocar-se, um do futuro, do dia seguinte que “ainda” não chegou, outro da fração do momento presente que também passa de imediato a ser ontem, a ser origem, a ser memória. Não sei é dizer de que lado sopra o vento, se de nascente para poente, se de poente para nascente. Sei apenas que esse sopro perfumado do tempo sopra dentro de mim, na rosa-dos-ventos da vida. Um vento que traz a semente para fazê-la germinar na terra-mãe, ensiná-la a crescer, a se enfeitar de ramos e frutos coloridos, depois de ter passado pelo prazer da fecundação do Amor. E deixa de ser vento, de ser semente, flor ou fruto, e passa a ser vida. No coração da criatura animada, porque criada com alma. Como exemplo, repare-se na cópula do vento com os estames da flor ou do pólen depositado pelas patas das abelhas no geniceu das corolas…
Esta é a mensagem do vento, sem princípio nem fim, sem ontem nem amanhã, soprado por Alguém que muito ama.
Mas os ventos que sopram pelo mundo de hoje são devastadores e devoradores. Soprados por homens que não têm memória e, por isso, sem passado, que têm apenas presente, um agora que é feito e talhado por si, à sua medida, e que não chegam a ter futuro porque não têm sonhos. Vazios. Vazios da realidade do Ser, mas cheios de guerras, de náufragos, de arame farpado, de dinheiro sujo de sangue, de desejo de extermínio, capazes de tudo por um mundo só seu. Que seria apenas um mundo de medo, de terror, de fuga, de corpos de crianças sem vida enchendo areais para onde foram cuspidos. Homens-feras, obreiros de um mundo bestializado, de monstros animalizados, embora criaturas animadas mas desumanizadas, com uma alma que desconhecem e não se encaixa no seu corpo, na sua matéria.
Graça Morais mostra-nos isso em “ Pinturas nas quais homens e mulheres se transmutam em animais. Animais que ganham a força de heróis. Anjos que carregam nos seus braços seres que são resgatados do Inferno e dos desastres das guerras e das doenças. Pietás que revelam a natureza humana numa recusa em aceitar a fatalidade da maldade sem rosto que ensombra a terra.” (exposição Os Desastres da Guerra, 2013)
Já há mais de três anos que ela tinha captado, com a sua sensibilidade e arte, estes horrores obscenos. Querendo dizer-nos, (quase pedindo-nos) que cada um de nós, pais, mães ou filhos, se torne numa Pietá, carregando nos braços os “cristos” arrebatados à cruz antes do fim. Esta seria uma das Portas da Misericórdia por onde deveríamos avançar.
A 8 de dezembro de 2015, o Papa Francisco proclamou 2016 Ano da Misericórdia. Empurrou e escancarou a porta da Basílica de S. Pedro, por onde foi ele o primeiro a entrar, para que todos o seguissem. Sofrendo com o sofrimento deste nosso trágico tempo. Baleado pelo ódio entre as nações, pelas guerras e pela ganância do oiro negro, e perseguição de tantos inocentes. Rezando pelas vítimas, pedindo paz para os algozes, repetindo palavras ditas na Cruz: “ Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem:”
Permitam-me agora o falar claro, sem metáforas ou véus semitransparentes, dizendo que a Grande Misericórdia só pode ser atributo de Deus. Porque só Ele conhece a origem e as razões do nosso mal, dos nossos instintos, que nós próprios desconhecemos, escondidas e secretas no mais íntimo e remoto espaço da nossa humanidade, só Ele perdoa e só Ele esquece. Quanto a nós (homens ou bestas?) lembro-me de sempre ter ouvido dizer “perdoar é de cristão, esquecer é de burro”.
Pelo dicionário ficamos a saber que Misericórdia é “um sentimento de compaixão, caridade, piedade, indulgência e clemência para quem merecia ser punido, que se concede apenas por bondade aos culpados”. E o resto, por onde fica? O perdoar e o esquecer? O Amor?
No séc. XIII Cristo disse a um folião de Assis “Francisco, reconstrói a minha Igreja”. E ele arregaçou as mangas e pôs mãos à obra, tornando-se, pelo seu trabalho, pela sua luta e pelos seus gestos, símbolo da Caridade e do Amor para com todos, desde a irmã pedra e o irmão lobo até à irmã morte. Pois bem, repare-se agora como o Francisco de hoje está a reconstruir uma nova Igreja. Ao abrir a Porta da Misericórdia, “lamentou, com mágoa, que se afirme ainda que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem colocar em primeiro lugar que, pelo contrário, são perdoados pela misericórdia do Pai. (…) um amor que vai além da justiça, um amor que não conhece fim – somos responsáveis por esse amor infinito, apesar das nossas contradições.”
Isto é dito com todas as letras mas, sobretudo, com todo o coração.
É um vento novo, uma fresca brisa, a soprar pelos quatro cantos do mundo, que transporta a mensagem de ontem e sonhos para amanhã.