A minha Europa, por Maria Filomena Mónica

Figura proeminente das ciências sociais e humanas, Maria Filomena Mónica acaba de publicar aquele que eu julgo ser o seu melhor livro, uma digressão por uma certa Europa: “A Minha Europa” por Maria Filomena Mónica, A Esfera dos Livros, 2015. Desperta-nos a curiosidade ao observar o relacionamento dos portugueses com a Espanha e o mundo além Pirenéus, socorre-se de testemunhos da Geração de 70, logo com o Antero das Conferências do Casino, uma análise estimulante. No epílogo de uma digressão onde cabem Oxford onde estudou, algum do demais Reino Unido, Florença e o Renascimento, a herança da Revolução Francesa, o papel da Alemanha, nos negócios e na cultura, São Petersburgo e a sombra da Rússia europeia, a inquietação dessa Barcelona separatista e as instituições comunitárias em Bruxelas, confessa-se: “Nasci na Europa, cresci na Europa e não concebo viver fora da Europa, mas sei que existem duas Europas: a minha, antiga e cética, e a dos eurocratas, arrogante e autoritária”. Prevê enormes escolhos e ameaças latentes para a Europa: as opções erráticas da Grécia, as ambições expansionistas de Putin, a competição dos produtos feitos na Ásia, as migrações de gentes que fogem das guerras e o terrorismo islâmico, e justifica as suas razões.

Tudo somado, temos aqui uma cientista social que escreve memórias, viaja com um caderno de apontamentos, usando de uma franqueza quase ilimitada, deve-se estar nas tintas para que a considerem uma pedante desmiolada, uma burguesa agridoce, uma quase aristocrata rabugenta, senhora do seu nariz. Guarda uma certa Europa no coração e teme essa Europa de rolo compressor e tendências uniformizadoras. Dirá mesmo que essa Europa padronizada é muitíssimo recente, existe outra, a das grandes cidades e a das pequenas aldeias, a das nações antigas onde se fala uma única língua e a das cidades-estados com dialetos próprios, a dos povos que se sentem bem convivendo com gente diversa. E di-lo sem rebuço: “É nesta Europa que me sinto em casa”.

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A Florença referencial é a do Médicis, embevece-se com a pintura de Lippo Lippi e seu filho Filippino, está atenta ao ambiente que a rodeia nos hotéis, conversa com muita gente. O Reino Unido centrado em Oxford é a sua segunda pátria, conhece ruas, edifícios, cafés, jardins, fala de tudo com propriedade, tem mesmo saudades dos bons programas televisivos de outrora, exalta o ensino: “A função de Universidade não é propriamente responder aos problemas psíquicos de alunos inseguros, mas ensiná-los a pensar à força, se necessário”. Comove-se com certos passeios, registo o que ela viu e que a levou a Yorkshire, tudo por causa de “O Monte dos Vendavais”, de Emily Brontë: “A vida das Brontë desenrolou-se entre as paredes de uma casinha escura, no meio dos desolados campos de Yorkshire. A família instalara-se em Haworth em 1820, quando o pai ali fora colocado como pastor anglicano (…) Uma vez no local, olhei, com atenção a sala de jantar onde elas escreviam à luz de um candeeiro a petróleo. Fora ali, naquele canapé de veludo, que, com 30 anos, Emily morrera. Era uma rapariga reservada, mas o retrato que a tradição nos legou – o de uma menina etérea que gostava de atravessar os campos com o cabelo ao vento – está longe de corresponder à realidade”. Viaja e comenta, este país ocupa um grande espaço na sua vida e no seu espírito: “Tenho de mencionar o que Inglaterra me deu. Nenhum outro país me transmitiu, como este, a nobreza de alguém que, no meio de uma crise internacional gravíssima, se levanta para afirmar: ‘We shall never surrender’. As ideias liberais, que perfilho, não me foram apenas transmitidas em tutorials, seminários ou conferências, mas em conversas informais, em noticiários televisivos, em peças de teatro, em revistas, em jornais. Vinda de um país, como Portugal, onde a escolástica era tida como uma forma superior de pensamento e a lamechice literária exaltada, Inglaterra deu-me a possibilidade de ter contacto com obras superiores”.

A França constrange-a, ela sente que há para ali bastante prosápia e não menos vacuidade, lendo o que os outros escrevem diz mesmo que os intelectuais franceses ainda não perceberam que Paris já não está no centro do mundo, é um país que vive a glorificar a sua “identidade”. Mas tenta esclarecer: “Se sou severa com a França é por a ter admirado em demasia. Existem no país muitas coisas de que gosto”. Notas da vida, apontamentos de itinerários, sempre cortante a interpretar-se com os espaços e as culturas. No fim, insiste em relembrar-nos o que tantas vezes tendemos a esquecer: o privilégio de se viver deste lado do mundo.

Fotografias assombrosas de António Barreto. Ensaio de leitura obrigatória.

Autor: Beja Santos

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