A limbo e a liberdade

No planeta do limbo acordava o dia normal, prestes a tornar-se um dia novo.

Era dia de manifestação. Ninguém sabia a surpresa que lhes estava reservada.

O sol chegou à hora do pequeno-almoço e aqueceu todas as cascatas. A primavera buscava coragem para o rompimento definitivo no relacionamento doentio que mantinha com o inverno, enquanto este, descansado e preguiçoso, aproveitando-se da inércia da sua companheira teimava em ficar deitado na rede das casas socializando com os gatos que o aqueciam deitando-se-lhe aos pés.

No jardim principal, junto da cascata púrpura, o exército de manifestantes juntava-se ao exército de libertadores.

Chegavam murmúrios excitantes da ala central do jardim: o exército de contestadores que nunca tinha saído da rede das salas das habitações comuns, tinha finalmente rasgado o contrato da inacção. Preparavam-se lenta mas estrategicamente para fazer uma impressionante aparição depois da sesta.

Dizia-se que viriam vestidos com asas.

Alguém tinha rompido o segredo e contava num pedestal:

-«ouçam com atenção, as decisões importantes requerem sono estudado e profundo, para amadurecer o pensamento. Vamos recebê-los».

Como o Inverno faz antes de dar espaço à companheira Primavera.

A pressa que não tem pressa. O tempo dela haveria de chegar e ela estaria preparada. Sonhava um anjo de cabelo curto encarapinhado, de cócoras na terra, vindo de outra galáxia, para confirmar a veracidade do rumor.

Os exércitos estavam preparados. Despontava o sonho da preparação. O milagre do lêvedo.

Sem darem conta, a terra, tinta de sangue, cor do limbo em todos os seus jardins, deixou de se poder ver.

Estava coberta de soldados de pés com asas.

Anjos de todas as cores iam deixando anéis de espuma branca no ar, símbolo da união entre exércitos.

Era a assinatura esperada. O dia ficaria conhecido por todas as galáxias, pelo dia em que o limbo selou o Tratado Internacional para tornar Global o Livre Comércio da Dignidade.

A limbo, chão mulher, lentamente- há tanto habituada a gerar frutos sem pressa- derramava as últimas lágrimas, limpava do chão o sangue dos filhos perdidos, sentava-se num ramo de uma das mais velhas árvores enquanto no seu diário escrevia uma só palavra-liberdade.

A cor do anel que lhe faltava. Quando terminou sentindo o cansaço carregado na alma, enquanto experimentava a vida como protagonista e, em simultâneo a escrevia, ansiava por subir para aquela que sempre fora a sua casa.

A festa lá longe continuava.

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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