A demência de Alzheimer

Quase a terminar um período longo de observação de pessoas com Alzheimer, entre outras formas de demência, tentei calçar-lhes os sapatos. Pensar como eles.

Escrevi uma pequena nota, como se fosse uma entrada de um diário, num dia das suas vidas.

É dedicada aos cuidadores. E aos pacientes.

“Para escrever poesia uma pessoa tem de caminhar nas linhas limite das emoções” .

Esta frase foi dita por Roger, de 86 anos, um desses pacientes de quem cuidei, quando a seu pedido lhe li uma poesia que tinha escrito. Quando terminei chorou. Chorámos ambos quando ele me disse esta frase num daqueles seus raros momentos de lucidez.

Espero que um dia em Portugal, bem perto do dia de hoje, seja escrita legislação para cuidar dos cuidadores. Porque para os doentes somos poesia.

A inocência que perdi, a inocência que ganhei

O relógio diz que são cinco da tarde, ou qualquer coisa assim. Não sei nem faz mal não saber. Às vezes tenho medo de fazer asneiras e falo pouco. Outras vezes falo muito. Pedem-me para repetir. Mas não me apetece. Sei que falo porque ouço a minha voz a dizer não importa o quê. Tenho obsessões incontroláveis mas não as entendo. Há muito que me esqueci do que digo. Sinto-me como um fantasma que ficou sem corpo na única casa que sempre conheceu mas nunca abandonou. Eu fantasma vagueio insatisfeito, zangado e infeliz sem poder fazer quase nada aos novos ocupantes da minha casa, a não ser de vez em quando puxar uns tapetes, atirar uns quadros ao chão, acender e apagar luzes, fechar umas portas e levantar umas mesas ou não votar neles. Tiro os pratos do lava-loiça e ajeito-os nas gavetas. Os talheres…para que servem os talheres? Guardo lenços na minha mala e também os talheres. Espero que ninguém veja. São todos meus. Escondo os comandos da televisão. Para que servem? Não me lembro. Não faço perguntas para que não me julguem estúpida. Ou até louca. Quem sabe se eles me julgam louca? Não gosto do escuro. Tenho medo e fico muito assustada com o negro sem brilho da noite, por isso preciso das luzes. Assim não me vêm buscar.

Eles ficam ofuscados com a luz. Mas eu gosto. Não gosto do sol. Brilha intensamente. Vem-me lembrar que eu perdi o brilho. É pura maldade dele. Quero dizer – eles não entendem – que não me lembro sequer se faço estas coisas que digo. São pequenas partidas com efeitos menores.

Poder-se-ia dizer – lendo-me o pensamento – que o fantasma perdeu a inocência.

Mas o fantasma de mim própria que sou eu não irá combater fogo com fogo. Sou mais esperta. Sou eu ou é o fantasma? Não sei nem me vou aventurar em perguntar em voz alta. Se me ouvem julgam-me louca. Incomoda-me que falem. Confundem-me. Se me perguntam alguma coisa perco-me. Não tenho referências para lhes responder. Perdia-as num dia de sol. Talvez fossem cinco da tarde. Não sei. Vou dormir. Estou muito cansada. A luz vai ficar acesa porque eu quero.

Vou deixar que o fogo consuma toda a palha, que é por essência seca, até se extinguir deixando a terra preparada para novas sementeiras e colheitas. Quando eu me tornar comida da terra na terra.

Agora luto. Mas luto por que razão? Sinto-me muito cansada. Não sei nada mas não vou perguntar. Direi que sim. Que têm razão.

Como Moisés abriu o mar apenas com a força do seu olhar, eu prossigo o meu caminho com a força do meu lutar.

Louca? Não sei, se perguntar ainda louca me vão achar

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