A Antiga Exploração Mineira no Concelho de Monchique Ouro, Prata, Cobre e Outros Metais

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Diário Illustrado, n.º 1061, de 29.10.1875, p.2.

A Serra de Monchique e os Recursos Minerais
Pela abundância de recursos naturais, nomeadamente a caça, a água, a fertilidade do solo, os pastos, o clima, os minerais, a abundância de frutos, etc., a região onde hoje se situa o concelho de Monchique foi desde os tempos mais distantes procurada por diversos povos, que aqui deixaram alguns vestígios da sua passagem.

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Diario Illustrado, n.º 1003, de 22.08.1875, p.2

O maciço alcalino de Monchique é um dos mais importantes da Europa e um dos maiores que se conhecem de composição miasquítica em contraste com a maioria dos grandes complexos alcalinos de natureza essencialmente agpaítica, como por exemplo Lovozero, Langesundfjord, Ilimaussaq e Mont Saint-Hilaire.

Fazendo uma simbiose entre os artigos de Rock (1983) e Gonzáles-Calvijo & Valadares (2003) a mineralogia das rochas sieníticas inclui, como minerais principais, feldspato alcalino (ortóclase e microclina), nefelina, piroxenas (aegirina e augite) e micas. Os minerais acessórios incluem analcima, apatite, calcite, cancrinite, esfena, fluorite, lavenite, natrolite, pirite, pirocloro, rosenbuschite, rútilo, sodalite, turmalina, wölerite e zircão. As amostras bem cristalizadas são relativamente raras dado que o sienito, e restantes rochas do maciço, se apresentam bastante compactas e relativamente pobres em cavidades. No entanto as cavidades miaroliticas e alguns veios pegmatíticos permitiram obter cristais, geralmente milimétricos ou sub-milimétricos, de analcima, natrolite, fluorite, aegirina, lepidolmelana, ancylite-Ce, calcopirite, magnetite, pirite, pirrotite, galena, sodalite e zircão. Inclusos no monchiquito encontraram-se cristais de sanidina. De todos estes os mais notáveis são os que se referem aos minerais do grupo dos zeólitos já que alcançam dimensões bastante superiores aos outros cristais.

A Extracção Mineira no Concelho
Através das fontes históricas sabemos que, desde o tempo anterior aos romanos, que no Algarve havia ouro, prata, cobre e ferro, pois esses povos exploraram estes recursos exaustivamente, tanto pelo processo das galerias, como a céu aberto e pelo desmoronamento de terras. Pepitas de ouro eram então encontradas nos rios Arade e Odelouca.

Também a arqueologia assinala algumas destas minas no concelho, sobretudo de cobre, estanho e outros metais, nomeadamente na zona das Caldas de Monchique, que foram exploradas ao longo dos tempos.

Estrabão diz que nesta região os Turdetanos extraíam ouro, prata, cobre, estanho e outros metais.

A busca de minas retomava de tempos em tempos, ao sabor dos tempos e das necessidades, nomeadamente nos séculos XVI e XVII e início do século XVIII, o que leva a pensar que o problema residiu sempre «na pouca abundância de minério facilmente acessível», nomeadamente as minas de cobre que havia na serra.

Na sua obra publicada em 1841 João Baptista da Silva Lopes fala das «águas férreas e sulfúricas» que desciam da serra, que deixavam aparecer nas «veias da terra arenosa bastantes folhinhas de certa matéria amarela e luzente aos raios do sol, o que indica a abundância de metais que em suas entranhas encerra este terreno».

No fim do século XIX Estácio da Veiga elaborou um mapa respeitante a 11 concelhos do distrito, onde encontrou vestígios de minas então exploradas, e que depois seriam abandonadas pelo esgotamento dos veios.

No subsolo algarvio existia antimónio, cobre, estanho, ferro, manganês, ouro, prata e volfrâmio.

Quem percorrer o concelho de Monchique encontrará ainda hoje algumas galerias escavadas pelo homem, que revelam que também aqui se pesquisaram os metais necessários à vida quotidiana das populações.

Para a população em geral estas grutas quer fossem naturais, de água, areia ou de extracção de metais eram vistas como coisas antigas e «do tempo dos mouros».

No último quartel de oitocentos tinham retomado as pesquisas mineiras, ao que cremos por impulso de empresas e técnicos estrangeiros que se moviam neste sector da economia. É assim que encontrámos na imprensa registos de centenas de minas de diversos metais descobertas um pouco por todo o reino, nomeadamente no Alentejo onde aparecem em grande número. Eram de alumínio, antimónio, arsénico, bário, cal hidráulica, calcário betuminoso, carvão de pedra, cimento romano, chumbo, chumbo argentífero e galena de chumbo, cobalto, cobre e pirite de cobre, enxofre, estanho, ferro, ferro magnético, fosforite, grafite (Moledo), grés, linhite, manganês, níquel, ocre, ouro (Coimbra, Gondomar, Vila Flor, Vila Nova de Cerveira, etc.), pirite de ferro, platina, prata, volfrâmio e zinco.

No concelho limítrofe de Odemira foram descobertas e registadas na mesma altura mais de vinte minas, nomeadamente de ferro e manganês, tendo seis delas sido descobertas por Carlos Luís Gubian; uma de manganês descoberta no mesmo concelho por Thomaz Haffenden, e outras mais que aparecem referidas no mesmo jornal. Algumas delas estariam entre as 74 minas de cobre, ferro, manganês e grés registadas no distrito de Beja, em Novembro de 1875. Nos anos seguintes de 1877, 1878 e 1879 aparecem neste concelho mais minas de ferro e manganês registadas e concessionadas a Thomaz Haffendeen, e António Guijarro da Orta, Manuel António Ruivo e Manuel Guerreiro e Manuel Luís Zarco, e outras mais que são referidas nos jornais.

Ontem como hoje registámos com alguma mágoa, que na sua generalidade a exploração era entregue a estrangeiros, talvez por que fossem detentores do know-how, da tecnologia e dos capitais de investimento.

Também no Algarve foram registadas algumas minas descobertas em Alcoutim (cobre, grés, manganês e outros minerais), Aljezur (cobre), Castro Marim (cobre e prata), Lagos (ferro), Loulé (cobre, chumbo e carvão de pedra), Silves (ferro), Portimão (ferro), e Tavira (cobre, ferro e manganês), o que revelava uma certa euforia na procura e descoberta destas riquezas.

Um desses achados deu-se algures no concelho de Monchique, durante o mês de Julho de 1875, pois uma notícia publicada em Agosto desse ano informava que tinha sido registada na Câmara Municipal de Monchique «uma mina de oiro e prata, acompanhada de outros metais».

Sobre este achado, nada mais sabemos nesta fase da nossa investigação, da mesma forma que ainda não nos foram revelados outros registos que porventura tenham sido lavrados.

Poderá não ter tido rentabilidade suficiente para a respectiva exploração, talvez devido aos veios se terem rapidamente esgotado, ou outra qualquer razão.

A descoberta de uma nova mina de ouro algures no concelho, em Outubro de 1875, fazia jus no mesmo diário lisboeta. À semelhança das duas anteriores seria também registada na Câmara Municipal, apesar de não se informar quem era o proprietário nem os terrenos e o sítio onde foi descoberta.

Apesar destas notícias remontarem ao remoto ano de 1875, seria proveitoso sabermos mais pormenores sobre estes achados e a sua exploração há 140 anos, um desafio de deixamos a investigadores mais ousados, que poderão encontrar noutras fontes a continuação deste trabalho.

Em meados de Junho de 1902 a imprensa referia-se à autorização concedida pela Câmara Municipal de Monchique para a passagem de uma mina (de que não diz o mineral), por debaixo da estrada da Portela das Eiras.

Estas descobertas contradiziam a afirmação de Tomas Cabreira na sua obra O Algarve Económico (1918), que diz que o «Algarve é pobre em jazigos minerais».

Ainda segundo o geólogo Charles Bonnet, na sua obra publicada em 1850, na altura só havia ouro na zona de Olhão, mas de rentabilidade duvidosa e outra referência dá-lo também como em exploração no concelho de Tavira.

Na sequência destas descobertas foram criadas em Outubro de 1879, no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, três novas cadeiras de leccionação, cujas designações eram “Mineralogia e Geologia Aplicada e Elementos de Geografia Física”; “Arte de Minas, Metalurgia e Princípios de Legislação Mineira Portuguesa”; e “Princípios de Química e Física e Introdução à História Natural dos Três Reinos”. Os lentes eram vitalícios e de nomeação do governo e tinham à sua disposição para ajudar nas aulas «colecções de exemplares, modelos e desenhos».

No censo de 1930 aparecem no concelho apenas cinco pessoas ocupadas na exploração de minas.

Na sua monografia José António Guerreiro Gascon fala da descoberta na Horta dos Brejos, em Marmelete, de um filão de mica e também da existência nesta freguesia de águas férreas.

Como testemunhos do tempo em que o homem perscrutava as entranhas da terra apenas temos hoje no concelho o parque museológico da Casa da Mina, no Vale de Boi/Torrinha, que tem entre os seus atractivos uma antiga mina de ferro, cobre e bário.

De fonte oral soubemos que numa mina abandonada do sítio da Perna da Negra foi há anos encontrada uma “pedra amarela”, que talvez fosse uma pepita de oiro, que depois de ter servido para brincadeira de garotos um dia desapareceu misteriosamente.r

Bibliografia
Charles Bonnet, Memória sobre o Reino do Algarve (…), in «Algarve, Description Géographique et Géologique de Cette Province (1850)», Estudo Introdutório de José Carlos Vilhena Mesquita, SEC, Faro, 1990.
Estácio da Veiga, Antiguidades Monumentaes do Algarve, 1887, vol. IV, Imprensa Nacional, Lisboa.
J. Mimoso Barreto, O Algarve, MEN, Lisboa, 1972,
João Baptista da Silva Lopes, Corografia do Reino do Algarve (…), Lisboa, 1841.
Joaquim Romero Magalhães, Algarve Económico Durante o século XVI, Lisboa, 1970;
Joaquim Romero Magalhães, O Algarve Económico: 1600-1773, Imprensa Universitária e Editorial Estampa, Lisboa, 1988.
José António Guerreiro Gascon, Subsidios para a Monografía de Monchique, Portimão, 1955.
José Rosa Sampaio, Naturalistas e Viajantes à Descoberta da Serra de Monchique: A Flora, 2.ª ed., Portimão, 1994.
Ricardo Pimentel, “Analcima e Natrolite do maciço alcalino de Monchique”, in http://profs.ccems.pt/RicardoPimentel/artigo_monchique.htm
Tomás Cabreira, O Algarve Económico, Lisboa, 1918.
Diário Illustrado, Lisboa, n.º 1017, 1080, 1584, 1786, 1212, 1148, 1704, 1003, 1061 e 2288, anos de 1875-1879.
O Districto da Faro, n.º 1363, de 05.06.1902, p.2.

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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