A casa grande e a tabanka

“Senhores da casa grande, comprei um cartão para vos mandar à merda”
Não é fácil viver acordado. Pareço uma lunática – ou pior, uma testemunha de jeová – e tenho de ter cuidados redobrados quando ouço a barbaridade da divisão – como se a experiência terrena fosse um campeonato de futebol em várias divisões – ou tenho de explicar que continuamos a viver como há muitos anos atrás, onde existem dois cenários apenas: a casa grande e a tabanka.

Os que têm privilégios, na casa grande. Na tabanka, os outros, que cegos são conduzidos e divididos em categorias, etiquetas e outras bacocas tretas.

Na tabanka vivem também os acordados que andam ao tabefe para destruírem as divisões. São os gauleses que vivem numa aldeia à parte dentro da tabanka. Têm um bardo amarrado a uma árvore que canta desafinado, mas que os anima (a música foi enviada pelos deuses para engrandecer a alma e dar vida aos da tabanka).

Na tabanka, vivendo em diversas divisões – as do campeonato do curto trânsito da vida porque passamos – estão também os adormecidos e os que estão acordados mas escolhem ficar quietos (a vida na tabanka não é assunto deles). Os apáticos não tomadores de partidos ou de clubes.

Nela vivem também, os que tomam o partido dos que vivem na Casa Grande. Contribuem para guerras acesas na tabanka enquanto da varanda da casa grande são admirados e gozados pelos senhores, que atiram pacotes de entretenimento para seu maior divertimento.

Nela vivem também aqueles que sabem o que se passa e fazem o que podem e acham justo, com pequeninas acções de colibris.

Até o John Lennon – segundo o Quincy Jones, os Beatles eram maus músicos – mas escreveu a canção sonhadora e lírica “Imagine”, que nunca poderá ser respeitada porque os senhoras da Casa Grande – os colonizadores bacocos do planeta – mandam no campeonato, constroem linhas divisórias e, a malta da tabanka/quilombo/musseque/sanzala continua a fazer luto pelos seus que vão caindo, e a lutar por aspirações básicas – excludência para o bidé que se tornou artigo secundário – como pão, casa, saúde, educação.

Na tabanka estão os sobreviventes Índios, os aborígenes, os pretos, os indianos e todos aqueles que vivem a pilar o milho que o diabo deixou para ser amassado.

Consoante a divisão do campeonato, assim as lutas se vão travando na tabanka.
Enquanto na casa grande se come um fausto almoço, pratica-se bom sexo comprado, com meninas da tabanka, fazem-se filhos com mulheres da casa grande para manter a linhagem pura e a orgia continua.

O rio segue o seu caminho por entre a tabanka e a casa grande. Alguns caminhos novos vai escolhendo, outros continuam iguais, mesmo que a água seja outra.

Decreto que hoje é dia do escravo. E tu que estás a ler. Vivemos na tabanka não te esqueças. Os nossos donos vivem na casa grande. Hoje é o nosso dia porque todos são os nossos dias, em guerra, a lutar pela vida. De mãos dadas vão o desespero e esperança. Na casa grande mangam connosco. Vamos fazer o que pudermos para mangar com os da casa grande. Sujando as mãos com as cores da Esperança e lavando-as da cor do desespero. Cuidando de cada jardim, porque desta guerra entre escravos e donos, ninguém sai vivo. Se vos pareço lunática, desculpem, mas a luta na tabanka aflige e cansa.

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